Segunda-feira, 29 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 28 de junho de 2026
Depois de um protocolar pedido de desculpas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pelas redes sociais, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro baixou o tom em relação à divergência aberta por ela com o presidenciável em dois vídeos postados no Instagram, em que se queixa de ter sido “humilhada e maltratada” pelo enteado em razão das críticas que fez à aliança do PL com Ciro Gomes (PSDB) nas eleições do Ceará.
A ex-primeira-dama voltou às redes para dizer que não tem “raiva de ninguém” e não há competição da parte dela. “Apenas esclareci uma situação que estava sendo deturpada. Vamos todos trabalhar juntos para derrotar o atual desgoverno. Não há briga nem competição”, escreveu. A mensagem foi publicada como “story”, que fica visível por 24 horas. A modalidade é diferente dos vídeos divulgados na quarta-feira (24) que ficam registrados no perfil e seguem disponíveis.
No seu “story”, ela demonstrou incômodo com a repercussão negativa que seus vídeos tiveram na ala dura do bolsonarismo. “Peço apenas que não retirem trechos da minha fala do contexto para gerar confusão. Uma nova história será escrita com verdade, clareza e respeito.”
O vídeo de Michelle na quarta-feira com queixas contra o enteado eclipsou por completo nas redes sociais o impacto da saída do senador Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado, em função das denúncias que o ligam ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.
De acordo com monitoramento do Instituto Democracia em Xeque houve três vezes mais menções a Michelle que Wagner nas principais redes entre quarta e quinta-feira (25). Foram 91.613 referências sobre a ex-primeira-dama e 29.319 sobre o petista baiano. A distância aumenta em relação ao engajamento. Foram registradas 1,4 milhão de interações sobre Michelle, sete vezes mais que as 214 mil relacionadas ao ex-líder do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo o levantamento, a direita tracionou o debate nas redes em relação aos dois temas. No de Michelle, parte da audiência de direita endossou a crítica da ex-primeira-dama à aliança do PL com Ciro Gomes (PSDB) na eleição estadual no Ceará. A corrente majoritária, contudo, acusou Michelle de sabotagem contra a candidatura de Flávio e de ter errado estrategicamente ao veicular um vídeo nesse tom e em um dia de revés político para o governo.
Em seu vídeo de desculpas, Flávio se disse surpreso com conteúdo publicado pela madrasta e declarou que em “nenhum momento” ofendeu ou teve a intenção de ofendê-la. “Se o fiz, mais uma vez peço desculpas”, disse. Flávio também afirmou estar “de coração aberto” para uma reaproximação com Michelle. A declaração foi feita na noite de quarta-feira (25), cerca de cinco horas depois da publicação da ex-primeira-dama.
No seu vídeo, Flávio disse que entendia “a angústia de Michelle” diante da situação do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar. Disse que tentou, sem sucesso, falar com a ex-primeira-dama para convidá-la para um evento na quarta-feira (1º de julho).
A iniciativa de Michelle irritou a cúpula do PL. “O Brasil inteiro agora sabe o que nós sabemos faz tempo. Ela é desagregadora”, comentou sob reserva um influente parlamentar da sigla. Para esse congressista, a nota de Michelle na manhã de quinta-feira indica que “ela reconhece que errou, porque começou a apanhar bastante nas redes”.
O efeito eleitoral potencialmente danoso da divergência no eleitorado feminino, um dos pontos fracos de Flávio de acordo com as pesquisas de intenção de voto, é minimizado dentro do partido. A avaliação é que a força do antipetismo faz com que o panorama para uma disputa no segundo turno entre o senador e Lula siga inalterado. A debilidade de Flávio no eleitorado feminino, segundo essa visão, veio como herança do pai e, exatamente por isso, é cogitada desde o início do ano a indicação de uma mulher para compor a chapa como vice.
Em sua reação, Flávio demonstrou preocupação com a sua imagem entre as mulheres. Em outro vídeo, postado depois da manifestação de Michelle, negou a versão da ex-primeira-dama para as desavenças entre os dois. “Nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher em minha vida. Jamais faria isso com a esposa do próprio pai.” Sua esposa, Fernanda Bolsonaro, também postou nas redes sociais. “Como esposa, escolho olhar para aquilo que vejo todos os dias: um homem leve, respeitoso, carinhoso, restaurado e pai dedicado às nossas duas filhas.”
De acordo com pesquisa do Datafolha divulgada no sábado (20), a rejeição do senador entre as mulheres é de 53%, 13 pontos percentuais maior que a de Lula. Já entre os homens cai para 43%, 9 pontos percentuais a menos que a do presidente. Na simulação de segundo turno, Lula ganha entre as mulheres por 52% a 37%. Entre os homens, perde por 41% a 50%.
Nos bastidores, integrantes da campanha de Flávio já esperavam que Michelle divulgasse algum vídeo nas redes sociais, inclusive porque ela teria sinalizado isso após entrevista de Ciro Gomes à revista Veja, publicada na sexta-feira (19), na qual o ex-ministro compara Bolsonaro a Lula.
No entanto, não se esconde o incômodo com o tom adotado pela ex-primeira-dama. “Trackings” encomendados pela campanha estariam mostrando que o efeito negativo do envolvimento de Flávio no caso Master, depois da divulgação do áudio em que pede dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, vinha refluindo e o comitê estava conseguindo virar a página, emplacando uma fase mais propositiva.
Na visão de um aliado do senador, como não existe a possibilidade de o ex-presidente Jair Bolsonaro jogar o filho aos leões e apoiar sua substituição por Michelle, o mais provável é que a ex-primeira-dama tenha feito um desabafo, movida pelo inconformismo com os rumos do palanque do PL no Ceará, sem considerar todos os potenciais efeitos negativos que sua fala poderia causar.
No entorno de Michelle, por outro lado, o desconforto com Flávio é tamanho a ponto de questionarem se Bolsonaro de fato escolheu o filho para representá-lo na eleição. Interlocutores de Michelle lembram que no fim do ano passado o ex-presidente estava preso na PF praticamente incomunicável, e só divulgou uma carta sobre o assunto depois do fato consumado. Havia a expectativa de que Michelle fosse vice do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, na disputa presidencial.
Um dos caciques do PL admite que a briga familiar pode causar mais ruídos durante a campanha. “Os filhos têm acesso ao pai meia hora por dia. Michelle está com ele 24 horas. Com esse clima, como os filhos vão visitar o pai agora? E como ele vai se posicionar nesse conflito nessas circunstâncias, com o grau de dependência que ele tem dela nesse momento? Eu não sei”, comentou. As informações são do jornal Valor Econômico.
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