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Cultura Conflito de interesses mantém oculta uma obra-prima de Leonardo da Vinci

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Salvator Mundi, o quadro mais caro já vendido em um leilão. (Foto: Reprodução)

Os curadores franceses trabalharam durante uma década preparando uma importante exposição marcando o 500º aniversário da morte de Leonardo da Vinci. Mas, quando a mostra foi inaugurada, a pintura mais comentada que pretendiam exibir, Salvator Mundi, o quadro mais caro já vendido em um leilão, não constou da exposição.

A pintura, encontrada quando da venda de uma propriedade em New Orleans, foi vendida num leilão em 2017 como uma obra “perdida” e redescoberta de Leonardo da Vinci por US$ 450 milhões, lance oferecido por um licitante anônimo que desde então a manteve oculta. A chance de ver o quadro na exposição do Louvre dois anos depois gerou um furor no mundo internacional da arte e sua ausência despertou muitos questionamentos.

Teria o Louvre concluído que a pintura na verdade não era obra de Leonardo, como vários estudiosos e especialistas em arte insistiam? O adquirente da obra, que seria Mohammed bin Salman, príncipe da Coroa da Arábia Saudita, mas que nunca admitiu isso, teria rejeitado incluir o quadro na exposição temendo ser alvo de uma investigação pública? A ideia de que o impetuoso príncipe teria apostado uma fortuna numa fraude já inspirou uma série de livros, documentários, colunas de fofocas e até um proposto musical na Broadway. Mas nada disso era verdade.

O fato é que o príncipe da coroa enviou secretamente o quadro para o Louvre em 2018, de acordo com várias autoridades francesas e um relatório confidencial sobre a autenticidade da obra que foi obtido pelo The New York Times. O documento também confirma que a pintura pertence ao ministério da Cultura da Arábia Saudita – fato que os sauditas nunca reconheceram.

Uma equipe de cientistas franceses submeteu a tela, sem a moldura, a um exame forense que durou uma semana utilizando a tecnologia mais avançada disponível para o mundo da arte e em seu relatório não divulgado declarou, com mais autoridade do que qualquer outra avaliação anterior, que a pintura parecia ser obra criada por Leonardo da Vinci.

Mas os sauditas a retiveram por uma razão totalmente diferente: um desacordo no tocante a uma demanda feita por eles de que a pintura de Jesus deveria ser colocada ao lado da Mona Lisa, foi o que explicaram na semana passada várias autoridades francesas do campo da arte.

Portanto, a retirada do quadro parece ter sido provocada por questões de poder e ego.

Algumas pessoas, que não acreditam nessa explicação, suspeitam que os sauditas nunca se mostraram sérios no tocante à inclusão do quadro na exposição na França e desejavam manter a obra oculta para aumentar o potencial comercial de uma exibição posterior num planejado local turístico na Arábia Saudita. Mas autoridades francesas, antigas e atuais, negam isso, afirmando que os sauditas estavam entusiasmados para que o quadro fosse exposto no Louvre, desde que colocado ao lado da pintura mais famosa do mundo.

Ao descartarem essa demanda, considerando-a irracional e impraticável, os franceses, por seu lado, se recusaram a tornar pública sua avaliação positiva da autenticidade do quadro, a menos que os sauditas permitissem que ele permanecesse nas paredes do museu do Louvre, que é administrado pelo governo francês.

O impasse diplomático entre França e sauditas manteve a obra fora de vista uma vez que a nuvem de intrigas em torno dela continuou a se intensificar.

“Francamente, achava que todos esses disparates tinham evaporado”, disse Luke Syson, diretor do Fitzwilliam Museum em Cambridge, Inglaterra, e curador da exposição de Leonardo da Vinci na National Gallery londrina em 2011, que incluiu o quadro Salvator Mundi.

Agora a controvérsia voltou novamente às manchetes com o lançamento de um documentário francês na semana passada em que é afirmado que o Louvre havia concluído que Leonardo somente contribuiu na confecção da obra. Exibido por uma TV francesa, o documentário mostra duas figuras cuja identidade é oculta, identificadas como autoridades do governo francês, afirmando que o príncipe da Coroa não teria emprestado a pintura para a exposição porque o Louvre recusou-se a atribuir a obra totalmente a Leonardo da Vinci.

Numa entrevista por telefone, o diretor do documentário, Antoine Vitkine, disse confirmar as declarações, afirmando que o presidente do Louvre se recusou a fazer comentários sobre o julgamento da obra pelo museu.

O Louvre insistiu que o relatório sobre a autenticidade da pintura “não existe”, afirmou Viktine.

Apesar das suas negativas, os curadores do Louvre prepararam em segredo um sumário de 46 páginas com as conclusões do exame do quadro. As informações são do jornal The New York Times.

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