Domingo, 13 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 10 de maio de 2020
Até 2002, a ciência médica conhecia um punhado de formas de coronavírus que infectavam os humanos, e nenhuma delas provocava doença grave. Então, em 2002, um vírus hoje conhecido como Sars-CoV surgiu na província chinesa de Guangdong. A subsequente epidemia de síndrome respiratória aguda grave (SARS, em inglês) matou 774 pessoas em todo o mundo antes de ser controlada. Em 2012, outra doença nova, a síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), anunciou a chegada do MERS-CoV, que ainda não foi eliminada, mesmo sem se disseminar com o mesmo alcance da Sars (com exceção de uma excursão à Coreia do Sul). Já são mais de 858 mortos até o momento, o mais recente óbito ocorrendo em 4 de fevereiro.
Na terceira vez, foi o Sars-CoV-2, agora responsável por 225.000 mortes decorrentes da covid-19. Tanto o Sars-CoV quanto o MERS-CoV são próximos dos tipos de coronavírus encontrados em morcegos. No caso do Sars-CoV, a narrativa aceita diz que o vírus se espalhou de morcegos em uma caverna na província de Yunnan para as civetas, que são vendidas nos mercados de Guangdong. No caso do MERS-CoV, o vírus se espalhou dos morcegos para os camelos. Agora, é transmitido habitualmente dos camelos para os humanos, o que o torna difícil de eliminar, mas só é contraído por pessoas em condição de extrema proximidade, o que o torna administrável.
Azar na terceira vez
A hipótese de uma origem entre os morcegos parece a mais provável também para o Sars-CoV-2. Mas ainda não identificamos a trajetória do vírus do morcego até o ser humano. Se, como no caso do MERS-CoV, o vírus ainda circula em algum tipo de reservatório animal, pode haver novas epidemias no futuro. Caso contrário, outros vírus certamente tentarão algo parecido. Peter Ben Embarek, especialista em zoonoses (doenças transmitidas dos animais para as pessoas) da Organização Mundial da Saúde, diz que esse tipo de contágio está se tornando mais comum conforme os humanos e os animais da pecuária invadem novas áreas onde ficam em contato mais frequente com animais silvestres. É importante compreender como ocorrem esses contágios para que possamos aprender a impedi-los.
Mas, para alguns, fica na consciência a possibilidade de atividade inimiga envolvendo algo menos impessoal do que um vírus. Com o advento da engenharia genética nos anos 1970, os teóricos das mais variadas conspirações apontaram para praticamente todas as novas doenças infecciosas (Aids, Ebola, MERS, doença de Lyme, Sars, Zika…) como resultado da interferência humana, possivelmente maligna.
As dinâmicas políticas da pandemia da covid-19 significam que, dessa vez, esse tipo de teoria parece ainda mais sedutor do que o habitual. A pandemia teve início na China, onde o governo se dedicou a acobertar o problema antes de adotar medidas que poderiam ter limitado sua disseminação. O maior estrago foi causado nos Estados Unidos, onde o número de mortos pela covid-19 já ultrapassa a quantidade de nomes no Memorial da Guerra do Vietnã, em Washington, DC.
Esses fatos teriam levado a acusações de um lado ao outro do Pacífico independentemente de qualquer outro detalhe. O que piora a situação é a suspeita de alguns segundo a qual o Sars-CoV-2 poderia de alguma forma estar ligado à pesquisa viral chinesa, e o fato de dizê-lo alterar a distribuição das responsabilidades.
Não há nada que corrobore essa acusação. Especialistas ocidentais dizem categoricamente que o sequenciamento do genoma do novo vírus – logo publicado de maneira precisa pelos cientistas chineses, com total abertura – não apresentava nenhum dos habituais indícios de manipulação genética. Mas o fato é que, em Wuhan, onde o surto da covid-19 foi descoberto, há um laboratório onde, no passado, cientistas fizeram tentativas deliberadas de tornar o coronavírus mais patogênico.
Os 4% de diferença
A origem do vírus por trás da epidemia de Sars de 2003 – “Sars clássica”, como alguns virólogos passaram a chamá-la – foi revelada em grande parte pela pesquisadora Shi Zhengli, do WIV, a quem às vezes a mídia chinesa chama de “tia dos morcegos”. Ao longo dos anos ela e sua equipe visitaram sítios remotos em todo o país na busca por um parente próximo do SARS-CoV nos morcegos ou no seu guano. Encontraram um em uma caverna cheia de morcegos-de-ferradura em Yunnan.
É na coleta de genomas virais reunidos durante esses estudos que os cientistas identificaram agora o vírus de morcego mais semelhante ao Sars-CoV-2. Uma cepa chamada RaTG13 coletada na mesma caverna de Yunnan compartilha 96% de sua sequência genética com o novo vírus. O RaTG13 não é o ancestral do nosso vírus, e sim algo mais parecido com um primo. O virólogo Edward Holmes, da Universidade de Sydney, estima que os 4% de diferença entre os dois representem pelo menos 20 anos (provavelmente algo mais perto de 50 anos) de divergência evolutiva a partir de um ancestral em comum.
Ainda que, em teoria, os morcegos possam ter transmitido um vírus descendente desse ancestral diretamente para os humanos, os especialistas consideram essa hipótese pouco provável. O vírus dos morcegos tem uma diferença específica em relação ao Sars-CoV-2. No caso do Sars-CoV-2, a proteína protuberante na superfície da partícula viral apresenta um domínio de ligação ao receptor (RBD) particularmente capaz de se ligar a uma molécula na superfície da célula humana infectada pelo vírus. O RBD no coronavírus dos morcegos não é o mesmo.
Um estudo recente indica que o Sars-CoV-2 seria produto de uma recombinação genômica natural. Diferentes tipos de coronavírus infectando o mesmo hospedeiro se mostram dispostos a trocar partes do seu genoma entre si. Se um vírus do morcego semelhante ao RaTG13 chegasse a um animal já infectado com um coronavírus equipado com um RBD mais adequado para infectar humanos, é possível pensar no surgimento de um vírus de morcego com RBD melhor sintonizado aos humanos. É isso que o Sars-CoV-2 aparenta ser.
No início, muitos imaginaram que o hospedeiro intermediário seria provavelmente uma espécie vendida no Mercado de Carnes e Peixes Huanan, em Wuhan, lugar onde criaturas de todo tipo, de cães-guaxinins a furões-texugos, espécies de todo o mundo, são mantidas juntas em precárias condições de higiene. Muitos dos primeiros casos da covid-19 foram associados a esse mercado. São evidências circunstanciais bastante sólidas.
Por onde começar?
Os genomas virais encontrados nos primeiros pacientes são tão semelhantes a ponto de indicar convincentemente que o vírus teria saltado uma só vez de um hospedeiro intermediário para as pessoas. Estimativas com base no ritmo de divergência dos genomas determinam que essa transferência poderia ter ocorrido já em outubro de 2019. Se isso for correto, certamente teria havido infecções que não foram graves, ou não chegaram aos hospitais, ou não foram identificadas como incomuns, até que os primeiros casos oficiais fossem observados em no início de dezembro. Esses primeiros casos podem ter ocorrido em outro lugar.
Ian Lipkin, diretor do Centro de Infecções e Imunidade da Universidade Columbia, em Nova York, está trabalhando com pesquisadores chineses para testar amostras de sangue recolhidas no fim do ano passado a partir de pacientes com pneumonia de toda a China, para verificar se há indícios de transmissão do vírus de alguma outra parte da China para Wuhan. Se houver, talvez o vírus tenha chegado ao mercado Huanan em um hospedeiro humano, e não em um animal enjaulado. O mercado é popular entre os visitantes e os moradores locais, e fica perto do terminal ferroviário de Hankou, um dos pólos da rede ferroviária de alta velocidade da China.
Pesquisas mais aprofundadas podem determinar com mais clareza quando, como e onde o vírus chegou às pessoas. Há espaço para uma caça muito mais ampla aos vírus em uma ampla gama de possíveis espécies intermediárias.
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