Domingo, 13 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 11 de setembro de 2026
A empresa de capacetes Bravo Grafeno, cujo dono é o candidato à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL), divide o mesmo endereço em Brasília com pelo menos 16 firmas de Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. O ex-presidente Jair Bolsonaro, que já participou da sociedade, é garoto-propaganda da marca.
A conexão aproxima a família Bolsonaro de um dos personagens centrais das investigações sobre supostas fraudes que teriam lesado mais de 4,3 milhões de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024, com prejuízo estimado em R$ 2 bilhões aos cofres públicos.
Levantamento do Núcleo Investigativo do site ICL Notícias indica que a empresa do candidato utilizou, além dos mesmos serviços de contabilidade, a mesma estrutura do investigado na Operação Sem Desconto, da Polícia Federal.
O endereço compartilhado é a sala 2601, bloco D, do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, no Distrito Federal. A reportagem esteve no local na sexta-feira (11), por volta das 10h30, e foi informada de que a sala é ocupada pela Voga Serviços Contábeis, empresa que pertence a Alexandre Caetano dos Reis, sócio do Careca do INSS, que também está preso.
Alexandre é apontado como o primeiro elo conhecido entre Flávio Bolsonaro e o Careca do INSS. Ele também é responsável pela contabilidade do escritório de advocacia do senador. A Voga ocupa quatro salas no 26º andar do prédio.
Na recepção da empresa, o advogado Thalles Setúbal confirmou que a Voga presta serviços à empresa de Flávio, mas negou que a sala 2601 pertencesse à contabilidade, embora funcionários tenham indicado à reportagem que o espaço também era utilizado pela Voga.
Questionado sobre a relação da empresa com o senador e as investigações da PF, Thalles respondeu: “A gente se posiciona nos autos, não com imprensa”.
A Bravo Grafeno foi aberta pela família Bolsonaro em junho de 2024 e tem capital social de R$ 100 mil. A loja virtual comercializa dois modelos de capacete por R$ 598,90 e viseiras por R$ 54. O domínio da empresa foi registrado em julho de 2024 em nome de Flávio Bolsonaro.
“Com capacete Bravo de grafeno, você garante sua liberdade e segurança. Assim como eu, esse é 100% brasileiro”, anuncia Jair Bolsonaro em vídeo divulgado no site da empresa.
O ex-presidente lançou o capacete em março de 2025, durante o Salão das Motopeças, em São Paulo. O tricampeão mundial de Fórmula 1 Nelson Piquet também divulgou a marca em uma live naquele ano.
Alexandre Caetano dos Reis, preso desde dezembro de 2025, foi sócio do Careca do INSS em uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. Segundo investigação da PF, ele atuava como contador de diferentes empresas ligadas a Antunes e tinha acesso a planilhas, documentos e operações financeiras consideradas sensíveis pelos investigadores.
Outra ligação citada é Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre e administradora do escritório de advocacia de Flávio. Em entrevista à Agência Pública, em 2022, ela afirmou que chegou ao escritório por indicação de Willer Tomaz, amigo do senador e advogado também alvo da Operação Sem Desconto.
Além de Flávio, Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente, também aparece na sociedade da Bravo Grafeno. Outros três sócios integram o negócio, entre eles o empresário Pedro Luiz Dias Leite, que foi sócio do ex-marqueteiro de Flávio, Marcello de Oliveira Lopes.
Marcello, conhecido como Marcelão, enviou R$ 1 milhão à produtora Go UP, responsável pelo filme “Dark Horse”, em dezembro de 2025, segundo inquérito da PF. “Eu sou investidor do filme, é uma natureza totalmente empresarial. Tudo certinho, legal. Não houve repasse, houve investimento”, disse ao jornal O Globo.
Também aparecem no quadro societário o personal trainer Paulo Giordano Bernardi e o ex-assessor de Flávio Fernando Nascimento Pessoa, investigado no caso da rachadinha no gabinete do senador na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Procurados, os três não retornaram às tentativas de contato.
Segundo dados públicos da Receita Federal, pelo menos 16 empresas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes foram registradas no mesmo endereço da Bravo Grafeno. Algumas foram baixadas após o início das investigações.
O grupo reunia empresas de consultoria, construção, incorporação, comércio, locação de veículos e call center. A sala 2601 também aparece como endereço de empresas relacionadas à movimentação de dinheiro investigado no escândalo do INSS.
Uma delas é a Prospect Consultoria Empresarial. Segundo relatório final da CPMI, a empresa recebeu R$ 204,2 milhões de nove entidades investigadas, incluindo R$ 115,9 milhões da Unaspub, R$ 27,1 milhões da Ambec e R$ 19,8 milhões da CBPA.
O levantamento também aponta que oito empresas foram fundadas no mesmo dia, em 5 de outubro de 2023. O Careca do INSS, segundo as investigações, atuava junto a entidades autorizadas a descontar mensalidades diretamente dos benefícios e recebia valores dessas associações por meio de uma rede de empresas.
Ele é investigado ainda por movimentar recursos entre diferentes CNPJs, inclusive para aquisição de patrimônio e pagamentos a pessoas ligadas ao grupo, além de atuar nos bastidores do INSS em defesa dos interesses dessas entidades. Flávio Bolsonaro nega envolvimento no escândalo. Procurados, os demais citados não se manifestaram. (Com informações do ICL Notícias)
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