Terça-feira, 11 de Agosto de 2020

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Geral Eu nem sei o que é fake news, afirmou o dono da Havan

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Em entrevista, Hang fala sobre investigações, Bolsonaro e o apoio a Sergio Moro.

Foto: Reprodução/Instagram
Luciano Hang em uma inauguração de uma de suas lojas. (Foto: Reprodução/Instagram)

O empresário Luciano Hang, de 57 anos, dono da rede de lojas Havan, é um dos mais inflamados apoiadores do presidente Jair Bolsonaro no mundo dos negócios. Alvo de uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que investiga o impulsionamento de mensagens pró-Bolsonaro pelo WhatsApp na campanha de 2018, Hang tornou-se suspeito também de bancar a propagação de fake news e de ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), no inquérito que corre na Corte para investigar a questão.

Em entrevista, ele fala sobre as investigações do TSE e do STF, sua relação com Bolsonaro e o apoio manifestado ao ex-ministro Sergio Moro quando de sua saída do governo, que lhe rendeu apupos em série nas redes sociais por parte das brigadas bolsonaristas. Chamado de “Véio da Havan” por seus desafetos, Hang comenta também o suposto favorecimento que teria obtido do governo na liberação de uma obra pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o auxílio de R$ 600 que teria recebido na pandemia e as acusações de sonegação fiscal e de que passou a vender produtos da cesta básica nas lojas da Havan para poder abri-las durante a quarentena.

O sr. é alvo de uma investigação no STF no inquérito das fake news e outra no TSE por impulsionamento de mensagens pelo WhastApp durante a campanha eleitoral. O que o sr. tem a dizer sobre o seu envolvimento nas investigações?

Tudo começou dez dias antes do segundo turno das eleições presidenciais, quando saiu aquela notícia de que empresários tinham impulsionado mensagens pró-Bolsonaro pelo WhatsApp. Até hoje não apresentaram nenhuma prova de que aquilo era verdade, até porque eu não fiz isso. Na época, disseram até que tínhamos gastado R$ 12 milhões para disparar as mensagens. Fui alvo dessa investigação do TSE a pedido do PT, que quer cancelar as eleições de 2018, mas eu estou tranquilo. Nada fiz de errado e estou de consciência tranquila.

No caso do inquérito do STF, em que o sr. é suspeito de financiar a propagação de fake news, o que o sr. tem a dizer? Eu nem sei o que é uma fake news. O que é uma fake news?

Um fato tem várias versões. A versão que você encampa depende do lado que você está. Nas eleições, eu acho que todos os brasileiros participaram através do WhatsApp. Simplesmente atuei em grupos de WhatsAapp que eu montei. Fiz muitos vídeos, que eu publicava nas minhas redes pessoais do Instagram e do Facebook. O que eu produzi de conteúdo coloquei nas minhas redes. Então, estou muito tranquilo, porque não produzi nenhuma fake news. O que às vezes pode acontecer é você compartilhar algum vídeo que recebeu nas suas redes, mas isso é normal, porque todos os brasileiros nessas eleições trabalharam muito por seus candidatos.

O sr. atua muito nas redes sociais contra os adversários do presidente Jair Bolsonaro e do governo. Muitas vezes, o sr. manifesta sua opinião de forma enfática e talvez até agressiva. O sr. não acha que sai um pouco da linha em sua atuação nas redes?

Vou ser bem sincero. Sou um cara que tem muita energia. Em tudo o que eu faço, coloco muita energia. Você nota que, quando eu falo, falo com muita força. Quando escrevo, é a mesma coisa. Mas você pode verificar nas minhas redes que, neste ano, por exemplo, coloquei mais posts tentando unificar, unir os Poderes. Em março, no começo da pandemia, fui convidado a participar de um ato na Avenida Paulista começando a pandemia. Eu disse: “Pessoal, não é o momento de irmos para a rua. É o momento de nos unirmos. Não podemos além de ter uma crise na saúde, uma crise na economia e também uma crise política”. Então, não fui para as ruas. Em nossas lojas, em que a gente costuma colocar a bandeira do Brasil, cheguei a colocar bandeiras brancas pedindo paz, harmonia e mais atenção com a economia. Porque eu entendo que, se nós acertarmos a economia, isso vai contagiar a política. A forma de eu me expressar é sempre contundente. Fui líder estudantil lá atrás, na época da faculdade e da escola. Sempre fui uma pessoa de liderança, mas jamais querendo afrontar ninguém, apenas procurando mostrar o meu pensamento. Por isso, faço personagens. Tento mostrar de uma maneira lúdica para a sociedade aquilo que eu penso. Acho que é normal um brasileiro lutar pelo País e ter as suas posições. Nem sempre as minhas posições vão estar certas. Mas isso faz parte do jogo democrático brasileiro.

Já naquela época, como líder estudantil, o sr. atuava pela direita?

Você acredita, eu era de esquerda. Na época, havia dois partidos, o MDB e a Arena. Eu era MDB. Só me desfilei do MDB agora em 2018, um dia antes de eu me manifestar que seria um ativista político sem partido e sem querer ser político. Não tenho partido e nem político de estimação. Eu defendo ideias. Se as coisas não combinam com elas, eu falo contra. Entrei na política em 2018, no dia 5 de janeiro, como forma de ajudar a população a escolher um candidato, lutar por ele, para mudar o nosso País. Avisei que seria um ativista político. Desde então, a gente participa do dia a dia, em grande parte mostrando o que é correto. Sempre digo que nós não chegamos no fundo do poço de graça. Foram décadas e décadas de coisas feitas erradas e eu queria que o Brasil fosse um País com liberalismo econômico. Acredito que quando a economia vai bem, o povo vai bem e a saúde, a educação, a segurança, tudo vai bem.

O que o levou a dar essa guinada da esquerda para a direita?

Acredito que, quando houve a abertura política, o MDB, que na época passou a se chamar PMDB, pulou para a canoa errada. Deveria ter apoiado a redução do Estado, as privatizações, o enxugamento da máquina pública, menos Brasília e mais Brasil. É nisso que eu acredito. Uma das bandeiras que sempre levanto é a desburocratização deste país e ela passa pela redução da máquina pública. Lamentavelmente, partidos que estavam à direita levantaram essa bandeira com muito mais vontade e o PMDB passou a não querer privatizar portos, telefonia, nada. Aí, fui mudando o meu pensamento. Na realidade, hoje, sou um ativista mais econômico do que político, porque política não é fácil. Sou comerciante, tenho 57 anos, e até hoje não aprendi a ser comerciante e tenho certeza de que jamais vou aprender a ser político. É muito difícil.

O sr. diz que não tem partido nem político de estimação, mas é um dos mais aguerridos empresários em defesa do presidente Bolsonaro e do governo. Como o sr. explica isso?

Veja bem, as propostas colocadas na mesa desde o princípio que eu defendi foram a reforma da Previdência, a reforma administrativa e agora a nova lei do saneamento básico. Eu quero trabalhar essas propostas para o País, de redução da máquina pública, redução da burocracia. É isso que eu vejo no governo Bolsonaro, que eu apoio. Não me envolvo em coisas particulares e em coisas que eu não conheço.

Apesar de falar agora da bandeira branca, da pacificação, o sr. é alvo de vários processos por excessos cometidos nas redes. Já foi até condenado em processos envolvendo a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e o reitor da Unicamp. Isso não é um sinal de que o sr. arruma muita confusão nas redes?

No caso do reitor da Unicamp, me passaram um áudio de uma cerimônia de formatura de alunos de tecnologia da informação, em que uma pessoa, que achavam que era o reitor, falava no final: “Viva la revolución”. Eu fiquei indignado, porque não aceito que uma universidade pública tenha um viés ideológico desses. Aí, eu coloquei o no meu Twitter. Na realidade, a pessoa que me passou o áudio havia dito que era o reitor, mas era uma alguém que naquele momento estava representando o reitor. Eu jamais mencionei o nome do reitor. Tenho o áudio, as fotos e os depoimentos das pessoas que estavam presentes, dizendo a pessoa que estava representando o reitor falou aquilo e que que eu apenas reproduzi o que elas haviam me falado.

Agora, o sr. não deveria ter checado se o áudio era mesmo do reitor antes de compartilhá-lo nas redes?

Era o representante do reitor. Naquele momento, na cerimônia ele era o reitor. Nós tentamos checar tudo o que botamos nas nossas redes, porque temos um compromisso com os meus fãs. Hoje, tenho 5 milhões de fãs no Facebook, 3,2 milhões no Instagram e mais 300 mil no Twitter. Então, temos a responsabilidade de checar as informações que soltamos.

No caso da OAB, o sr. também foi alvo de um processo.

Com a OAB, foi diferente. Bem no começo do mandato do presidente, ele queria fazer reformas trabalhistas, reformas previdenciárias, as reformas pelas quais todos nos lutamos, e a OAB se posicionou contra. Aí eu falei que lamentavelmente a OAB está sempre do lado errado. Eu posso dizer que nós ganhamos 90% das questões judicializadas por algum post que eu fiz. Os que nós não ganhamos estão na primeira instância e cabe recurso, como é o caso da OAB e do reitor da Unicamp.

O que quero dizer, independentemente da especificidade de cada caso, é que isso mostra que o sr. tem uma postura aguerrida, radical, na internet. Mais uma vez, o sr. não acha que se excede um pouco, não?

Eu sou uma pessoa do bem, animada, otimista, positiva. Você pode ver nas minhas redes sociais, estou sempre de bem com a vida. Agora, sou uma pessoa que tem posições e as defende com unhas e dentes. Os empresários poderiam ser mais protagonistas, defender suas ideias de liberalismo econômico, menos máquina pública, menos burocracia, que é o que estamos precisando. Eu gostaria de só defender isso. Até porque não sou político, não quero ser político, não entendo de política, não vendo para governo, não compro de governo. O meu negócio é fazer com que esse País funcione.

A sua postura belicosa nas redes não acaba gerando muito ruído, não cria uma animosidade desnecessária para o País?

Na grande maioria das vezes, eu defendo. Não vou para o ataque. Eu vejo algo do outro lado afrontar o que eu acho certo e defendo a minha posição. Se alguém diz que não precisa fazer a reforma da Previdência, eu vou lá e coloco a minha posição. A mudança das redes sociais permite que você possa responder. Quando alguém fala alguma coisa com a qual você não concorda, pode dizer “não é bem assim”. É isso que faz com que a gente possa debater hoje as ideias de uma forma muito mais livre ideias. Anos atrás, eu não conseguiria dizer “não, isso não é bem verdade, não é bem assim, é assado”, quando alguém falasse mal de mim. De novo, um fato, várias versões. Nem todo mundo acha que você está certo quando escreve alguma coisa. Isso é a democracia, você ter várias opiniões e o povo ter a liberdade de escolher quem está certo e quem está errado.

Quando o sr. circula por aí, o que acontece? Muita gente o questiona, critica as suas ideias, suas posições?

Eu não consigo andar na rua. Não consigo mais visitar minhas lojas. As pessoas vêm me abraçar, tirar foto, agradecer as minhas posições. Durante décadas e décadas, essas pessoas não tiveram voz. Aliás, ainda não tem. Então, o que eu sinto das pessoas é um entrosamento com as minhas posições. Recentemente, fui no maior restaurante de Curitiba, o Madalosso, no qual cabem 5 mil pessoas sentadas. Naquele dia, um dos salões estava aberto e quando entrei as pessoas se levantaram e começaram a bater palma para mim. Eu me arrepiei, as pessoas que estavam comigo se arrepiaram. As pessoas vieram tirar foto comigo, disseram “continue, nós estamos do seu lado, o Brasil precisa mudar, nós precisamos de gente que fala a verdade, com coragem”. Nós precisamos ter posição. A minha posição pode ser diferente de outra. Isso é democracia, aceitar posições diferentes sobre o mesmo assunto.

Mudando de assunto, o sr. encontra o presidente com frequência e recebe uma atenção especial dele. Há várias fotos suas com ele desde a época da campanha. Como é a sua relação com o presidente. O sr. fala sempre com ele, dá conselhos para ele?

Na realidade, na campanha, eu me encontrei com ele em janeiro, em fevereiro de 2018. Depois, quando ele foi esfaqueado, fiz uma entrevista com ele e fui visitá-lo no (Hospital Albert) Einstein. Estive também na posse. De lá pra cá, estive com ele no dia 7 de setembro, na cerimônia de comemoração da Independência e fui na posse do ministro da Justiça um ou dois meses atrás. Estive ainda uma outra vez com ele em Florianópolis, quando ele passou pela cidade. Eu consigo contar nas minhas duas mãos as vezes em que estive com o presidente. Como ele é muito ocupado, evito procurá-lo. Eventualmente, eu o procuro para falar de alguma ideia que surgiu ou para relatar algo que está acontecendo, mas os contatos não são assim tão frequentes. Se eu vejo que algo está errado, se alguém me passa alguma coisa errada, não custa eu falar com o presidente e dizer o que eu penso. Agora, os contatos que tenho com ele são sempre no sentido positivo, de que nós precisamos acertar a economia e fazer com que esse País ande para a frente. É por isso que eu luto tanto. Gosto muito da equipe econômica do governo, das pessoas que estão lá se dedicando em favor do País.

Recentemente, naquela reunião ministerial de 22 de abril, o próprio presidente sugeriu que atuou para liberar uma licença do Iphan que o favoreceu. Como foi isso?

Mentira. Eu até perguntei isso pra ele. Como é que você soube do meu caso no Iphan? Eu lhe pedi alguma coisa? Ele disse não, Luciano, eu vi a sua live (sobre o assunto). O presidente me segue nas redes sociais. A primeira placa do “atrasômetro” que eu coloquei foi numa das nossas obras, na cidade de Rio Grande (RS). Na época, eu comentei do Iphan, que atrasa as obras por todo o Brasil. Aliás, agora, neste momento, eu estou para ligar duas hidroelétricas no Rio Grande do Sul, nas quais estamos investindo RS R$ 400 milhões, e não estou conseguindo porque o Iphan está parado com a pandemia e não libera as licenças. Ou seja, que país é esse que precisa de energia, que tem uma obra pra inaugurar, que está pronta, e não consegue ligar os geradores porque o Iphan está parado? O Iphan tem um prazo para isso, mas passa o prazo e eles não dão a licença. Essa é a questão. O prejuízo diário é astronômico, para uma hidrelétrica. Para uma loja também. Eu quero abrir, quero inaugurar, quero empregar, mas eles não têm pressa para nada. O presidente foi eleito para tentar desenferrujar a máquina pública. Tanto que se meteu lá no Inmetro e está tentando se meter em um monte de áreas, para deixar o Brasil livre para ser um país empreendedor.

Não é papel do Iphan zelar pelo patrimônio histórico e arquitetônico do País?

Sim, mas com celeridade. Eles sentam em cima dos projetos e nada sai. Nós não podemos ver o País se desenvolvendo, gerando emprego, se não saem os alvarás, se não saem as licenças, aquilo de que você precisa para trabalhar. Lamentavelmente, isso se deve à ideologia das pessoas que lá vão trabalhar e não têm pressa para fazer com que o País volte a crescer e gere emprego. É por isso que eu luto. Na Havan, fizemos uma loja em dois meses. Fizemos uma hidroelétrica em um ano. Sabe quantos anos demora para conseguir uma licença para fazer uma hidroelétrica no Brasil? Dez anos, dez anos, e isso brigando muito.

Outra questão quer apareceu nos últimos meses foi que o sr. recebeu o auxílio de R$ 600 na pandemia. Que negócio é esse?

Eu estou procurando os R$ 600 até agora. No meu bolso, não apareceu. Deve ser algo fake. Aliás, não foi só comigo. Eu vi que isso aconteceu também com vários artistas, com o Silvio Santos. Como burlam às vezes os nossos sistemas, para ganhar crédito na Havan para poder comprar alguma coisa, eles conseguem burlar o sistema do governo para conseguir esse dinheiro emergencial, o sistema dos bancos. Esse é o mundo digital que existe hoje. Eles pegam as informações através das bases de dados.

Uma palavra sobre a demissão do ex-ministro Sérgio Moro. O sr. se disse decepcionado com a demissão e manifestou apoio a ele nas redes. Isso lhe rendeu até muitas críticas entre os bolsonaristas. Como o sr. viu a saída do Moro? Esse episódio mudou a sua visão sobre o governo Bolsonaro?

Eu recebo críticas de ambos os lados, mas as críticas fazem parte da vida da gente. Falo o que eu quero e não dou bola para as críticas. Talvez seja esse o meu grande diferencial. Estou acostumado a críticas desde que era líder estudantil. Sou um cara público. Quando fui fazer a visita para o (deputado) Rodrigo Maia (presidente da Câmara), eu o abracei, fiz um vídeo com ele, porque ele queria apoiar a reforma da Previdência, e f ui escrachado. Faz parte. Se a gente levar a vida olhando pelo retrovisor, para tudo que é lado, ficar preocupado com o que as pessoas vão falar, você não faz nada. Eu sou autêntico.

O episódio do Moro mudou em alguma medida a sua visão do governo?

Eu fiquei triste com a saída do Moro. Acho que ele foi uma pessoa importante para as mudanças em nosso País, com a percepção da roubalheira, da corrupção endêmica instaurada no governo. Coloquei isso nas minhas redes sociais. Agora, eu prefiro ser pontual. Se o governo erra, eu critico. Se acerta, continuo apoiando. O governo é uma coisa muita complexa. Vejo muito falar sobre a Amazônia. Vejo muitas pessoas preocupadas com a nossa Amazônia. Qual o tamanho da Amazônia brasileira? Cabem mais de 30 países europeus dentro da Amazônia. Tenho lojas na região da Grande Amazônia, que engloba setecentos e poucos municípios, com 5,2 milhões de km². Você demora três horas de jato para atravessar a Amazônia. E o custo de cuidar da Amazônia é gigantesco. Então, nós temos de cuidar da Amazônia, mas não podemos esquecer das pessoas que vivem lá, para que elas possam subsistir. Acredito que temos de levar para fora também boas notícias do nosso País.

Recentemente, o escritor Olavo de Carvalho o criticou nas redes, afirmando que o sr. prometeu ajudá-lo e não fez nada. Em seguida, o sr. foi num grupo de WhatsApp, pelo que se relatou, e estimulou a organização de uma vaquinha para ajudá-lo, para ele “continuar lutando pelo Brasil”. O sr. acredita que o Olavo, com todas as polêmicas e intrigas que ele cria para o governo, faz bem ao País?

Vamos por partes. Um dia, de manhã, eu acordei e vi publicações nas redes dizendo que o Olavo tinha me chamado de Zé Carioca e que eu tinha prometido ajudá-lo quando da minha visita a ele em 2019, lá na Virgínia (EUA). Depois, ele explicou que havia me pedido que eu patrocinasse um programa dele numa TV aberta aqui no Brasil, coisa que não consegui fazer. Ele me pediu para que eu fizesse e eu não consegui. Naquela ocasião, fiquei umas quatro, cinco horas com ele. Gostei muito dele e fiz campanhas nas minhas redes sociais para o pessoal comprar livro do Olavo, para se inscreverem nos cursos dele. Eu mesmo me inscrevi. Sorteei cursos gratuitos do Olavo de Carvalho e você nota que, mesmo assim, ele vem e fala “Pô, Luciano, você prometeu me ajudar”. Aí, vendo que o que ele mais queria eram advogados para poder ajudá-lo nas causas que colocam contra ele, eu fiz uma live pedindo para o pessoal contribuir.

O sr. acha que o Olavo está certo?

Há coisas em que ele está certo e outras em que ele está errado. Na hora que ele está certo, eu aplaudo. Quando ele está errado, eu fico com a minha posição. É normal isso. Imagina se todo mundo falasse que o amarelo fosse bonito, o que seria do vermelho? O Olavo tem os seus posicionamentos polêmicos, mas, de novo, faz parte da democracia. Cada um tem que ter o direito de se manifestar e as pessoas que escutam tem de ter o direito de escolher se está certo ou errado. É a pluralidade de pensamento. Quando você só escuta um lado e não tem o contraditório, vai acabar achando que aquilo lá está certo. A partir do momento que tem outros lados, que falam outras coisas, pelo menos você vai poder escolher um lado. Eu vejo as pessoas dizerem que o Olavo é o guru do Bolsonaro. Muitas vezes, perguntei para o Bolsonaro se ele tinha contato com o Olavo e ele disse que não tem.

Mas os filhos do presidente têm.

Eu não sei. O Olavo vive uma vida simples nos Estados Unidos, não tem ostentação, não trabalha para ganhar dinheiro com o governo. Ele simplesmente tem uma posição e luta por ela.

O sr. fala muito no contraditório, em poder escolher um lado, mas há um grupo de bolsonaristas que não aceita muito bem as divergências.

Isso está errado. Muito bem falado. Nós precisamos escutar todo mundo e depois cada um toma a sua posição baseado na sua consciência. Esse negócio de que todo mundo tem de pensar igual está errado, para um lado e para o outro. Se eu me posiciono contra um e contra outro sou malhado. Eu não dou bola. Aceito críticas. Para mim, alguém que faz críticas ou alguém que fala bem é igual. Eu trabalho numa empresa que tem 20 mil trabalhadores e e prego o contraditório. Digo que todo mundo tem de se meter na área do outro. Na Havan, não tem essa coisa de área restrita ao diretor A ou B. O diretor A se mete na área do B, o B se mete na área do A. Tem pessoas que não entendem nada de um setor, mas têm de ter o direito de dizer o que acham de errado lá. É dessa forma que vamos melhorar a nossa empresa. É dessa forma também que nós vamos melhorar o País, com a pluralidade de pensamento.

Recentemente também surgiu uma notícia da Receita Federal sobre uma suposta sonegação da Havan. Sua empresa também é alvo de outros processos no Carf (Conselho de Administração de Recursos Fiscais). Um deles, de cerca de R$ 2,5 milhões, seria pelo não recolhimento da contribuição previdenciária patronal. Que pendências são essas?

Isso não é processo de sonegação. Sonegação é quando você faz alguma coisa por querer. Os processos vão para o Carf, quando há um litigio com a Receita. Somos uma empresa auditada há mais de dez anos pela Ernst & Young. Então, nada se faz de errado. Esses R$ 2,5 milhões são relacionados ao patrocínio de times de futebol pela Havan. Na época, não havia a Lei Pelé e um fiscal tinha achado que era devido pagar os 5% de INSS em cima do patrocínio. Hoje, já existe uma lei para isso. Agora, quando você dá o patrocínio, o clube já desconta os 5% na fonte. Na época, não havia isso. Então, nós estamos discutindo esse pagamento na esfera administrativa. Depois, você ainda pode procurar a Justiça, se tiver um entendimento diferente. Para você ter uma ideia, no Carg, uma decisão do Carf chega a levar cinco, seis anos. Muitas vezes, nem o pessoal que trabalha no Carf sabe se aquela lei é ou não válida, é ou não é certa. Agora, 90% das decisões que estão no Carf ou na Justiça são pró-Havan. Se hoje eu estou discutindo R$2,5 milhões no Carf, R$ 50 milhões no Carf, devo ter R$ 500/600 milhões de decisões a nosso favor. Isso, pelo tamanho da nossa empresa, é pouco. A Havan faturou ano passado R$ 11 bilhões e pagou quase R$ 3 bilhões em tributos e benefícios.

Na quarentena, a certa altura, a Havan passou a vender arroz, feijão e outros produtos da cesta básica e, segundo alguns analistas, para poder abrir as lojas. Embora não seja ilegal a empresa vender esses produtos, o sr. não acha uma postura inadequada?

A Havan tem 34 anos de história e há algumas décadas ela já está enquadrada no Cnai (Cadastro Nacional de Atividades Econômicas) para vender produtos alimentícios. O nosso Cnai pode sim vender alimentos. No começo da Havan, a gente vendia alimentos. Aliás, eu vendo alimentos todos os meses, milhões de alimentos. Sou um dos maiores vendedores de chocolate do Brasil. Na Páscoa vendo de 100 a 200 milhões de ovos. Nós temos lojas enormes, com corredores enormes, e estamos vendendo alimentos em todas as lojas novas. Daqui para frente, nós vamos colocar alimentos, sim, em todas as nossas lojas, porque vimos que é mais uma forma de vendermos mais para a população. Nós vamos ser um grande vendedor de alimentos. Já vendíamos chocolates, outros tipos de alimentos, e agora vamos intensificar a venda de produtos básicos, em até cinco vezes sem entrada e sem acréscimo. Eu sempre falo que a crise é a hora de a gente se reinventar. Na pandemia, você vê sites que não vendiam alimentos vendendo, o delivery funcionando. A Havan é uma empresa que cria a cada momento de necessidade. Na pandemia, o nosso online cresceu 300% e a venda de alimentos nas nossas lojas está crescendo assustadoramente.

O sr. quer dizer que a venda de arroz e feijão na Havan não foi para furar a pandemia?

Se, neste momento da pandemia, eu tivesse mudado o meu Cnai só para fazer isso, seria uma sacanagem. Mas o meu Cnai é de dezenas de anos atrás. O nosso enquadramento é de hiper e supermercado. Mas, na realidade, o que é um hiper e um supermercado? É um estabelecimento de tamanho gigantesco, onde a mercadoria é colocada em gôndolas e ao final você paga em checkouts. É justamente o que a Havan faz. Nos Estados Unidos, 90% das vendas de uma Target e de uma Walmart são de não perecíveis e mesmo assim elas são consideradas hipermercados. Aqui no Brasil é a mesma coisa.

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