Quinta-feira, 23 de abril de 2026
Por Gisele Flores | 23 de abril de 2026
No Dia do Boi, com um dos maiores rebanhos do Brasil, o Rio Grande do Sul mostra que tradição e eficiência caminham juntas no campo,
Foto: Divulgação.Celebrado em 24 de abril, o Dia do Boi deixa de ser apenas uma referência simbólica para refletir uma mudança concreta na pecuária brasileira. Com um rebanho estimado em cerca de 238 milhões de cabeças, o Brasil mantém liderança global na exportação de carne bovina, mas entra em uma nova fase: escala já não garante resultado — o que define competitividade é controle sanitário, gestão de risco e eficiência dentro da porteira.
A retirada gradual da obrigatoriedade da vacinação contra a febre aftosa sintetiza essa transição. Ao avançar no status sanitário, o país amplia o acesso a mercados mais exigentes, ao mesmo tempo em que transfere ao produtor maior responsabilidade sobre o controle dos riscos. A sanidade deixa de ser induzida e passa a ser gerida — com impacto direto na produtividade e na margem.
Nesse cenário, a sanidade assume papel estratégico. “A retirada da vacinação não elimina riscos. Ela exige um manejo mais estruturado e preventivo”, afirma Janaina Giordani, da Zoetis. A leitura é reforçada por técnicos da Embrapa, que apontam o controle sanitário como fator decisivo para sustentar produtividade em sistemas mais intensivos.
O principal gargalo está no controle de parasitas. Estimativas do setor indicam perdas próximas de R$ 70 bilhões ao ano no Brasil, com impacto direto sobre ganho de peso, conversão alimentar e taxa de prenhez. Em um ambiente de margens pressionadas, essas perdas deixam de ser invisíveis e passam a comprometer o resultado econômico.
Práticas como a vermifugação estratégica ganham protagonismo. Protocolos como o 5-8-11 organizam o manejo em períodos-chave — maio, agosto e novembro — e mostram impacto direto na produtividade, com ganhos de até 20 quilos por animal em sistemas bem conduzidos. Mais do que técnica, trata-se de previsibilidade e controle de variáveis críticas da produção.
A transformação vai além do manejo. O que está em curso é uma mudança de lógica: a pecuária brasileira migra de um modelo reativo para um sistema orientado por dados. O produtor deixa de responder a perdas e passa a antecipar riscos, integrando sanidade, nutrição e genética em uma estratégia mais sofisticada de gestão.
Esse movimento ganha dimensão diante do peso do Brasil no comércio global. Em 2025, o agronegócio brasileiro somou cerca de US$ 169 bilhões em exportações, com as carnes respondendo por mais de US$ 30 bilhões — evidenciando o papel central da proteína animal na balança comercial. Nesse contexto, a confiança sanitária deixa de ser diferencial e passa a ser condição de acesso a mercado.
No Rio Grande do Sul, essa dinâmica se reflete em uma pecuária tradicional que busca reposicionamento competitivo. O Estado está entre os maiores rebanhos bovinos do país e mantém forte inserção internacional. Em 2025, o agronegócio gaúcho exportou cerca de US$ 15,4 bilhões, com as carnes somando aproximadamente US$ 2,7 bilhões e crescimento relevante no período.
Essa inserção eleva o nível de exigência dentro das propriedades. Diferentemente de regiões focadas em escala, o Rio Grande do Sul tende a competir cada vez mais por qualidade, regularidade e padrão sanitário — fatores diretamente ligados ao manejo técnico.
Como maior exportador global de carne bovina, o Brasil depende da confiança sanitária para manter mercados estratégicos, como China e outros destinos de alta exigência. Qualquer falha pode significar não apenas prejuízo produtivo, mas barreiras comerciais imediatas.
Mais do que atender exigências externas, o que está em jogo é eficiência econômica. Sanidade, neste novo cenário, não é custo nem discurso — é variável direta de produtividade, margem e permanência no mercado.
O Dia do Boi, portanto, deixa de ser apenas comemorativo. Ele expõe uma virada silenciosa no campo. E, no Rio Grande do Sul, onde tradição e mercado se cruzam, essa mudança é ainda mais evidente: a pecuária do futuro será menos tolerante a perdas invisíveis — e cada vez mais dependente de gestão técnica para se manter competitiva. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)
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