Domingo, 24 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 9 de janeiro de 2021
Embora ainda haja muitas perguntas em aberto sobre o coronavírus que parou o mundo há quase um ano, cientistas conseguiram neste período correr contra o tempo e trazer muitas respostas sobre a nova doença — algumas delas surpreendentes.
Por exemplo, a de que o coronavírus, descrito desde o início como uma doença respiratória, não ataca apenas os pulmões. Conforme o coronavírus foi se espalhando pelo mundo e adoecendo mais pessoas — até aqui, infectando pelo menos 88 milhões no planeta —, médicos e pesquisadores começaram a constatar que órgãos tão diferentes como coração, cérebro e rins também podiam ser afetados, às vezes fatalmente, pelo coronavírus.
O patógeno também já causou problemas em dedo dos pés, foi detectado no testículo e ainda nas lágrimas de pacientes — mas é importante lembrar que ser encontrado em uma parte do corpo ou no ambiente não necessariamente significa adoecimento ou transmissibilidade.
Pulmões
Apesar de afetar outras partes do corpo, ainda são “as vias respiratórias e os pulmões” os principais alvos, lembra a pesquisadora Marisa Dolhnikoff, professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenadora dos Estudos em Autópsia do coronavírus no Hospital das Clínicas da faculdade.
Tudo começa quando uma pessoa sadia entra em contato com gotículas do vírus, como através da tosse ou espirro de alguém infectado, ou ainda por meio do contato com uma superfície contaminada com essas partículas. A partir daí, o vírus começa a “hackear” as células das vias respiratórias (canais que conduzem o ar aos pulmões, como o nariz e a traqueia) e dos pulmões, transformando-as em fábricas de coronavírus que se espalham por mais células.
Tosse, coriza e espirros podem surgir por conta do ataque às vias respiratórias. Esses sintomas também podem ser reflexo do acometimento dos pulmões — mas, segundo Dolhnikoff, o sinal mais claro de que este órgão vital foi afetado é a falta de ar.
Coração
Se os pulmões realizam as trocas gasosas, é o coração que bombeia o sangue com oxigênio para o corpo e que volta para os pulmões com sangue repleto de gás carbônico. E, nos quadros mais graves, este órgão muscular e vital é significativamente afetado — podendo levar a óbito.
Um estudo de referência, publicado em fevereiro de 2020 com dados de 138 pacientes hospitalizados em Wuhan, mostrou que 16,7% deles desenvolveram arritmia e 7,2% lesão cardíaca aguda — ou seja, dois problemas de saúde atingindo o coração. Aqueles que precisaram ir para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) apresentaram estes quadros com mais frequência.
Rins
Assim como acontece com o coração, quando os rins são afetados pela covid-19, o nível de alerta é aumentado. “A lesão renal é incremental, compõe o quadro de um doente mais complexo. São doentes muito graves. Quando a doença é avassaladora, ela é avassaladora”, resume o nefrologista José Suassuna, chefe do Setor de Nefrologia do Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Hupe/Uerj). Os rins são vitais por regularem a concentração de água no sangue e por eliminarem detritos tóxicos do corpo.
Fígado
Exames também já detectaram, em alguns pacientes, alterações no fígado — que tem entre suas funções eliminar toxinas do corpo, regular o açúcar no sangue e ajudar na digestão de gorduras.
Entretanto, diferente de outros órgãos, tais alterações não necessariamente significam o adoecimento do órgão. “As enzimas hepáticas (substâncias produzidas pelo órgão) estão elevadas em cerca de 15 a 60% dos casos de coronavírus, o que sugere acometimento do fígado. Porém, estas alterações das enzimas em geral não provocam sintomas”, explica o hepatologista Edmundo Lopes, médico do Hospital das Clínicas e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Cérebro
Se tem um órgão que os entrevistados dizem estar rodeado de incógnitas sobre seu acometimento pelo coronavírus, é o cérebro. Fato é que diversos estudos e relatos de casos já mostraram que ele pode ser afetado, dos quadros leves aos graves.
A pesquisadora Clarissa Yasuda, médica e professora do departamento de neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que o diga: ela mesma teve coronavírus em agosto e conta ainda sentir consequências relacionadas ao cérebro, como sono, fadiga e alterações na memória.
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