Terça-feira, 04 de Agosto de 2020

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Ciência Cientistas planejam criar guia para caçar sinais de civilizações alienígenas com o apoio da Nasa

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Ilustração de um estudo feito pelo físico Adam Frank, que imaginou uma suposta população alienígena baseada na Ilha de Páscoa. (Foto: Divulgação)

Ao longo dos próximos três anos, uma equipe de cientistas vai dar o pontapé inicial num projeto ousado. Financiados pela agência espacial americana, a Nasa, pesquisadores de diferentes universidades dos Estados Unidos desenvolverão uma espécie de guia para encontrar indícios de civilizações extraterrestres em outros planetas.

O projeto representa uma pequena revolução na busca por vida extraterrestre inteligente (SETI, na sigla em inglês) e é o primeiro do tipo a receber apoio financeiro da agência em três décadas.

Em entrevista à BBC News Brasil, o físico e astrônomo que lidera a pesquisa, Adam Frank, da Universidade de Rochester, contou que o trabalho vai se basear no conceito de “tecnoassinaturas”, ou seja, na busca de indícios de uso de tecnologia por civilizações extraterrestres.

Diferentemente de pesquisas anteriores, no entanto, a ideia é não depender de sinais enviados pelos alienígenas. Em vez de tentar captar ondas de rádio que possam eventualmente chegar até nós, o projeto pretende estabelecer a forma como determinadas tecnologias que conhecemos, também potencialmente usadas por raças alienígenas inteligentes, poderiam ser detectadas visualmente por meio de telescópios.

“Você pode pensar nas tecnoassinaturas como parte da SETI, mas na verdade elas representam uma expansão dessa busca. É uma nova direção, que só é possível graças à descoberta de outros planetas fora do Sistema Solar”, explica Frank.

O astrônomo se refere à confirmação oficial da existência de planetas orbitando outras estrelas de nossa galáxia, ocorrida em 1995. Desde então, já se sabe que existem mais de 4 mil exoplanetas, como eles são conhecidos, alguns deles dentro de regiões consideradas propícias à vida.

“A dúvida sobre a existência de planetas orbitando outras estrelas remonta aos gregos, há cerca de 2,5 mil anos, e só foi respondida 25 anos atrás. Depois de acharmos os primeiros, rapidamente percebemos que a galáxia estava repleta deles. E, quando você tem planetas, tem também um lugar para onde olhar na busca por civilizações extraterrestres”, esclarece o astrônomo.

Quando tudo começou

Frank entrou pela primeira vez em contato com o espaço sideral aos 5 anos de idade. Seu pai era jornalista e mantinha uma biblioteca com diversas edições de revistas de ficção científica. “Eu me lembro de descer as escadas e dar uma espiada nas capas, que tinham ilustrações de pessoas flutuando ao redor da Lua em suas naves espaciais.”

Mais tarde, passou a devorar livros de ficção científica. Ele diz ter desde cedo um interesse especial por formas de vida alienígenas. Só há pouco tempo, porém, se debruçou sobre o tema profissionalmente, após uma carreira acadêmica principalmente dedicada a estudar a formação e morte de estrelas.

A partir da publicação de seu último livro, Light of the Stars: Alien Worlds and the Fate of the Earth (Luz das Estrelas: Mundos Alienígenas e o Destino da Terra, em tradução livre), em que ele questiona como a descoberta de civilizações alienígenas poderia afetar nossa percepção sobre o futuro da humanidade, Frank mergulhou de fato nesse universo.

A proposta de pesquisa que recebeu apoio da Nasa nasceu há dois anos, durante uma oficina sobre tecnoassinaturas organizada pela agência, em Houston, no Texas. Hoje, o projeto também inclui os professores e pesquisadores Avi Loeb, da Universidade Harvard, Jacob-Haqq Misra, da organização Blue Marble Space, Manasvi Lingam, do Instituto de Tecnologia da Flórida, e Jason Wright, da Universidade do Estado da Pensilvânia.

Frank ressalta que a pesquisa, com duração máxima de três anos, marca o início de um projeto muito maior, que deve se estender por décadas, e que inicialmente vai englobar apenas dois tipos de tecnoassinaturas.

À procura de sinais de inteligência

A escolha por procurar tecnoassinaturas vem da insistência do grupo de cientistas em encontrar vida inteligente. O foco difere, por exemplo, daqueles que optam pela busca por bioassinaturas, área que historicamente tem recebido mais incentivos da Nasa e que busca indícios de qualquer tipo de vida, o que incluiria também seres como plantas e micro-organismos.

“A Nasa financiou fortemente buscas por bioassinaturas, com um grande esforço para encontrar formas de vida ‘burras’, mas jamais apoiaria a pesquisa de vida inteligente? Isso simplesmente não faz mais sentido nenhum”, diz Frank.

Ao longo dos próximos três anos, com o apoio financeiro ainda relativamente modesto concedido pela agência (aproximadamente US$ 300 mil, ou cerca de R$ 1,59 mihões), os cientistas buscarão entender melhor as assinaturas visuais que podem ser geradas por dois indícios específicos de existência de tecnologia, à distância de vários anos-luz: a poluição e o uso de energia solar.

“Em relação à poluição, devemos procurar especificamente por sinais de CFC (clorofluorocarbonetos), um químico gerado por aparelhos de refrigeração e que foi banido por aqui devido aos danos que causa à camada de ozônio. Também queremos estabelecer qual assinatura deixaria a luz refletida em painéis solares, caso uma civilização, como a nossa, tenha tido a ideia coletar energia de uma estrela em larga escala.”

Se tudo der certo, esses devem ser os primeiros tópicos a serem incluídos em um catálogo de tecnoassinaturas que será mais extensamente desenvolvido ao longo das próximas décadas e servirá como guia aos astrônomos que estiverem observando outros planetas em busca de indícios de vida inteligente.

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