Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020

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Cinema Entenda como o Coringa virou símbolo de mudanças sociais em protestos pelo mundo

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Libanesa se caracteriza como Coringa durante protesto em Beirute. (Foto: Reprodução)

Em 20 de outubro, o Coringa entrou numa cabine eleitoral em Lanús, na Argentina, para cumprir seu dever cívico de escolher um novo presidente. Ele vestia calça e colete vermelhos, camisa amarela, tinha cabelos sebosos tingidos de verde e o rosto pintado de branco. Era mais um cidadão, entre inúmeros ao redor do mundo, que comparecera a um evento político fantasiado como o vilão de Joaquin Phoenix no filme de Todd Phillips – fenômeno global cuja bilheteria se aproxima de US$ 1 bilhão.

A repercussão do filme não se reflete apenas em cifras, mas na transposição de suas ideias para o mundo real, onde proliferam manifestações populares contra governos. Em cada uma delas – seja na América Latina, Oriente Médio ou Ásia –, o rosto do palhaço arquinimigo do Batman se sobressai na multidão.

Mas o que (ou quem) ele representa? Criado em 1940 por Bill Finger, Bob Kane (os pais do Batman) e Jerry Robinson para o quadrinhos da DC, o vilão batizado de Joker já teve diversas aparências e perfis nas HQs, TV e cinema, indo de gângster a bufão. Mas a versão atual (distante do personagem niilista de outras encarnações) chegou na hora certa para canalizar uma ânsia generalizada por transformações sociais.

“As pessoas buscam e encontram na cultura pop uma linguagem que possam compartilhar entre si”, diz o americano Henry Jenkins, ex-pesquisador do MIT, pioneiro no estudo do comportamento dos fãs de mídia popular. “Isso explica o Coringa tomar as ruas.”

E o Coringa da vez é, antes de tudo, Arthur Fleck, subempregado e com uma grave doença mental. Comediante fracassado e sonhador, ri em situações inapropriadas e sofre bullying por seu jeito esquisitão. Em resumo, um espelho dos excluídos e solitários.

Vítima do sistema

No filme, em dado ponto o programa de atendimento psiquiátrico que mantém Fleck medicado é suspenso pelo governo de Gotham – cidade que espera ser salva pelo magnata e candidato a prefeito Thomas Wayne, pai do pequeno Bruce (ele mesmo, o futuro Batman).

Antes do surto psicótico que o faz assumir a identidade do Coringa, Fleck pode ser visto como uma vítima de um sistema público que não ampara os necessitados. É especificamente neste aspecto de injustiça social – e não nos rompantes violentos do personagem – que os manifestantes estão se inspirando.

“O que este Coringa trouxe de novo foi uma narrativa que o coloca como simbolo de abandono e esquecimento. A sociedade e as instituições não o acolhem; ao contrário: rejeitam-no”, diz Sérgio Bairon, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP.

Até este ano, um dos adjetivos que mais acompanhavam o Coringa era anárquico – um assassino movido a loucura e caos, muito bem representado por Heath Ledger em “Cavaleiro da Trevas” (2008). Uma de suas histórias marcantes é “A piada mortal”. Publicada em 1988, a HQ escrita por Alan Moore e ilustrada por Brian Bolland foi a primeira a imaginar uma origem para o sujeito até então sem passado: um homem de família cuja desgraça pessoal liberta dentro de si o supervilão, que só existia como contraponto ao hiperviolento Batman.

“Já no filme “Coringa”, ele é resultado da desigualdade social. Entendo que os manifestantes chilenos, libaneses e de Hong Kong estão fazendo referência a esta parte”, avalia Érico Assis, tradutor e pesquisador de histórias em quadrinhos, reforçando a posição do longa como fenômeno da cultura pop contemporânea.

Viral e prático

Reconhecer esta posição, aliás, é importante para entender a proliferação dos Coringas pelo planeta. Não é como se, por coincidência, cada indivíduo tivesse saído do cinema com a mesma ideia de pintar o rosto e andar por aí pedindo justiça social. As redes sociais também tiveram um papel.

“Mesmo com pautas políticas locais, a origem dos protestos passa, primeiro, pela percepção da injustiça e, depois, pela indignação de um grupo muito maior de cidadãos na internet”, afirma Branco Di Fátima, autor do recém-lançado “Dias de tormenta”, livro em que analisa a onda de protestos dos último anos no Brasil e no mundo. “Uma característica da internet é o poder da imitação. Como protestos são transmitidos on-line e viram trending topics , suas referências são apropriadas por outros atores sociais que buscam resultados parecidos.”

E não se pode esquecer, claro, a praticidade da maquiagem, como lembra Érico Assis: “Duas ou três cores de tinta na cara e pronto”.

Além do Coringa: cultura pop toma as ruas

Você consegue ouvir as pessoas cantarem? Cantando a canção dos homens bravos?

Caso não reconheça essas frases acima, são os versos mais famosos de “Do you hear the people sing”, que no musical “Les misérables” cumpre o papel de hino da revolta popular na França. Recentemente, foi entoada por manifestantes pró-democracia em Hong Kong.

Anos atrás, a saudação feita pelos revolucionários nos filmes de “Jogos Vorazes” foi replicada pelos tailandeses em sua luta contra o regimemilitar do país. Baseados nos livros de Suzanne Collins, os longas falam de EUA distópicos em que o proletariado passa fome enquanto uma elite endinheirada se esbanja em banquetes e festas espalhafatosas.

Pelo direito ao aborto seguro e pela manutenção de organizações de apoio à mulher, americanas usaram o manto vermelho das aias de “The handmaid’s tale” e foram às ruas. No livro e na série, elas são relegadas à função de concubinas numa sociedade fundamentalista

Da mesma forma que autores se inspiram em elementos históricos para criar suas ficções, o caminho inverso também acontece. “Coringa” não inaugurou a tendência: de tempos em tempos, as iconografias da cultura pop chegam às ruas do mundo real.

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