Sábado, 11 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 11 de julho de 2026
Uma mudança na letra de “Atirei o pau no gato”, mesmo que bem intencionada, está colocando a canção em risco, afirma Nélio Spréa, doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador das tradições populares da infância brasileira. Ao jornal O Globo, ele diz ainda que as crianças brincam menos do que outras gerações porque estão ocupadas demais com afazeres e telas. E reforça que as parlendas – típicas brincadeiras infantis, como as canções “Uni, duni, tê” ou “Um, dois, feijão com arroz” – são momentos em que se aprende do letramento até a sincronia de movimentos.
– As crianças hoje brincam menos que seus pais e avós? “Sim. Brincava-se mais porque as crianças se encontravam mais e tinham mais possibilidade de, juntas, acharem soluções para o tédio. Quando não há nada para fazer, elas têm que criar, inventar. Hoje, as crianças estão sobrecarregadas de tarefas e agendas, além de estarem entretidas por tempo demais com as ofertas do mundo digital.”
– O senhor publicou um vídeo dizendo que a mudança na letra de “Atirei o pau no gato” pode ter prejudicado a popularidade dela entre as crianças. O que aconteceu? “Essa é uma cantiga secular. Está no Brasil e em Portugal desde o século XIX. A razão para a alteração da letra é muito legítima (a nova versão é contra os maus-tratos ao animal), mas sugiro que essa adaptação não seja tão dramática. A métrica do texto é fundamental nessa cantiga. E no final tem um fator lúdico que é o “miau”, hora em que todas as crianças, numa roda, caem no chão. É uma diversão, que foi retirada da nova versão. A letra mexida deixou mais difícil para as crianças cantarem. Sugiro apenas uma mudança sutil: mudar ‘pau’ por ‘pão’ e ‘morreu’ por ‘comeu’.”
– Quando o senhor avalia que essas cantigas tradicionais podem ser alteradas? “Há um excesso de pudor pedagógico que recai sobre a sabedoria popular. Tem outras várias cantigas que sofrem com isso. ‘O cravo brigou com a rosa’, por exemplo, não é cantada porque algumas crianças presenciam a briga dos pais. Há um pudor excessivo nesse caso, sendo que justamente a cantiga se abre para trazer essa questão para ser trabalhada pelos professores. Mas a tradição não é mais que tudo. ‘Escravos de Jó”, por exemplo, pode mudar para ‘guerreiros nagô’ que não perde nada. Tem uma brincadeira que eu aprendi no Norte de Minas e depois descobri que é conhecida no país todo que as crianças cantam assim: ‘Plantei um pé de alface no meu quintal/nasceu uma negrinha de avental/rebola, negrinha/rebola, negrinha’. Não se admite mais isso. De uma forma simbólica, essa cantiga revela de forma explícita violências de uma época cruel do Brasil.”
– Algumas escolas estão proibindo brincadeiras tipo polícia e ladrão para supostamente proteger as crianças desses temas. Crianças precisam ser blindadas dessa forma na brincadeira? “Eu entendo que seja bem delicado em alguns contextos, como em escolas nas comunidades do Rio de Janeiro. As crianças trazem para a experiência lúdica toda uma linguagem e comportamento que é muito fiel com o que está ocorrendo no dia a dia em casa. Nesse caso, as escolas têm muita dificuldade de lidar e proíbem porque não sabem o que fazer.”
– Essa é a melhor estratégia? “Seria melhor que não proibisse, mas que pudesse acompanhar porque é muito rico para fazer a mediação a partir do que acontece na brincadeira. É muito dolorido para a criança lidar com a violência real. Mas quando está no contexto do polícia e ladrão ela pode conseguir conversar sobre algumas coisas que se negam quando estão falando da vida real.”
– Brincadeira tem gênero? “Muita gente gostaria que brincadeira tivesse, faz um esforço imenso para isso. Há até professores que militam nessa causa e que impõem restrições drásticas ao desejo das crianças de brincar, dizendo o que pode ou não. Meninos querem brincar com bonecas ou de casinha porque enxergam suas próprias rotinas. Muitos deles estão vendo os pais como agentes da limpeza e dos cuidados com os bebês. O brincar é a expressão dessas realidades. É tão bonito o menino imitando um pai, mas às vezes é boicotado e fica sem entender o motivo. As crianças devem brincar daquilo que elas sentem vontade, desde que não agridam ou ofendam umas às outras.”
– Nesse mundo em que a tecnologia é tão atraente, como as famílias podem fazer com que seus filhos brinquem como tradicionalmente sempre se brincou? “Elas precisam delimitar o tempo de permanência na frente de telas. Há vídeos que são ótimos para as crianças, o problema é o excesso. Os pais acham que ali elas estão mais controladas, seguras, a casa fica mais silenciosa. Mas isso compromete muito a saúde física e emocional, além do desenvolvimento cognitivo da criança. Isso gera agitação, falta de paciência com o tempo real das coisas, dificuldade de interação, medo social. A dica é não troque a saúde das crianças pela calmaria ilusória que o uso das telas provoca.” As informações são do jornal O Globo.
Verificação de Email - você receberá um email de confirmação após enviar o seu primeiro comentário, mas ele só será publicado depois que você clicar no link de verificação enviado para a sua conta de e-mail para confirma-lo. Os próximos comentários serão publicados automaticamente por 30 dias!