Sábado, 15 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 11 de julho de 2026
Brigitte, personagem de Tatá Werneck na novela “Quem Ama Cuida”, da Globo, invade a casa de seus ex-namorados e ficantes, aparece de surpresa em lugares que eles frequentam e envia mensagens insistentes. A atriz retrata um comportamento comum fora das telas, o stalking –ou perseguição–, que é considerado crime no Brasil desde 2021.
Um homem de 35 anos que trabalha na segurança pública do Rio de Janeiro, e pediu para não ter seu nome revelado pela reportagem, lida com uma cyberstalker como a Brigitte há oito anos.
Ele conta que conheceu uma mulher em um aplicativo de relacionamentos. Os dois tiveram um encontro, mas ele preferiu não continuar a relação. Ela não aceitou bem a rejeição, ele diz, e começou a enviar flores, mandar mensagens e fazer dezenas de ligações por dia.
O fluminense calcula que ela usou quase cem números telefônicos diferentes para entrar em contato. Além disso, tentou invadir suas redes sociais e enviou mensagens para ex-namoradas. Num episódio, a mulher se passou por ele e importunou uma ex até que ela solicitasse uma medida protetiva contra o homem. Ele moveu dois processos contra a stalker e conseguiu uma medida cautelar.
Segundo a legislação brasileira, a pena é de reclusão de seis meses a dois anos, mais multa, e é agravada quando o crime é cometido contra mulher por razão de gênero.
A lei 14.132 tipifica como stalking a perseguição reiterada, presencial ou digital, quando há ameaça à integridade física ou psicológica ou invasão de privacidade.
A conduta obsessiva foi ilustrada também em outras produções recentes, como a popular “Bebê Rena” (2024), série da Netflix baseada em uma história real.
Para configurar crime, o comportamento precisa se repetir, não basta um único episódio, explica Mariana Rieping, advogada criminalista especialista em crimes relacionados a gênero e membro da Comissão Especial de Combate à Violência Doméstica do Conselho Federal da OAB.
A insistência é a principal característica do stalking, diz a advogada. O stalker não aceita os limites impostos e insiste em manter contato ou monitorar a vida da vítima. São formas de perseguição as “esperas de surpresa” na porta de casa, do trabalho ou da faculdade e as aparições “por coincidência” em locais frequentados pela pessoa.
Com as redes sociais, vieram novas formas de cometer o crime. O cyberstalking pode ser mais difícil de identificar, diz a advogada especialista em direito digital Gisele Truzzi. “Muitas vezes, a relação começa com uma admiração e migra para um comportamento tóxico”, diz.
O principal indício é a interação excessiva, que ultrapassa o limite de fã, resume Truzzi. “É a soma de atitudes que envolvem perseguir, constranger, intimidar e ameaçar.”
A prevalência de stalkers homens é maior do que a de mulheres, afirma Ana Lara Castro, procuradora de Justiça do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul e autora do livro “Stalking e Cyberstalking” (Tirant Lo Blanch Brasil). Para ela, isso é fruto da desigualdade de gênero, que ensina meninos a não aceitar o “não”.
O stalking é muito relacionado a alguém que não aceita o término de um relacionamento. Não à toa, é conduta frequente em casos de violência doméstica, afirma a procuradora de Justiça.
Em São Paulo, homens têm escondido tags em carros e objetos pessoais para monitorar ex-mulheres.
O rejeitado é o perfil de stalker mais comum, diz Castro. É também o mais perigoso, pois conhece detalhes da vítima.
Outro tipo é o carente, que acredita ter um vínculo com quem persegue. Esse é um transtorno psicótico, explica Daniel Barros, psiquiatra do Núcleo Forense do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. “A pessoa tem uma quebra com a realidade que faz com que ela a interprete de forma distorcida.”
Nem todo perseguidor, no entanto, tem alguma patologia, ressalva o psiquiatra. Na maioria das vezes, esse comportamento não é derivado de um transtorno mental, ele diz.
Por outro lado, a perseguição pode afetar a saúde mental da vítima. A sensação de perder a própria liberdade e autonomia “leva a um desgaste emocional grande”, afirma Barros. Isso pode evoluir para um quadro depressivo ou ansioso, completa.
Uma nutricionista de 44 anos, que também pediu para manter o anonimato, conta que viveu um relacionamento abusivo, no qual o namorado invadia suas redes sociais e email e monitorava aonde ela ia. Ele não aceitou o término da relação. A perseguição, então, piorou. Ele enviava dezenas de mensagens diariamente dizendo que a amava, mas também a xingando, e entrava em contato com colegas dela.
Quando a nutricionista iniciou um novo relacionamento, o ex começou a ameaçar o parceiro dela. A vítima tentou fazer uma denúncia em 2020, quando stalking ainda não era considerado crime. Na delegacia, porém, ouviu que, como ela não apanhava, não abririam um boletim de ocorrência. O assédio só cessou quando um delegado enviou uma notificação para o stalker. Ela iniciou terapia, mas sente medo até hoje e mantém seus perfis privados.
As especialistas afirmam que muitos podem demorar para identificar o stalking porque interpretam as atitudes como “excesso de interesse”, carinho ou ciúmes. “Quando há sensação de medo ou vigilância constante, é importante acender o alerta”, diz Rieping. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.
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