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Mundo Chile escolhe novo presidente entre esquerda e extrema-direita em eleição neste domingo

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José Antonio Kast (à esquerda) e Gabriel Boric chegam em empate técnico neste domingo ao segundo turno da disputa presidencial.

Foto: Reprodução
Gabriel Boric e José Antonio Kast chegam em empate técnico neste domingo ao segundo turno da disputa presidencial. (Foto: Reprodução)

Quando os chilenos forem às urnas para o segundo turno neste domingo (19), estará em jogo bem mais do que apenas a escolha de seu novo presidente. Ao decidirem entre Gabriel Boric, da esquerda, e José Antonio Kast, da direita radical, os eleitores vão ter influência decisiva sobre o destino de processos de transformação desencadeados há dois anos, quando imensas manifestações nas ruas aparentavam exprimir uma insatisfação generalizada com o modelo econômico e social herdado da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Por ora, é possível dizer que o país já vive um novo alinhamento político. Tanto Kast, um ex-dirigente da União Democrática Independente (UDI) que deixou o partido em 2017 para lutar contra “o politicamente correto”, quanto Boric, um ex-líder estudantil de 35 anos cuja carreira se fez à margem dos partidos tradicionais de centro-esquerda, correspondem a um novo equilíbrio de forças, com um centro esvaziado e uma polarização intensa.

A ascensão meteórica de Kast, baseada na promessa de ordem e no temor à instabilidade, desfez a narrativa, muito difundida, de que sentimentos progressistas tinham se tornado imbatíveis no Chile. Seu crescimento não só significou uma reorganização do campo da direita, debilitado sob a liderança impopular de Sebastián Piñera. A emergência do candidato do Partido Republicano constituiu, ao mesmo tempo, uma tentativa de retorno ao passado, com a reabilitação do legado de Pinochet e a inserção do Chile em uma nova direita internacional, muito à vontade na internet, “antiglobalista” e provocadora.

O mero fortalecimento do candidato já traz um baque para a Convenção Constitucional que agora redige uma nova Carta, a solução encontrada para a crise política de 2019: “Simbolicamente, sua ascensão é algo que não se esperava. A narrativa predominante dos deputados constituintes é de que todo o Chile gostaria de uma mudança constitucional, que o Chile havia ido para a esquerda e o modelo neoliberal havia fracassado”, afirmou Carlos Meléndez, do Centro de Estudos de Conflito e Coesão Social (Coes).

Formada em julho e com prazo de nove meses, prorrogáveis por mais três, a Convenção, composta majoritariamente por forças progressistas, avança lentamente, com desafios de organização. A composição do novo Congresso eleito em novembro, muito fragmentado, torna improvável uma extensão de sua duração. O presidente não tem poderes diretos sobre os constituintes, mas pode agir para facilitar ou atrapalhar o órgão, pela oferta de recursos ou por declarações públicas.

Ambiguidade de Kast

Kast, que buscou moderar seu discurso durante a campanha, tem sido ambíguo sobre a Constituinte, após opor-se a ela no plebiscito que aprovou sua convocação. Na semana passada, disse que, se vencer, “a primeira coisa” a fazer será “tentar gerar mesas de diálogo com a Convenção”. No entanto, destacou que “se não respeitarem o direito à liberdade de expressão, liberdade de culto, liberdade de educação, de propriedade privada, vou, dentro dos marcos legais (…), fazer o possível para que [a nova Carta] seja rejeitada”.

O temor de muitos no Chile é de que um eventual governo ultraconservador tente bloquear as transformações expressas na Constituinte, seja dificultando seu trabalho,fazendo campanha pela rejeição da nova Constituição no plebiscito previsto para o final do processo ou, após a sua eventual aprovação, travando o vasto trabalho legislativo necessário para sua regulamentação:

“Se Kast ganhar, o seu triunfo vai ser interpretado como um mandato para bloquear ou moderar as mudanças. Isso é muito perigoso, porque as causas do descontentamento de 2019 seguem presentes e não desapareceram. Pode ser muito perigoso fingir que nada ocorreu no Chile e que o país pode voltar ao estado pré-agitação social”, afirmou Gabriel Negretto, cientista político da Universidade Católica (PUC-Chile). “Mas creio que a equipe de Kast tem inteligência política para entender que não pode adotar um bloqueio constante. Se o fizer, a reação pode levar a uma grande instabilidade política.”

Kast já declarou que, frente a um eventual retorno de protestos de massa, incluindo ações violentas — que, desde 2019, nunca deixaram de ocorrer, embora em escala menor — pode invocar medidas de exceção, incluindo “prender pessoas em lugares que não sejam cadeias”.

“Frente a qualquer protesto, a situação provavelmente será militarizada e criminalizada, em um cenário mais exacerbado do que em 2019. No pior dos casos, a repressão das forças da ordem seria muito mais agressiva, e isso geraria uma escalada de violência”, disse Julieta Suárez Cao, cientista política da PUC-Chile.

Repleta de promessas sociais, de promoção dos direitos das minorias e de medidas ambientais, a agenda de Boric, a despeito de eventuais obstáculos para sua adoção, tem convergência significativa com os trabalhos da Convenção. Quando Kast ganhou no primeiro turno, saíram em apoio a Boric as constituintes feministas, líderes ambientais, constituintes independentes e ativistas de minorias sexuais. O candidato várias vezes prometeu oferecer “apoio total” ao processo constituinte.

Para Gabriel Negretto, a maior dificuldade de Boric se dá no âmbito econômico. A inflação chilena é a maior desde 2008, e estima-se que quase 2 milhões de empregos tenham sido perdidos por causa da pandemia. O Banco Central estima um crescimento do PIB neste ano entre 10,5% e 11,5%, mas prevê uma desaceleração em 2022: “Os mercados deram sinais claros de que temem um governo de Boric. Ele pode atenuar a instabilidade econômica se moderar as demandas redistributivas ou de aumentos de impostos mais radicais, mas não se sabe se o fará”, disse Negretto.

Economistas moderados

No segundo turno, Boric atraiu à sua equipe economistas respeitados próximos à antiga Concertação — a coalizão de partidos de centro-esquerda que governou o Chile durante a maior parte do período desde a redemocratização. O candidato mudou bastante de tom, deixando de lado uma lógica de refundação do país. Se, no começo, falava em adotar “transformações profundas”, agora diz que seu projeto é pôr em prática as “mudanças que o Chile precisa”.

“Houve um reconhecimento do quanto se pode mudar com as regras do jogo e a distribuição de poder no Congresso. Se Boric ganhar, não poderá passar grandes reformas, e isto dependerá da Constituinte. A governabilidade será complicada para qualquer um”, afirmou Suárez Cao.

Os candidatos aparecem empatados nas pesquisas. Em um país onde o voto é voluntário, a composição do eleitorado será um fator decisivo. Isabel Castillo, da Escola de Governo da PUC-Chile, observa que candidatos extremistas como Kast muitas vezes têm um voto oculto, de quem boicota pesquisas.

“Boric, por outro lado, leva vantagens pelo maior apoio entre as mulheres. No Chile somos decisivas, por sermos mais numerosas. Tudo depende de como se mobilizem. Boric também tem muito apoio entre os jovens, mas não sabemos se irão votar mais que em outras vezes”, disse Castillo.

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