Terça-feira, 18 de agosto de 2026
Por Redação O Sul | 18 de agosto de 2026
Em um movimento inédito em relação às seis campanhas anteriores, o marqueteiro Raul Rabelo apresentou ao eleitor brasileiro o candidato “Lula da Silva”. Em quase 50 anos de vida pública, desde que se tornou conhecido como líder sindical nas greves do ABC paulista e entrou para a política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva consolidou no imaginário nacional a marca “Lula”. Desta vez, ao pleitear um quarto mandato, a aposta dos publicitários é explorar, também, o sobrenome “Silva”, o mais popular do Brasil, que representa a “grande família brasileira”.
Em novembro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, pela primeira vez, um levantamento apresentando os sobrenomes mais populares do País. Entre os cerca de 200 mil divulgados, sem surpresas, o “Silva” apareceu no topo, identificando 34 milhões de brasileiros, ou 16,7% da população. Assim como Lula, a maioria dos “Silvas” é formada por nordestinos: 35,7% dos “Silvas” são alagoanos, e 34,2% são pernambucanos.
Segundo uma fonte da campanha, foi de Rabelo a ideia de resgatar o “Rap do Silva”, do MC Bob Rum, um marco do funk carioca, que foi o mais tocado em 1996. A música se transformou no jingle oficial da campanha e materializou a ideia do time de criação de trabalhar, desta vez, o sobrenome de Lula, a fim de resgatar a biografia do petista, relembrar a trajetória dele, e reforçar sua identificação com o brasileiro comum.
O clipe “Rap do Silva” foi exibido no lançamento da campanha, no domingo (16), no estádio da Vila Euclides, e um dos principais grupos de dança de rua, o “Street Breakers Crew”, se apresentou no palco ao som do funk. Minutos antes, a primeira-dama Rosangela Janja da Silva havia sublinhado a estratégia. Ela abriu o seu discurso afirmando que também nasceu “Silva”, com o sobrenome herdado do pai. E frisou: “Com muito orgulho, nasci nessa grande família brasileira, assim como milhões de mulheres espalhadas por esse país”.
A letra original de MC Bob Rum, entretanto, retratava a dura realidade do trabalhador da periferia, homem de família, que tinha como única opção de lazer ir ao baile dançar. O “Silva” do músico teve um fim trágico, como vitima da violência. O refrão dizia: “Era só mais um Silva, que a estrela não brilha/ Ele era funkeiro, mas era pai de familia”.
Na releitura para o jingle, em que a letra narra a trajetória de Lula da
infância no sertão até o berço político em São Paulo, o candidato surge
como o Silva da estrela que brilha, em alusão ao símbolo do PT: “Era só
mais um Silva, com a estrela que brilha/ Trabalhava o dia inteiro, e
cuidava da familia”. A letra dialoga com um dos desafios do petista, que
tenta convencer o eleitor que, após décadas no poder, ele é
“antissistema”: “Enfrentou o sistema, fez o povo prosperar, fala de
soberania. É o Lula da Silva, é a estrela que brilha, ele é brasileiro,
trabalhador e familia”.
Para o fundador do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, que há mais de 20 anos realiza pesquisas com foco na população de baixa renda, a estratégia de explorar o “Silva” parece acertada, mas resta saber se funcionará.
Meirelles aponta que o “Silva” enfrenta menos rejeição que o nome “Lula”. É, portanto, um caminho para driblar o forte antipetismo, em um cenário em que a rejeição ao candidato do PT ultrapassa os 50 pontos percentuais na maioria das pesquisas. Segundo a última rodada da Quaest, Lula é rejeitado por 52% dos eleitores, enquanto seu principal oponente, Flávio Bolsonaro (PL), alcança a marca de 54%.
Ao mesmo tempo, Meirelles observa que o “Silva”, embalado em um funk clássico, pode ajudar o petista a criar uma identidade com os jovens de periferia, um público cujos pais podem ter visto a vida melhorar nos primeiros governos Lula. Hoje, entretanto, essa juventude ainda tem dificuldade de estudar e encontrar o primeiro emprego, ressaltou.
A estratégia começou a vir à tona ainda na convenção nacional do PT, em 2 de agosto, que oficializou a candidatura do petista, com o lançamento do jingle, e com o figurino de Janja. No evento, ela vestiu uma camiseta estampada com o retrato de Lula aos três anos e o sobrenome “Silva”.
A opção pelo funk também inovou ao romper com a tradição dos jingles em ritmos nordestinos, aproximando o candidato ao som ligado às periferias brasileiras. Em 2022, Janja e o fotógrafo Ricardo Stuckert lideraram a regravação, com novos artistas, do jingle mais famoso das campanhas lulistas, de 1989. (Com informações do Valor Econômico)
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