Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 14 de setembro de 2020
A espaçosa residência que Franz Beckenbauer escolheu para desfrutar de sua aposentadoria fica no pacato e aristocrático distrito de Aigen, em Salzburg, na Áustria. Mesmo local onde viveu a família Von Trapp, na qual se baseia o clássico “A noviça rebelde”, de 1965. Um dos maiores ídolos da história do futebol, o alemão que venceu duas copas para seu país planejava levar uma vida tranquila após tantas glórias. Mas, em seu aniversário de 75 anos, nesta sexta-feira, as menções ao ex-craque vêm se dividindo entre o passado de absoluto êxito profissional e as sombras recentes de um escândalo de corrupção.
Beckenbauer foi o inigualável líbero à frente da seleção alemã que venceu a primeira Copa do Mundo do país, em 1974, derrotando o “carrossel holandês”. Dezesseis anos mais tarde, ele era o técnico comandando a equipe campeã do Mundial da Itália, desbancando a Argentina de Maradona. Ao deixar os gramados, já na década de 90, ele presidiu o Bayern de Munique, mesmo clube que o revelou, ainda nos anos 60. Mais tarde, o ex-jogador, também chamado de Kaiser (imperador) liderou a candidatura de seu país para sede da Copa de 2006. Pois vem justamente desse período a maior parte das acusações que deixam o clima tenso em Aigen.
Em 2016, promotores na Suíça abriram uma investigação contra ele e mais três pessoas referente à campanha alemã para sediar o Mundial de 2006. Como integrantes do comitê, ele foram acusados de fraude, gestão criminosa, lavagem de dinheiro e apropriação indevida. Em linhas gerais, suspeita-se de que parte dos votos dos membros de comissões da Fifa que possibilitaram a escolha da Alemanha como sede tenham sido comprados. A residência em Salzburg foi alvo de uma operação de busca e apreensão. Beckenbauer sempre negou as alegações contra ele.
Além disso, o herói alemão chegou a ser banido da Fifa por 90 dias após supostamente se negar a colaborar com as investigações sobre compra de votos para as escolha das sedes dos mundiais de 2018 (Rússia) e 2022 (Qatar). A punição foi suspensa quando ele concordou com o inquérito.
Tragicamente, esses processos foram abertos quando a saúde de Beckenbauer começou a se deteriorar. Em 2016 e 2017, ele passou por pelo menos duas operações para tratar de problemas cardíacos. Em uma entrevista ao canal de TV alemão Bild, do qual foi comentarista esportivo por muitos anos, ele disse que “Tudo nos últimos anos me afetou muito. As cirurgias, a história de 2006. Vejo que no fim das contas ficou claro que na realidade não houve nada, mas foi duro”.
Não há nenhuma certeza de que “não houve nada”. Nos últimos dias, diferentes veículos de comunicação no mundo publicaram reportagens sobre os 75 anos do astro do esporte. Muitos se dividiram entre os títulos e as suspeitas. Esta semana, um documentário exibido pelo canal alemão ZDF mostra como Beckenbauer foi engolido, ou se deixou engolir, pelo sistema que promove o esporte da bola e da chuteira. Agora, grande parte da opinião pública está contra o ídolo.
Mas muitos preferem se ater à estrada vitoriosa que Beckenbauer pavimentou enquanto atuou como jogador ou técnico. Nascido em Munique, em 1945, ele começou a jogar bola contra a vontade de seu pai. Numa entrevista exclusiva ao GLOBO, em 1998, quando já era dirigente esportivo, ele contou que o futebol “comia” seus sapatos e que o pai reclamava porque não tinha dinheiro para comprar outros pares. “Mas o futebol ganhou espaço na sociedade. Depois que me tornei profissional do Bayern, ele passou a ser meu maior admirador”, disse ele.
O Kaiser começou sua carreira profissional no Bayern de Munique, time e pelo qual atuou entre 1964 e 1977. Neste período, foi campeão da “Bundesliga” quatro vezes e venceu a Liga dos Campeões da Europa três vezes. Foi a partir desse período que o clube se tornou um gigante do futebol internacional. Beckenbauer deixou o Bayern quando assinou um contrato vultuoso para vestir a camisa do New York Cosmos, que estava se despedindo do brasileiro Pelé. Pelo time americano, o alemão foi campeão dos Estados Unidos por três temporadas consecutivas.
Mas foi na seleção alemã que Beckenbauer se consolidou como astro de fama global. Em 1970, na semifinal contra a Itália no México, ele contundiu o ombro e, como a equipe não poderia mais fazer substituições, o líbero jogou quase a partida inteira com o braço imobilizado. A Alemanha perdeu aquele jogo, mas ganhou um ídolo que, no Mundial seguinte, levaria o país a sua primeira conquista de uma Copa. Após a vitória por 2 a 1 contra o fantástico “carrossel holandês”, jornais do mundo todo reconheceram o papel fundamental de Beckenbauer na campanha vitoriosa.
O craque ficou de fora das duas copas seguintes, de 1978, na Argentina, e de 1982, na Espanha. Mas voltou à seleção alemã como treinador. Já em 1986, levou o país à final do Mundial realizado no México, mas foi derrotado pela Argentina de Maradona. Em 1990, porém, em mais uma final contra a seleção argentina, Beckenbauer conquistou o segundo título para seu país coordenando um time que incluía astros como o capitão Lothar Mathaus e Jurgen Klinsmann. A Alemanha, agradecida, batia palmas para o maior ídolo de sua história nos gramados.
Os comentários estão desativados.