Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 13 de março de 2023
A guerra na Ucrânia impulsiona a compra de armas na Europa em uma velocidade sem precedentes desde o fim da Guerra Fria, segundo dados analisados pelo jornal El País a partir do levantamento anual do Instituto Internacional de Investigações para a Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês), lançado nesta segunda-feira (13). As importações europeias aumentaram 92% em 2022, o maior crescimento anual desde a queda do Muro de Berlim, em 1989.
O aumento das importações no continente europeu não é uma tendência de hoje: as compras cresceram 40% nos últimos cinco anos, enquanto o comércio internacional de armas contraiu 5,1%. Nas Américas, a redução foi de 21%, mas o Brasil vai na contramão: entre 2018 e 2022, as importações foram 48% maiores que nos cinco anos imediatamente anteriores, incremento que coincide com o mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro e sua retórica militar e pró-armas.
Nas nações europeias, o incremento se acentuou após a eclosão da guerra na Ucrânia, com a maior parte dos países aumentando suas importações. Por outro lado, as exportações de armas russas, prejudicadas pelas sanções ocidentais que buscam minar as capacidades do Kremlin de financiar sua guerra, despencaram para o nível mais baixo desde 1998.
“A única razão para [as compras] aumentarem tanto entre os países europeus é a Rússia”, disse ao jornal espanhol Siemon Wezeman, investigador do Sipri. “E aumentarão muito mais nos próximos anos.”
Com folga, a Ucrânia é o país onde as importações cresceram de forma mais acentuada: o valor dos armamentos recebidos no ano passado foi 68 vezes maior que em 2021. A maioria do material veio de doações de aliados — remessas fundamentais para que o país resistisse às agressões, frente ao esgotamento de seu arsenal ainda nos meses iniciais da guerra —, mas uma pequena parte foi financiada por países como os Estados Unidos e a Holanda.
O cálculo do Sipri não inclui as centenas de milhares de projéteis e artilharia que também foram dados a Kiev, chaves para as batalhas no Donbass, um dos epicentros do conflito, no Leste do país. A comercialização de tais materiais também é pouco transparente, e os dados disponíveis são muito limitados.
Empresas lucram
O conflito também foi benéfico para as 10 maiores empresas de armamento dos EUA e da Europa — com a exceção das chinesas, as principais do mundo. Elas aumentaram seu faturamento em 7,5% no último trimestre de 2022, quando os impactos do conflito passaram a superar os obstáculos impostos por mais de três anos de pandemia e os distúrbios na cadeia de produção.
Se a Ucrânia foi a maior responsável por impulsionar as importações, muitos aliados também receberam mais armas que em qualquer outro ano neste século. As remessas que desembarcaram na Polônia tiveram um aumento anual de 764%, enquanto as húngaras cresceram 211%, as suecas aumentaram 161% e as tchecas, 109%.
“Após a invasão russa da Ucrânia, todos os integrantes europeus da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] aumentaram sua produção e se encarregaram de novos pedidos, que em alguns casos já começam a se refletir [nos números]”, disse Wezeman. “A correria é maior que nunca. Os governos não pretendem que os aviões de combate e tanques comprados hoje sejam entregues em um prazo de dez anos. Querem para amanhã.”
Alguns dos principais compradores europeus, como o Reino Unido e a Alemanha, contudo, reduziram ligeiramente o valor de suas importações durante o ano passado. Em outras nações, a contração foi um pouco maior: houve uma redução de 52% na Dinamarca, de 38% na Bélgica e 31% na Romênia.
“Muitos países já haviam reagido em 2014 [ano em que a Rússia invadiu a Ucrânia e anexou unilateralmente a Península da Crimeia], quando ficou evidente o perigo representado pela Rússia.” As informações são dos jornais O Globo e El País.
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