Segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2020

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Capa – Caderno 1 Cineastas e produtores rebatem críticas do ministro Osmar Terra aos filmes brasileiros

O ministro disse que obras nacionais 'não têm plateia' por serem 'muito ruins'. (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Depois do presidente Jair Bolsonaro, que criticou o uso de dinheiro público em filmes que considerou de “ativismo”, foi a fez de o ministro da Cidadania, Osmar Terra, dar declarações negativas sobre a produção cinematográfica brasileira. Ele afirmou à revista “Veja” que “metade dos filmes brasileiros não tem nem 1000 espectadores”. Terra disse que os longas são “mal-feitos, usados para fazer proselitismo político, mas receberam em média entre R$ 4 e 5 milhões de incentivos”. O ministro afirma que “gosta de cinema” e conta que “um dia” foi assistir a um filme “desses financiados pela Ancine, e havia apenas três pessoas na sala. Não é à toa que não têm plateia. São muito ruins”.

Ele afirma ter identificado 3500 longas com prestação de contas irregular. Questionado se suspeitaria de fraudes, diz que “a maioria das pessoas é séria, mas que o dinheiro é pago de forma adiantada”. “Se for um cara que não está nem aí, só querendo ganhar o dinheiro, pega o dele, a produtora pega um tanto, o diretor pega um tanto e os atores outro tanto. Aí se faz o filme mais barato possível, uma vez que cada um já recebeu o dele… Quando vão prestar contas detalhadas, começam a aparecer absurdos, notas fiscais em série, etc”.

Produtora de filmes como “De pernas pro ar 2”, que este ano levou um público de quase dois milhões de pessoas aos cinemas (1,825 milhão, exatamente), Mariza Leão diz que as declarações do ministro não são baseadas no que acontece, de fato, no setor.

“Os contratos são feitos com organograma de pagamentos atrelados ao cumprimento de cada etapa da produção: preparação, filmagem, finalização. O orçamento da Ancine é aprovado por etapas, logo, ninguém tira o seu na frente”, rebate ela que, de 2008 a 2019, produziu longas que venderam 18 milhões de ingressos. “Nessa altura do campeonato, o ministro Terra já teve tempo suficiente para melhor se informar sobre a dinâmica da gestão de uma obra audiovisual. Chega de tentativas de desqualificar milhares de profissionais da cultura e do audiovisual.”

Segundo Mariza, “não há 3500 prestações de contas irregulares, há prestações de contas que ainda não foram analisadas pela Ancine”.

“Da mesma forma que o Executivo também falha quando deixa de assinar a cota de tela, que é lei – afirma ela, sobre a obrigação legal de exibição de um mínimo de obras nacionais no cinema ou na televisão.”

Outra situação que deveria mobilizar o governo, segundo Bianca de Felippes, produtora de “Faroeste caboclo”, visto por um milhão e meio de pessoas em 2013, é a ocupação de quase 90% das salas brasileiras pela produção estrangeira (“o Estado precisa proteger o nosso mercado”, diz). Para Bianca, a fala do ministro reflete um profundo desconhecimento do funcionamento do setor audiovisual.

“Estivemos com o ministro em fevereiro (Bianca também é integrante da Associação dos Produtores de Teatro – APTR) e entregamos a ele, por escrito, o passo a passo do funcionamento da bilheteria do teatro e do cinema. Ele achava que todo o dinheiro que entrava ia direto para o bolso do produtor. O que também é preciso entender é que não dá para julgar um filme por uma sessão. Há sempre sessões mais fracas, o que faz a quantidade de público é o montante de tempo que ele consegue ficar no cinema, e é isso que não estamos conseguindo: nos manter nas salas.”

É preciso também levar em conta o caminho do filme além do cinema.

“Produzi “A última abolição”, que levou cinco mil pessoas ao cinema, mas teve 300 mil espectadores na TV. Depois, foi para a TV Escola, para debates… Há todo um leque, o filme é para toda a vida.”

Ela chama a atenção ainda para o que considera como informação difundida equivocadamente.

“Fundo Setorial não é dinheiro público, é um imposto do setor audiovisual, que alimenta seu próprio fundo. Noventa por cento da cadeia produtiva do audiovisual vêm de fundos alimentados pelo Condecine. Não é um orçamento do governo para escolas públicas, saúde. Do jeito que o governo fala, parece que os filmes são feitos com dinheiro da União.”

Sobre a qualidade dos filmes, Bianca lembra que o cinema brasileiro sempre foi muito bem recebido no exterior. “Temos reconhecimento no mundo inteiro, é só ver a quantidade de filmes que conseguem viajar pelo Brasil e pelo mundo e fazem o maior sucesso lá fora. Somos muito bem recebidos em todos os festivais do mundo.”

Diretora de filmes como “Pastor Claudio”, “Xingu cariri caruaru carioca” e “Memória para uso diário”, Beth Formaggini faz coro.

“O cinema brasileiro é aclamado em todos os mais importantes festivais internacionais. A atividade audiovisual é gerida por uma receita que vem de impostos recolhidos pela própria atividade. Tem empresas estrangeiras que não querem pagar estes impostos, e este governo quer desmontar a Ancine para beneficiar essas empresas.”

O cineasta Cacá Diegues diz que não precisa ser especialista para saber o que acontece hoje com o cinema brasileiro. Que basta acompanhar as notícias para saber do “extraordinário sucesso comercial” de filmes como “Minha mãe é uma peça”, “De pernas pro ar”, “Laços” e outros, todos com mais de dois milhões de espectadores.

“Que se saiba, nenhum deles foi ‘usado pra fazer proselitismo político’. Os jornais também noticiaram o sucesso internacional de filmes como “Bacurau” e “A vida invisível”, ambos premiados em Cannes, além de “Benzinho”, “O paciente”, “Os silêncios”, nosso “O grande circo místico” e tantos mais”, enumera.  “É preciso acabar com essa falta de respeito com uma atividade que gera emprego e renda, além de contribuir com quase 3% do PIB do país. E tudo com recursos da Condecine, uma taxa gerada pela própria atividade. Muita gente nem sabe disso, achando que o cinema é feito com dinheiro do Estado. Esse ministro, por exemplo, além de falar sobre o que não sabe e não entende, é muito ignorante, pois não sabe nem ler jornal.”

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