Quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 23 de janeiro de 2026
Um fundo da Trustee DTVM, responsável pela administração de ativos do Banco Master, investiu quase R$ 10 milhões na BSF Gestão em Saúde, empresa envolvida em esquema de descontos ilegais de aposentados do INSS. A BSF pertencia ao lobista Danilo Trento até março de 2024, quando ele a transferiu a uma mulher que foi beneficiária do Bolsa Família.
O aporte ocorreu em fevereiro de 2023 por meio do fundo Albali, que, segundo Daniel Vorcaro, dono do Master, tinha à época como único beneficiário seu então sócio Maurício Quadrado, que saiu do banco em 2024. O fundo foi o mesmo utilizado pelo banqueiro na aquisição do Fasano Itaim, hotel de luxo em São Paulo.
Procurado, Danilo Trento disse que o aporte ocorreu quando ele ainda era diretor, e não sócio da BSF. Também admitiu ser até hoje o seu verdadeiro dono, apesar de, no papel, tê-la transferido a outra pessoa.
Vorcaro negou, por meio de sua assessoria, qualquer relação com Trento. Afirmou ainda que não é nem nunca foi cotista do fundo, embora já tenha se apresentado publicamente como dono de parte do Fasano Itaim – cuja participação depois foi vendida ao BTG Pactual. A assessoria de Quadrado disse que não conhece e não tem nenhuma relação com Danilo Trento.
Na data em que recebeu o investimento, a BSF ainda pertencia a Francisco Maximiano, um parceiro de negócios de Trento, a quem o controle da firma foi repassado dois meses depois, com controle sobre 99% das cotas. “Essa empresa, eu fui diretor dela. Não era minha, era de um outro empresário, um grande amigo meu, que é um cara que eu tenho tesão de dizer que trabalhei com ele. É um cara excepcional, correto”, diz Trento sobre Maximiano.
Os dois foram alvo da CPI da Covid. Eram suspeitos de intermediar um contrato superfaturado para a compra de vacinas pelo Ministério da Saúde no governo de Jair Bolsonaro. Trento atuava como diretor do grupo de Maximiano. Agora, ele é alvo de outra CPI do Congresso, que investiga descontos ilegais a aposentados do INSS.
De acordo com demonstrações contábeis, o Albali adquiriu 9,9 mil notas comerciais da BSF por R$ 9,9 milhões – cada uma ao preço de R$ 1 mil. Trata-se de uma espécie de título de dívida corporativa com promessa de pagamento futuro pelo seu emissor. O vencimento do acordo estava previsto para março do ano passado, quando a BSF deveria honrá-lo. Mas isso nunca ocorreu, segundo a Trustee.
À reportagem, a gestora afirmou que foi vítima de um calote. “A empresa ( BSF) nunca honrou com o pagamento das parcelas, que deveria ter sido iniciado em maio de 2023 e finalizado em março de 2024. Sendo assim, o fundo Albali nunca teve ganhos com o investimento”, informou, acrescentando: “Importante ressaltar que o fundo Albali, seus gestores e a Trustee DTVM não mantêm qualquer relação societária, operacional ou pessoal com Daniel Vorcaro e Danilo Trento”.
A Trustee é de Maurício Quadrado, ex-sócio de Vorcaro no Master, e foi citada na Operação Carbono Oculto, que investiga o uso de fundos de investimento para lavar dinheiro da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
O Albali tem patrimônio de R$ 466 milhões e apenas um cotista, cuja identidade é protegida por sigilo. À época da aquisição do Fasano Itaim, Vorcaro disse, em entrevista ao jornal Valor Econômico, que Quadrado era o “único beneficiário” do fundo.
Quadrado disse, por meio de sua assessoria, que não conhece e não tem nenhuma relação com Danilo Trento. “Os administradores e gestores do Fundo Albali não tomaram conhecimento da alteração societária da empresa BSF e nunca tiveram contato com os novos sócios.”
A BSF está hoje em nome de Francine da Rosa, moradora da cidade de Tubarão, em Santa Catarina, que já foi beneficiária de programas sociais do governo federal, como o Bolsa Família e o Auxílio Emergencial. Hoje, ela é a única dona de uma empresa com capital social de R$ 2 milhões, cedidos a ela por Trento sem nenhuma cobrança, em março de 2024. Ele admite que fez a manobra para evitar o bloqueio de valores pela Justiça. A BSF é alvo de uma ação de penhora por causa de dívida de R$ 3 milhões de Maximiano com outra empresa.
“Por que está no nome dela? Tinha uma ação que ia tomar uma cota. Aí o advogado orientou que tirasse (meu nome) e colocasse aqui (no nome de Francine). A empresa foi minha, é minha, ela está em trabalho já de voltar para mim.”
Francine mora a mais de 800 quilômetros da sede da BSF, que fica em Barueri, na Grande São Paulo, e vive em uma casa simples situada em uma rua de terra batida, como mostram imagens de satélite. Ela também se tornou dona da T5 Consultoria, outra firma que era de Trento, na mesma época. O Estadão não conseguiu contato com Francine da Rosa.
Há ressalvas quanto ao grau de confiança dos números reportados pelo Albali à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), isso porque a RSM, auditoria responsável por emitir um parecer sobre as suas contas, não emitiu opinião devido à falta de dados suficientes para aferir a veracidade das informações prestadas pelo fundo.
“Devido à relevância dos assuntos descritos na seção a seguir, intitulada ‘Base para abstenção de opinião’, não nos foi possível obter evidência de auditoria apropriada e suficiente para fundamentar nossa opinião de auditoria sobre essas demonstrações financeiras”, diz o documento da RSM ao justificar a não elaboração do parecer.
Danilo Trento é apontado como um dos principais integrantes do grupo que desviou bilhões das contas de beneficiários do INSS. De acordo com as investigações, ele atuou em conluio com o ex-procurador-geral da autarquia Virgilio de Oliveira Filho, hoje preso, para manter normas que viabilizaram a continuidade das cobranças irregulares. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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