Quarta-feira, 24 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 13 de junho de 2026
Uma rota de migração irregular de cubanos pela Amazônia está crescendo e chamando a atenção das autoridades brasileiras. A entrada ocorre há cerca de uma década de diferentes formas. Alguns cruzam a pé a ponte que liga Lethem, na Guiana, a Bonfim, em Roraima. Outros recorrem a barcos clandestinos para cruzar o rio que separa os dois países. Do início do ano até o dia 11, a Polícia Rodoviária Federal resgatou 225 cubanos em situação irregular na BR-401, que vai até a nação vizinha. Em 2024 e 2025, o número havia ficado em torno de 60 por ano.
Segundo dados do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, houve 41,9 mil solicitações de refúgio de cubanos no Brasil em 2025, quase o dobro do ano anterior, quando foram 22,3 mil. Em 2026, já foram 13,4 mil pedidos.
“Cuba tem muitos problemas. Não tem luz, água, gás, comida, os preços estão altos e o salário não alcança”, contou ao Estadão a cubana Beatriz, que busca se regularizar em Boa Vista. O país caribenho tem enfrentado uma crise sem precedentes após o bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos neste ano. Os planos de Beatriz, de 29 anos, são de trabalhar em Florianópolis para juntar dinheiro e trazer para o Brasil os filhos, de 7 e 12 anos, que ficaram em Cuba com a avó.
Segundo a polícia, os chamados coiotes cobram cerca de US$ 10 mil (cerca de R$ 51 mil) por pessoa para organizar o percurso, incluindo transporte terrestre, travessia de fronteira, hospedagens e passagens aéreas dentro do Brasil. “Existe uma rede bem coordenada que envolve brasileiros, guianenses e cubanos, que organizam toda a viagem”, afirma Isaías Magalhães, chefe de comunicação da PRF-RR. “Estamos diante de uma crise humanitária. São pessoas exploradas economicamente em toda a viagem.”
Beatriz define como “horrível” o esquema organizado pelos coiotes. “Não quero recordar”, diz ela. Em geral, o trajeto envolve um voo de Havana a Georgetown, e depois um percurso de carro até a fronteira em Lethen/Bonfim. A BR-401 é o corredor seguinte. A estratégia envolve veículos alugados que chegam à fronteira, embarcam grupos de até 12 pessoas em carros projetados para cinco ocupantes e seguem em direção à capital roraimense.
O transporte rende aproximadamente US$ 300 por passageiro. Com dez pessoas em um único carro, cada viagem pode dar de R$ 10 mil a R$ 15 mil aos transportadores. “Muitos têm se aventurado nessa empreitada porque é muito vantajoso”, diz Magalhães.
As abordagens da PRF mostram que a maioria dos condutores presos é brasileira, sem histórico de atuação em redes migratórias. Alguns, porém, já têm antecedentes por contrabando, descaminho e tráfico. Só neste ano, 16 coiotes foram presos na região.
Além disso, a tentativa de driblar a fiscalização torna a rota ainda mais perigosa. Quando percebem a aproximação das viaturas, motoristas costumam abandonar a BR401 e entrar em estradas vicinais de terra em alta velocidade. O resultado tem sido uma sequência de acidentes e mortes. Em 2025, dois cubanos morreram após o capotamento de um veículo em fuga. Nos últimos dias, para escapar da PRF, os coiotes abandonaram os migrantes cerca de dez quilômetros antes de Boa Vista.
E a estrutura da rede não termina na fronteira. Na última segunda-feira, durante a Operação Rota Segura, a PRF encontrou 61 cubanos alojados em uma casa em Cantá (RR) usada como ponto de apoio enquanto aguardavam transporte ou passagens para outros Estados.
A polícia também encontrou 47 pessoas – entre adultos, idosos e crianças – em condições físicas adversas. Conforme a PRF, muitos relataram estar sem se alimentar “há pelo menos dois dias”. A operação resultou no maior resgate humanitário já registrado pela corporação em Roraima. No dia 8, no total, os policiais localizaram 108 cidadãos cubanos em condições degradantes. Cinco brasileiros suspeitos de atuar como coiotes foram presos em flagrante. As vítimas são direcionadas para abrigos da Operação Acolhida, onde já têm sido atendidos os venezuelanos nos últimos anos.
Procurados pela reportagem, o Itamaraty e as embaixadas de Cuba e da Guiana não comentaram a situação. Em nota, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informa que monitora os fluxos migratórios por meio de sistemas integrados e de uma base de dados unificada, atualizada mensalmente. A pasta também diz atuar, “em articulação com outros órgãos públicos, no enfrentamento ao contrabando de migrantes”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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