Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 24 de janeiro de 2018
“Às vezes não gosto de falar sobre essa história, porque é tristeza demais, muito arrependimento”, diz Juliana Cruz pouco menos de três meses após desembarcar no Brasil depois de 21 dias presa em um centro de detenção da inteligência na Síria.
A auxiliar administrativa de 24 anos deixou Cuiabá e viajou para Damasco em 13 de novembro em busca de “uma aventura”: sua primeira viagem internacional. Durante uma campanha de arrecadação de fundos para refugiados e soldados daquele país na capital do Mato Grosso, conheceu uma família de sírios pela internet, que a convidou para passar 15 dias em sua casa e mostrar a realidade do país.
Juliana não podia imaginar que seria presa sem justificativas e mantida em celas minúsculas, comendo nada mais que uma fruta a cada cinco dias. “Eu era feliz e não sabia”, diz. “Pesquisei sobre a cidade e sobre o caminho que percorreria, mas não foquei na situação do governo, na hierarquia do país. Esse foi meu erro”, admite.
Amigas próximas da jovem suspeitavam que ela teria se apaixonado por um dos sírios com quem conversava pela Internet, um rapaz chamado Zakharia. Chegaram inclusive a dizer que Juliana viajou para se casar. Mas ela nega essa versão e aponta para o fato de que mantinha um relacionamento de quatro anos em Cuiabá — o namorado rompeu com ela após a viagem por suspeitar da versão das amigas.
A viagem
Juliana pediu para uma colega de trabalho comprar as passagens em seu nome: 5.200 reais parcelados em oito vezes. Não contou para a família ou namorado o destino de suas férias.
Na madrugada do dia 16 de novembro, Juliana desembarcou em Beirute, capital do Líbano, país vizinho à Síria. Ali, encontraria uma guia brasileira, Carla Mussallam, que a ajudaria na tradução e no seu primeiro dia no Oriente Médio.
A guia vinha insistentemente advertindo Juliana de que, ao contrário do que seus contatos haviam informado, a viagem à Síria era muito perigosa. No último minuto, no entanto, a mato-grossense desistiu da ajuda de Carla e acabou viajando sozinha de carro até Damasco, capital da Síria, com um vizinho da família que visitaria — um trajeto que em condições normais levaria pouco mais de duas horas.
Após passar por diversos postos de controle militar libaneses e sírios para a conferência do passaporte e do visto, Juliana finalmente chegou a seu destino ainda na manhã do dia 16, onde toda a família já aguardava por ela. “Me trataram muito bem”, conta Juliana. Entretanto, as férias duraram muito pouco: ela foi presa naquele mesmo dia, à noite, quando um oficial do Exército compareceu à casa em que estava hospedada e pediu que ela o acompanhasse para mais uma checagem de documentos.
Juliana foi levada a uma base militar, também em Damasco, e logo em seguida a um centro prisional. “Não tinham motivos para me prender. Eu não fiz nada, tinha visto, passaporte, estava legal”, diz a jovem.
Juliana conta que Zakharia seria membro do Exército sírio e que no momento de sua detenção chegaram a mostrar-lhe fotos do rapaz. A jovem desconfia que estava sendo vigiada justamente por estar hospedada na casa de um militar.
Prisão
Juliana foi mantida em dois centros de detenção diferentes. No primeiro, dividia a cela com outras 45 mulheres, entre elas oito grávidas. O local era extremamente iluminado e vigiado 24 horas por câmeras, segundo conta. Sem camas ou cadeiras, passava o dia sentada no chão, de cócoras.
Não conseguia comer a refeição árabe oferecida todos os dias, servida em uma grande bacia para ser compartilhada.
Depois de oito dias, foi transferida para outra prisão na zona administrativa de Damasco.
Passou 13 dias confinada ali, sem poder conversar e sob constante ameaça das carcereiras.
Resgate
Depois de três dias sem contato, a mãe de Juliana estava desesperada. Acionou a Polícia Federal no Mato Grosso, mas foi informada que ainda era muito cedo. Buscou então a ajuda do Itamaraty e da embaixada brasileira na Síria.
A embaixada em Damasco conseguiu localizar Juliana após muita procura.
Assim que deixou sua cela, Juliana foi levada ao Ministério das Relações Exteriores do governo de Bashar Al-Assad, onde o vice-ministro Faisal Mekdad aguardava pela jovem juntamente com três diplomatas brasileiros. Segundo Juliana, ele pediu desculpas e garantiu que entraria em contato após a guerra, para convidá-la a conhecer seu país.
Juliana voltou ao Brasil no dia 6 de novembro. Foi internada no hospital e fez uma bateria de exames para detectar possíveis infecções. Ficou dias sem conseguir se alimentar direito e ainda tem crises de choro. Trancou o quinto semestre de direito que cursava em uma faculdade de Cuiabá e deixou seu trabalho na Associação Mato-Grossense dos Municípios. “Muitas pessoas disseram que passei por tudo isso porque colhi o que plantei. Mas isso não é verdade, fiz tudo de coração”, garante.
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