Quinta-feira, 29 de outubro de 2026
Por Redação O Sul | 21 de março de 2021
Há cinco anos Cuba vivia a “Primavera de Havana”, com a inédita visita do então presidente americano Barack Obama e um histórico show dos Rolling Stones em praça pública para 400 mil pessoas. Havia esperança de mudanças na ilha, em direção a mais liberdade e desenvolvimento, com base no turismo e na maior flexibilidade para o envio de recursos pelos cubanos nos EUA. Hoje, quase nada do legado da visita restou. Ativistas e estudiosos afirmam que a repressão política e a crise econômica estão ainda piores.
“Cuba tem um dos povos que mais buscam a independência, um povo orgulhoso de seu país, mas a verdade é que sempre esteve à sombra de outras nações. O país substituiu a Espanha pelos Estados Unidos, depois pelos russos e pelos venezuelanos. Agora há uma piada em Cuba: quando chegarão os chineses?”, conta a cubano-americana Silvia Pedraza, professora de Sociologia e História da Universidade de Michigan, para quem, no entanto, não há interesse estratégico dos chineses na ilha. “Eles são muito presentes em Cuba, mas da mesma forma que estão ganhando peso em toda a América Latina.”
O chiste retrata um pouco da História da ilha e da desesperança atual: desde a revolução de 1959, o país sempre teve apoio de outras nações, notadamente a União Soviética e a Venezuela, ou obteve recursos de parcerias com nações como Angola e o Brasil em troca de serviços médicos. Agora, Cuba vive uma fase em que tem pouco auxílio externo: recebe 42 mil barris de petróleo por dia do regime de Nicolás Maduro, menos da metade do ápice de 90 mil barris diários, entre 2011 e 2014.
O governo de Donald Trump interrompeu a normalização das relações iniciada por Obama, e voltou a impor fortes limites a remessas e viagens à ilha. Hoje, Cuba enfrenta queda drástica no turismo, agravada pela pandemia — foram 2,275 milhões de turistas em 2019, contra 1,024 milhão no ano passado, segundo The Havana Consulting Group.
Para completar, a ilha registra uma redução de 62% nas remessas dos cubano-americanos. Segundo as estimativas da consultoria, elas passaram de US$ 3,7 bilhões em 2019 para US$ 2,3 bilhões em 2020. Isso complica ainda mais a situação econômica e social do país.
“Desde 1º de janeiro estamos vivendo o chamado “período de ajuste”, com a unificação das duas moedas cubanas. Houve um aumento dos salários, mas os preços dos serviços e produtos subiram muito mais, e é impossível para uma família com salário básico comprar alimentos, roupa de vez em quando e ainda pagar pelos serviços de eletricidade, água e gás”, afirma Marthadela Tamayo González, integrante do Comitê Cidadão pela Integração Racial, sobre o projeto do governo que libera muitas funções para os chamados “cuentapropistas”, os empreendedores de pequenos negócios.
Tamayo e outros cubanos que conversaram com o jornal O Globo nos últimos dias, alguns deles pedindo anonimato, confirmam que a degradação não é apenas econômica, levando algumas famílias a uma situação de fome. Outrora motivos de orgulho da ilha, a educação e a saúde públicas enfrentam problemas de qualidade, segundo os moradores.
Embora Havana celebre sua capacidade de pesquisa e afirme que, em poucos meses, poderá ter sua própria vacina contra o covid-19 — a Soberana 2, já na fase 3 dos testes —, os serviços têm perdido qualidade por falta de investimentos. No caso dos hospitais, há carência de médicos, o principal “produto” de exportação de Cuba, mesmo com o fim da parceria com o Brasil no programa Mais Médicos.
“Estamos vendo um grande aumento no número de pessoas que arriscam a vida atravessando o mar até os Estados Unidos em balsas improvisadas. O número de “balseiros” até a Flórida ou as Bahamas aumentou muito nos últimos meses”, afirma Silvia Pedraza. “Acredito que as mudanças econômicas que o governo cubano está propondo serão ruins no curto prazo, mas tendem a ser positivas no longo prazo, acabando com as disparidades provocadas pelas duas moedas que havia antes (uma conversível, para turistas, e outra para os cubanos).”
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