Sábado, 11 de Julho de 2020

Porto Alegre
Porto Alegre
14°
Light Rain

Bem-Estar Em tempos de coronavírus, turma de medicina da UFRGS tem formatura em modelo inédito

Compartilhe esta notícia:

Franciele Pereira dos Santos é uma das formandas que cola grau no dia 9 de junho, em uma solenidade com muitas normas para preservar a segurança de todos.

Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
Franciele Pereira dos Santos é uma das formandas que cola grau no dia 9 de junho, em uma solenidade com muitas normas para preservar a segurança de todos. (Foto: Arquivo pessoal/Divulgação)

Com a pandemia, as pessoas estão tendo que se adequar de diversas formas à nova situação – e com a Universidade não é diferente. Uma das tantas atividades acadêmicas afetadas pelo novo coronavírus é, justamente, um dos momentos mais aguardados pelos estudantes: a formatura. No dia 9 de junho, 70 formandos do curso de Medicina da UFRGS (Universidade Federal do RS) colarão grau em uma cerimônia diferente da planejada e habitual solenidade no Salão de Atos da Universidade. Pela primeira vez na história da Famed (Faculdade de Medicina), os alunos de uma turma inteira formam-se médicos em uma colação de grau com muitas normas e restrições, para preservar a segurança de todos.

A diretora da Famed, Lúcia Kliemann, explica que os estudantes colarão grau em pequenos grupos: “Durante os dois últimos anos da graduação, os alunos trabalham em seis grupos de cerca de 13 colegas, fazendo rodízio entre os diversos internatos que compõem a fase final do curso de Medicina. Esses mesmos 13 colegas comporão cada um dos grupos de colação de grau”. Serão, ao total, seis cerimônias com aproximadamente 12 alunos cada, já que 7 estudantes anteciparam a formatura. A solenidade não ocorre no Salão de Atos da UFRGS, como tradicionalmente, mas no auditório Mário Rigatto da Famed.

Se uma colação de grau normalmente já possui uma série de regras de cerimonial, essa solenidade será ainda mais estrita: os formandos ficarão em locais previamente marcados, com o distanciamento mínimo de 2 metros entre cada um. A organização também considera a ocupação máxima do ambiente, com uma pessoa a cada quatro metros quadrados. Todos – concluintes e integrantes da mesa – deverão usar máscara durante todo o tempo e fazer uso do álcool gel, que estará disponível na entrada do prédio e do auditório.

Os formandos e os integrantes da mesa serão os únicos a poder entrar no auditório. Cada formando poderá trazer à Faculdade até duas pessoas, que acompanharão a cerimônia nas salas de aula da Faculdade, via Mconf. O link do Mconf também oportuniza que os demais familiares e amigos dos formandos possam assistir às cerimônias em casa. Lúcia afirma que esse é um jeito inédito de colação de grau na Famed: “Sempre temos formatura em gabinete, mas em cada semestre temos de 1 a 4 alunos que optam por esse formato”. É a primeira vez, também, que uma turma inteira da Medicina cola grau na própria Faculdade, e não no Salão de Atos da UFRGS.

Uma das formandas é Franciele Pereira dos Santos, representante da turma desde o primeiro semestre da faculdade e integrante da Comissão de Formatura. Ela conta que a colação estava prevista para o dia 12 de junho, no Salão de Atos, mas, com a pandemia do coronavírus, a turma passou por um período de muitas incertezas. “Havia a preocupação com a manutenção ou não do internato após suspensão das atividades [presenciais] pela UFRGS, o que poderia atrasar a conclusão do semestre, junto ao medo da exposição ao vírus durante a prática do estágio”, explica. “Também contribuíram para esse período de angústias a publicação do programa do Ministério da Saúde ‘Brasil Conta Comigo’— que convocava os alunos da área da saúde para trabalhar no combate à pandemia — e a possibilidade de antecipação da colação de grau manifestada pelo MEC”, acrescenta. Após discutir sobre as vantagens e as desvantagens de cada opção, e obter a garantia de que o estágio seria mantido – o que permitiria a colação em junho – a maioria da turma optou por não antecipar a formatura.

Assim, os formandos, a Direção da Unidade e a Comissão de Graduação do curso começaram a pensar na possibilidade de colação em gabinete, em pequenos grupos, na própria Faculdade. “Aos poucos foi-se estruturando a melhor forma e data para que se fizessem cerimônias enxutas e com segurança, sem que se atrasasse a formatura da turma”, conta Pedro Egon Gewehr, outro aluno que cola grau no dia 9.

Os dois concluintes relatam que é frustrante não poder se formar, neste momento, no Salão de Atos. Para Pedro, a expectativa era de uma cerimônia tradicional, com a família reunida, toga e canudo na mão. “É um momento pelo qual a família espera junto também, e ter um filho, irmão, neto se formando por uma Universidade como a UFRGS é sim motivo de orgulho para a família”, afirma. “A cerimônia no Salão de Atos é um ritual de passagem, que simboliza a transformação do aluno de Medicina em médico, apesar desse processo permear os 6 anos de faculdade”, acrescenta Franciele. Para ela, adiar a colação no Salão de Atos e o baile traz uma mescla de sentimentos: “é um certo sentimento egoísta de frustração, de pensar ‘por que isso aconteceu no meu ano?’ e uma culpa por esse pensamento”. Mas ela também acredita que a mudança no formato da cerimônia não modifica sua importância. “O principal vai acontecer: nos tornaremos médicos para atuar no momento em que a sociedade mais precisa de nós. Afinal, usar o nosso conhecimento para cuidar do outro é a principal motivação do ‘ser médico’”, conclui.

De qualquer forma, está nos planos da turma uma comemoração posterior. Eles contam que os formandos pretendem, pelo menos, fazer uma colação ou cerimônia festiva no Salão de Atos, quando for possível. “Hoje não temos previsão de quando tudo voltará ao normal e nem como será esse ‘novo normal’. No entanto, para nós é muito importante realizar a colação no Salão de Atos quando possível e comemorar com um baile incrível na sequência”, esclarece a representante da turma.

É inevitável perguntar a eles como se sentem, formando-se como profissionais de saúde em um momento de pandemia.

Para Pedro, o fato de encerrar o ciclo da faculdade e ingressar sem supervisão na assistência pela primeira vez já traz, por si só, um “frio na barriga”. “E essa situação na qual estamos acaba sendo mais um fator que contribui, já que há bastante informação desencontrada por aí”, explica.

Franciele afirma que, nesse momento, mais do que nunca, os médicos são necessários em diferentes frentes de trabalho, e o desejo dela é ser útil: “É claro que existe um receio da exposição, mas tenho certeza que a satisfação de poder trabalhar onde precisam de mim e de ter a possibilidade de fazer algo que amenize a dor ou sofrimento de alguém é muito maior”. A ideia da formanda é trabalhar por um ano antes de prestar a prova de residência para neurocirurgia, inicialmente fazendo plantões para atender pacientes com sintomas respiratórios e trabalhar em uma Unidade Básica de Saúde. Já Pedro pretende manter o foco nos estudos para ingressar na residência médica no próximo ano.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de Bem-Estar

Organização Mundial da Saúde diz que Brasil e outros países do continente ainda não atingiram o pico da pandemia
Governo distribuirá R$ 8,34 milhões para projetos de inovação tecnológica e de enfrentamento à pandemia
Deixe seu comentário
Pode te interessar