Sábado, 17 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 5 de maio de 2023
Victor Ferreira, José Assis, Daniel Campos. Em princípio, nomes absolutamente comuns no Brasil e que dificilmente chamariam atenção. Nos últimos meses, porém, eles passaram a fazer parte de uma investigação sobre espionagem internacional envolvendo polícias e serviços de inteligência de diferentes países, incluindo o Brasil.
No centro dela, uma pergunta: como os serviços de inteligência da Rússia teriam transformado o Brasil em uma espécie de “berçário” de espiões?
De acordo com a polícia, a fachada promovida por uma identidade brasileira falsa e uma vida paralela no Brasil seria ideal para que esses agentes circulassem por espaços de poder não só no país, mas em todo mundo, sem despertar desconfiança nos serviços de inteligência da Europa e dos Estados Unidos, por exemplo.
Nos últimos três meses, a BBC News Brasil conversou com investigadores, agentes de inteligência e oficiais de cartórios de diferentes Estados para explicar como e por que o Brasil foi escolhido pela Rússia como o ponto de partida de alguns dos agentes que fariam parte da elite da espionagem russa.
Procurada, a Polícia Federal não se pronunciou sobre o caso.
A BBC News Brasil enviou questionamentos à embaixada e ao consulado-geral da Rússia no Brasil, mas nenhuma resposta foi enviada. Desde que os casos começaram a ser revelados, o governo russo não se manifestou sobre o assunto.
Pelo menos três casos de supostos espiões russos sob identidades brasileiras foram detectados nos últimos meses. Até o momento, ainda não há evidências de que eles teriam espionado instituições ou autoridades brasileiras.
Tanto os documentos produzidos pelo FBI, a polícia federal americana, quanto pela Polícia Federal brasileira aos quais a BBC News Brasil teve acesso apontam que eles usaram o país e suas identidades brasileiras como ponto de partida para suas atuações em países como os Estados Unidos, Irlanda e Noruega.
O primeiro suposto espião “brasileiro” a vir à tona foi Sergey Vladimirovich Cherkasov, que usava a identidade brasileira de Victor Muller Ferreira.
Em abril de 2022, ele foi detido em Amsterdã quando tentava entrar no país e mandado de volta ao Brasil. Ele havia sido aprovado em um programa de estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia.
A corte é responsável pelo julgamento de crimes de guerra. Neste ano, ela emitiu uma ordem de prisão contra o presidente russo, Vladimir Putin, por atos cometidos durante a invasão russa à Ucrânia.
As investigações conduzidas por holandeses, americanos e brasileiros apontam que Cherkasov era um agente do GRU, um dos serviços de inteligência das Forças Armadas russas.
Ele foi condenado a 15 anos de prisão no Brasil por uso de documento falso. No processo, ele admite ter se passado por brasileiro, mas nega ser um espião.
Em uma audiência no Supremo Tribunal Federal (STF), ele se recusou a responder quando foi perguntado sobre o tema.
Contra Cherkasov pesa ainda um inquérito por lavagem de dinheiro.
Poucos meses depois, em novembro, foi a vez de outro “brasileiro”, José de Assis Giammaria, ser preso em Tromsø, na Noruega.
As autoridades dos países afirmam que ele se chama, na verdade, Mikhail Mikushin, e seria um coronel russo que fingia ser brasileiro e atuava como pesquisador na Universidade do Ártico da Noruega, país com quem a Rússia faz fronteira.
O terceiro caso surgiu em 2023 depois que uma brasileira reportou o desaparecimento de seu namorado, o também “brasileiro” Gerhard Daniel Campos.
Autoridades gregas, no entanto, alegam que Campos, na realidade, seria um espião russo cujo verdadeiro sobrenome é Shmyrev e que adotava uma identidade e personalidade brasileiras.
Cherkasov, Mikhail Mikushin e Shmyrev são suspeitos de pertencer a um exemplo clássico de agente secreto infiltrado amplamente adotado pela Rússia desde que o país ainda fazia parte da União Soviética e celebrizado pela teledramaturgia, como no seriado The Americans.
Nestas condições, os agentes não apenas mudam de nome: adotam nova nacionalidade, profissão, personalidade, hobbies e interesses e até mesmo criam laços familiares e de amizades ao longo de anos ou mesmo décadas.
É comum que eles formem casais durante o treinamento. O processo de trabalhar no exterior por décadas sob disfarce pode causar imensa tensão e, portanto, ter um parceiro que conhece seu trabalho costuma ser visto como uma vantagem.
Centenas de diplomatas russos foram expulsos desde a invasão da Ucrânia, muitos considerados espiões. As redes de espionagem foram atingidas.
Inicialmente, isso parecia se concentrar principalmente nos espiões da GRU (como Cherkasov), mas nos últimos meses, os do SVR também parecem ter sido expostos.
O que levou a isso não está claro. Mas pode significar que pode haver vários comprometimentos da inteligência russa em Moscou, seja na forma de países ocidentais penetrando em suas redes de comunicação ou de um agente humano.
Nos casos detectados no Brasil, as investigações até o momento apontam como os supostos espiões teriam tentado se manter acima de qualquer suspeita.
Cherkasov, por exemplo, chegou a fazer aulas de forró enquanto morou em São Paulo, de acordo com as investigações brasileiras.
Além disso, segundo o FBI, Cherkasov chegou a pedir permissão aos seus superiores para se casar com uma mulher que não tinha treinamento como oficial de inteligência. As informações são da BBC News Brasil.
Os comentários estão desativados.