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Edson Bündchen Cegos e banguelas

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A moralidade, espelhada na agenda de costumes, trazida de modo raivoso para a política, cega e divide as pessoas. No atual momento, o Brasil encontra-se segregado pela política, não a política capaz de mediar o possível, mas a política do “nós contra eles”, na qual a existência do outro ameaça a nossa própria identidade. Esse quadro é agravado quando discursos oficiais são contagiados por questões de cunho moral e religioso, criando-se uma tensão não mais contida em pressupostos racionais, mas passionais e sectários. Não se presume, portanto, que as próximas eleições sejam marcadamente programáticas, como deveriam ser, mas fortemente emocionais, saturadas de ressentimento, alimentadas por discursos intolerantes, cujas raízes são complexas, mas que caudalosamente desembocam nessa inquietante quadra da vida nacional. O Brasil precisará, contudo, atravessar esse momento sem colocar em risco os avanços institucionais das últimas décadas, e talvez para isso, seja preciso bem mais do que apelos ao bom senso e à moderação.

Somos um dos maiores países cristãos do mundo, e a religiosidade se expressa de múltiplas maneiras em nossa sociedade. No sentido legal, deveríamos viver sob um Estado laico, com a Igreja e seus assuntos separados das funções típicas de Governo. Porém, as discussões envolvendo o debate ético, do certo e do errado e as inevitáveis tensões surgidas no terreno da moralidade, colocam em xeque o Estado Secular e provocam o acirramento de uma cisão social em curso, explicitada em inédita polarização política. O recente caso envolvendo o aborto em uma menina de apenas 11 anos deflagrou intensa discussão na sociedade, denotando o quão difícil se torna harmonizar contrários no confronto de sistemas morais, enquanto conjuntos interligados de valores, virtudes, normas, práticas, identidades, instituições, tecnologias e mecanismos psicológicos evoluídos que trabalham juntos para suprimir ou regular o interesse próprio e possibilitar sociedades cooperativas, como tão bem definiu o professor Jonathan Haidt.

O atual debate político, entretanto, parece cada vez mais inclinado a ouvir os conselhos de Maquiavel aos príncipes florentinos do que exatamente apaziguar, conciliar e formar consensos, mesmo que ainda frágeis. Vivemos sob o signo da vingança como forma de justiça, da intolerância e do autoritarismo enquanto expressão do poder, flertando com a lei de talião do “olho por olho, dente por dente”, mesmo ao risco de ficarmos todos cegos e banguelas. Nesse caminho, não deveria soar ingênuo desejar ou admitir que todos podemos nos dar bem, de que é possível colaborar, superar nossas eventuais divergências e conviver com os contrários, mesmo que não idealmente. O enfoque religioso e moral, todavia, em vez de amainar os ânimos e congregar, tem operado de forma diversionista e contrastante aos seus propósitos originais. Além de não promover a união entre as pessoas, usar a metáfora bíblica da luta entre o bem e o mal, tem distanciado os opostos e exaurido uma energia que seria canalizada de modo mais produtivo para o encaminhamento de soluções que hoje agonizam a vida dos brasileiros, como a pobreza, a fome e a violência.

O perigo dessa radicalização política que vivemos hoje não está em nas inclinações que possamos ter por um pensamento mais conservador ou progressista, pois isso sempre existiu. O problema é não respeitar a pluralidade de ideias, o contraditório, o diferente, e resvalar para o dogmatismo, para o autoritarismo, para a violência como alternativa ao diálogo. Ao se apropriar de uma suposta verdade, geralmente impositiva, e imaginar que todos aqueles que divergem de nós são inimigos a serem suprimidos, elimina-se a possibilidade de cooperação e aniquila-se qualquer construção possível dentro de uma ideia comunitariamente desejada. Isso não é somente indesejável, como deveria ser objeto da atenção e envolvimento de todos aqueles que decididamente enxergam na democracia a melhor forma de equilibrar as complexas e crescentes demandas da sociedade moderna.

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