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Mundo As peças que não se encaixam na investigação da morte do presidente do Haiti

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Desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse, o Haiti não tem governante. (Foto: Reprodução)

Nas ruas do Haiti, a versão das autoridades de que um grupo de mercenários veteranos do Exército colombiano invadiu a residência oficial e matou o presidente Jovenel Moïse tem pouca credibilidade.

“Resumindo, a Polícia Nacional do Haiti e [o seu chefe] Léon Charles não são fontes confiáveis. Eles têm o rabo preso de várias maneiras diferentes, desde gangues até a inteligência dos Estados Unidos”, escreveu Kevin Pina, um dos editores do site Haiti Information Project.

Há ceticismo em relação ao que diz o governo interino, e muitos se perguntam como os supostos assassinos conseguiram penetrar em um complexo fortificado sem trocar um só tiro com os seguranças.

As famílias dos supostos mercenários colombianos, incluindo 18 detidos, três mortos e cinco foragidos, alegam que eles estavam no Haiti para oferecer serviços de segurança, contratados por uma empresa de Miami chamada CTU Security.

No último domingo (11), a polícia apontou o suposto médico Christian Emmanuel Sanon, de dupla cidadania (haitiano-americana), como suposto mandante. Ele teria pagado pela execução como parte de um suposto plano para assumir a presidência.

Esta alegação, no entanto, também é contestada, e o mistério permanece, em uma trama que ainda envolve a guarda presidencial, uma tentativa de golpe de Estado, acusações sem provas contra o governo americano e uma intricada armação.

Abaixo, algumas peças que não se encaixam no quebra-cabeças do assassinato de Jovenel Moïse:

1) Qual era o plano do suposto médico preso?

Até agora, Christian Emmanuel Sanon é o único preso como suposto mentor do assassinato de Moïse.

De acordo com a mídia do Haiti, Sanon é um suposto médico — que teria autorização para exercer medicina no Haiti, mas não nos EUA — haitiano-americano evangélico de 63 anos que se alterna entre a Flórida e o país caribenho há mais de 20 anos, e se apresenta como um benfeitor no Haiti.

Há objetos que o ligam ao grupo de colombianos: em sua casa, foram encontradas armas, munições, quatro placas de carros da República Dominicana e um boné com o logotipo da Agência de Controle de Drogas dos Estados Unidos (DEA) — adorno igual ao que teria sido usado pelos homens que invadiram a casa de Moïse.

De acordo com a Associated Press, autoridades haitianas dizem que, imediatamente após a morte de Moïse, um dos suspeitos presos telefonou para Sanon.

Segundo a polícia do Haiti, o suposto médico teria entrado no Haiti em junho, usando um avião particular acompanhado por alguns dos colombianos, que inicialmente teriam sido contratados para fazer sua segurança.

“A missão mudou quando um dos agressores recebeu uma ordem judicial para capturar o presidente”, disse o chefe da Polícia Nacional do Haiti, León Charles.

Segundo algumas versões da imprensa, a intenção de Sanon não era assassinar Moïse, mas capturá-lo, e então ser empossado como presidente. Larry Caldwell, um pastor da Flórida que disse ter contribuído com Sanon no começo do século, disse à AP que o plano não envolvia violência, porque ele seria um homem muito evangélico, e temeria “ir para o inferno”.

Algo teria saído errado, embora ainda não se saiba o quê. Não se sabe, tampouco, qual era o seu plano para assumir o poder.

2) Quem eram os cúmplices de Sanon?

Segundo registros obtidos pelo Miami Herald, é questionável se Sanon teria meios para organizar um golpe. Ele tem vários negócios inativos na Flórida, e, em 2013, suas dívidas chegariam a US$ 400 mil. Naquele ano, seu salário anual foi de US$ 60 mil.

Suspeitos presos no assassinato alegaram que recebiam até US$ 3 mil por mês para atuar em uma firma de segurança, e a polícia não explicou como Sanon poderia bancar um golpe.

Um amigo de Sanon na Flórida disse à Associated Press que ele foi abordado por pessoas que afirmaram representar os Departamentos de Estado e de Justiça dos EUA que queriam instalá-lo como presidente.

“Isso eu garanto”, disse o amigo de Sanon, falando sob anonimato à AP. “Era para ser uma missão para salvar o Haiti do inferno, com o apoio do governo dos EUA.”

O governo americano nega qualquer participação em um possível complô, e é improvável que fosse patrocinar um golpe com mercenários para empossar um desconhecido médico.

O amigo de Sanon na Flórida disse à AP que participou de uma reunião com o próprio e cerca de 12 outras pessoas, incluindo Antonio Enmanuel Intriago Valera, um venezuelano que dirige a empresa da Flórida CTU Security.

Nessa reunião, teria sido feita uma apresentação para reconstruir o Haiti, incluindo o seu sistema de água, a reforma de estradas e um projeto para converter lixo em energia.

Segundo a polícia do Haiti, Sanon teria feito um telefonema após ser informado da morte de Moïse, mas ainda não se sabe para quem.

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