Quinta-feira, 01 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 3 de maio de 2020
Porta de entrada para o sonho de uma vida melhor na Europa, o aeroporto de Lisboa virou o centro da peregrinação de emigrantes brasileiros que desistiram de viver em Portugal. Eles perderam o emprego devido à pandemia da Covid-19 e não conseguem mais permanecer no país, mas estão sem dinheiro para a volta ao Brasil.
Em tempos de distanciamento social e frio na madrugada, cerca de 40 pessoas dormiram aglomeradas por uma semana na calçada do terminal à espera de um encaixe em um dos voos de repatriamento fretados pelo Itamaraty. Na quinta-feira, houve desistências, 23 puderam embarcar de última hora e 17 foram para um abrigo.
O cônsul-geral adjunto do Brasil em Lisboa, ministro Eduardo Hosannah, estimou que há outras 600 pessoas em situação semelhante, entre turistas e desvalidos, e adiantou que requisitou aprovação de recursos para novos voos de repatriamento, mas aconselha aos residentes a procurarem os programas de assistência de Portugal.
Oficialmente, a comunidade brasileira residente é de 150 mil pessoas, a maior no país. O Fundo Monetário Internacional (FMI) previu que o desemprego em Portugal atingirá 14% da população, a maior taxa já registrada. Em 45 dias de estado de emergência, milhares de brasileiros perderam emprego e há relatos de que grande parte vive à beira da mendicância e dependente de doações para comer.
Com uma manta colorida enrolada ao redor do pescoço, várias camadas de agasalhos, capuz, luvas e máscara cirúrgicas, Alex Santos dormiu durante uma semana em meio aos carrinhos de bagagens na calçada do terminal. Em um dos bolsos da calça, o ex-serralheiro de 41 anos, de Duque de Caxias, diz carregar €70, mas não pode gastar porque é o dinheiro que pretende usar para ir de São Paulo, destino único dos voos, a Conselheiro Pena, no interior de Minas Gerais, onde encontrará a mulher e as três filhas, para quem enviava dinheiro. Ele afirma que seu nome chegou a ser incluído pelo Itamaraty, mas depois o embarque foi adiado e ele segue à espera no abrigo.
Durante a pandemia, o governo de Portugal decretou que imigrantes com a regularização pendente poderiam ser considerados legais, desde que tivessem dado entrada no pedido de residência até 18 de março. Teriam acesso ao sistema de saúde e apoio da previdência social para autônomos (a medida excepcional durante a pandemia estabelece um valor com base em remunerações anteriores).
Mesmo quem tem direito ao seguro-desemprego tradicional quer voltar, porque não acredita na recuperação da economia em curto prazo. Cerca de um em cada cinco trabalhadores do país foi demitido desde o início do surto, e o número de desempregados subiu para 380.832 pessoas — apenas 10 mil abaixo do pico da crise financeira de 2008.
O estado de emergência em Portugal terminou neste domingo e, a partir desta segunda, começa a reabertura lenta e gradual, com medidas rígidas de segurança semelhantes às adotadas em outros países europeus, para que não haja mais casos de contágio. O plano de desconfinamento foi dividido em três fases, com a reabertura de diferentes setores da economia a cada 15 dias — os primeiros a voltarem a funcionar são os pequenos comércios, cabeleireiros, concessionárias de carros e livrarias.
O trabalho remoto continuará obrigatório no país até o final do mês. Os trabalhadores poderão retornar gradualmente aos escritórios em junho, quando for implementada a terceira fase do plano, que inclui ainda a reabertura de shopping centers, cinemas e teatros, com a manutenção do distanciamento físico.
Logo após o estouro do surto na Europa, uma verba de R$ 62 milhões foi destinada para operações de repatriamento do Itamaraty em todo o mundo. Somente de Portugal foram retiradas quase 1.500 pessoas. Para receber o apoio, é preciso fazer um cadastro e obedecer ao critério determinado pela embaixada, de extrema fragilidade social e econômica.
A confirmação em um dos voos chega por e-mail e, para alguns, este processo durou mais de um mês. Para quem não recebeu o aviso e não tem onde esperar, o aeroporto passou a representar uma esperança. Na manhã da última quinta-feira, o paulista André Soncin estava indignado ao não receber confirmação da embaixada e observar um cachorro junto de sua dona na fila de embarque para o repatriamento.
O cônsul-geral adjunto garantiu que ninguém embarcará “no grito” nesta segunda fase de repatriamento. E o ministro afirmou que será aberto um novo cadastro, que poderá determinar a quantidade dos possíveis voos extras, caso os recursos sejam autorizados.
Entre exemplos de critérios usados para a repatriação, o ministro diz que há brasileiros encontrados pela polícia portuguesa em situação de tráfico humano.
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