Quinta-feira, 16 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 16 de julho de 2026
Muitos casais “funcionam”: organizam-se, cumprem suas responsabilidades, são práticos e seguem em frente. Outros, porém, além de funcionarem, sentem uma profunda conexão emocional. Essencialmente, conseguem demonstrar vulnerabilidade sem medo, discutir sem se destruírem e se reconectar após um dia difícil. É a isso que os especialistas em psicologia se referem quando falam de casais emocionalmente inteligentes.
Inteligência emocional em relacionamentos não significa nunca discutir ou estar sempre de bom humor. Segundo Susan Albers, psicóloga da Cleveland Clinic, trata-se de algo muito mais profundo: a capacidade de estar emocionalmente disponível um para o outro. No dia a dia, isso fica evidente em cenas simples, como chegar em casa depois de um dia difícil e, em vez de reagir com rispidez ou se isolar olhando para o celular, ser capaz de dizer: “Tive um dia difícil, posso desabafar por cinco minutos?”. Essa pequena pausa emocional impede que o cansaço se transforme em distanciamento ou ressentimento.
“A inteligência emocional em um relacionamento não se limita a ‘se dar bem’, mas sim à capacidade de construir um ‘nós’ que proteja o bem-estar de ambos os parceiros”, explica Claudia Cortez Chávez, diretora do programa de psicologia da Universidade San Ignacio de Loyola, em Lima.
Embora um relacionamento possa se sustentar por anos por meio de questões práticas, a casa, os filhos ou as obrigações compartilhadas, quando falta conexão emocional, tende a se tornar distante, com pouca consciência dos sonhos, medos ou necessidades atuais do outro. Em contrapartida, casais com alta inteligência emocional mantêm seus “mapas do amor” atualizados: sabem o que preocupa o parceiro hoje, o que o anima e o que o desgasta. Eles cultivam amizade, empatia e uma comunicação que busca compreender em vez de vencer.
Na prática, essa diferença também é observada na forma como discutem. Casais com baixa inteligência emocional frequentemente se veem presos em padrões como crítica, desprezo, defensiva ou evasão, o que intensifica o conflito. Casais com inteligência emocional, embora não sejam perfeitos, regulam melhor suas reações, validam as emoções um do outro e priorizam o relacionamento em vez do impulso de estarem certos.
“Baixa inteligência emocional não é uma falha de caráter. Muitas vezes é uma falta de habilidades, não de amor. A maioria das pessoas nunca aprendeu a identificar suas emoções, regular o estresse ou reparar os danos após um conflito. A boa notícia é que a inteligência emocional pode ser aprendida e praticada”, disse Albers. Confira abaixo alguns hábitos que sustentam o vínculo.
– 1 – Escuta emocional: Uma das práticas mais importantes é a escuta ativa e empática. Segundo a psicóloga organizacional Janet León, da MAPFRE, casais com inteligência emocional dedicam tempo para se ouvirem mutuamente, sem distrações como celulares ou televisão, buscando compreender não apenas o que o outro diz, mas também o que sente. Isso permite maior presença, abertura e ausência de julgamento.
Na mesma linha, Antonella Galli, psicóloga da Clínica Ricardo Palma, mencionou que a escuta ativa significa validar a experiência do outro e reconhecer que o que ele sente, pensa ou precisa faz sentido. Expressões como “Eu entendo que isso dói” ou “Seus sentimentos são válidos” constroem confiança e aprofundam a intimidade. “Quando as pessoas se sentem ouvidas e compreendidas, o vínculo se fortalece e elas ficam mais dispostas a fazer mudanças para que ambas se sintam bem. Sem isso, o relacionamento perde profundidade emocional e se torna egocêntrico”, completa.
– 2 – Validar mesmo sem compreender completamente: Segundo Aída Arakaki, psicóloga da Clínica Internacional, a validação emocional não exige compreender totalmente a experiência da outra pessoa, mas sim oferecer apoio emocional e reconhecer que ela está passando por um momento difícil. “Saber reconhecer e tolerar que a outra pessoa se sinta de forma diferente, mesmo quando essas emoções não são significativas para nós, permite que ela se sinta validada e com o direito de sentir o que sente. Esse apoio pode ser expresso por meio de palavras, gestos de apoio, afeto ou até mesmo silêncio compartilhado”, diz Ruth Kristal, psicóloga da Clínica Sanna San Borja.
– 3 – Responsabilidade emocional: Este hábito envolve reconhecer as próprias emoções, compreender sua origem e assumir a responsabilidade pela forma como se escolhe agir em resposta a elas, sem culpar o parceiro. Segundo León, isso significa identificar quando o desconforto tem origem pessoal, devido a experiências passadas, estresse externo ou emoções não resolvidas, e gerenciá-lo individualmente.
No entanto, quando o desconforto está ligado ao relacionamento, ele é comunicado a partir do próprio indivíduo, expressando sentimentos e necessidades, por exemplo, “Eu me sinto frustrado quando…” , sem acusar ou criticar a outra pessoa. Essa forma de comunicação reduz a defensiva, promove o diálogo e transforma o relacionamento em um espaço seguro onde ambos os parceiros podem se expressar sem medo.
“Inteligência emocional não significa reprimir emoções ou ‘não ficar com raiva’. Vulnerabilidade autêntica inclui raiva, lágrimas, crises emocionais ou explosões emocionais. O que é saudável é ser capaz de expressar essas emoções sem agressividade, dizendo o que o magoou ou incomodou e, se necessário, reservar um tempo para se recuperar emocionalmente”, enfatiza Albers.
– 4- Gestão reflexiva de conflitos: Segundo a psicóloga Janet León, os casais que mantêm seu relacionamento por meio da inteligência emocional, antes de reagirem impulsivamente, permitem-se fazer uma pausa, acalmar-se e identificar o que sentem. Frases como “Preciso de alguns minutos e depois podemos continuar conversando” evitam escaladas emocionais desnecessárias.
“Essa autorregulação inclui a tomada de perspectiva: refletir sobre o impacto das próprias palavras e ouvir ativamente o ponto de vista do parceiro. Quando a conversa se torna muito intensa, é saudável fazer uma pausa, desde que a pausa seja comunicada claramente e com o compromisso de retomar o diálogo mais tarde”, enfatiza a psicóloga da Cleveland Clinic.
Uma vez que a situação tenha sido abordada com mais calma, esses casais frequentemente recorrem a rituais de reparação: pedidos de desculpas sinceros, gestos de carinho, abraços ou tempo juntos. Esses atos restauram a conexão emocional e fortalecem o vínculo mesmo após momentos difíceis.
– 5- Compreender o mundo interior do outro: Esse hábito se constrói sobre uma cultura de diálogo e confiança. Como Kristal destacou, somente através da expressão e da escuta é possível acessar a experiência emocional do parceiro. Não podemos esperar que a outra pessoa saiba magicamente o que está acontecendo conosco, o que nos machuca, o que vivenciamos ou quais experiências passadas nos marcaram ou traumatizaram.
Para que a outra pessoa nos entenda, é necessário expressar em palavras o que sentimos e pensamos: dizer em voz alta o que dói, o que nos deixa desconfortáveis, o que tememos ou o que não gostamos. Confiar em um senso equivocado de empatia, que pressupõe que a outra pessoa deva saber ou intuir o que estamos passando, só cria distância e frustração no relacionamento.
“Compreender o mundo interior da outra pessoa significa estar disposto a expressar em palavras a sua própria experiência emocional e, ao mesmo tempo, estar disponível para ouvir a dela. Este hábito é tão importante para o relacionamento quanto expressar afeto e proximidade através de frases como ‘Eu te amo’, ‘Eu te entendo’ ou ‘Estou aqui para você’, uma vez que fortalece a intimidade emocional e o sentimento de apoio mútuo”, enfatizou a especialista da Sanna.
– 6 – Respeito pelos limites emocionais: Ter limites claros é uma consequência direta de uma autoestima saudável. De acordo com Galli, casais emocionalmente inteligentes sabem o que estão dispostos a tolerar e o que não estão, e comunicam isso claramente. Além disso, esses limites são mantidos quando existem valores compartilhados como respeito, lealdade, honestidade, empatia e confiança, o que facilita que os limites sejam vivenciados não como rejeição, mas como cuidado mútuo.
Por sua vez, Paul Brocca, professor do programa de psicologia da Universidad Científica del Sur, acrescentou que o respeito aos limites é reforçado pelo planejamento de atividades, pela existência de espaços individuais e pela busca de hobbies pessoais ou compartilhados: “Conhecer as prioridades e a visão de vida um do outro permite manter a conexão sem perder a individualidade.” As informações são do jornal O Globo.
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