Quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 23 de outubro de 2023
A falta de profissionais qualificados está afetando obras da construção civil espalhadas pelo País inteiro. Hoje, o mercado sofre com a escassez de pedreiros, mestres de obra, carpinteiros, armadores, eletricistas e até engenheiros.
O problema é resultado da disputa por mão de obra entre construtoras do setor imobiliário e grandes empreiteiras, que estão em busca do mesmo profissional. O cenário tem sido impulsionado pela proximidade das eleições municipais (em 2024), com a corrida de prefeituras para executar obras de infraestrutura.
Apesar da diminuição dos lançamentos imobiliários neste ano na cidade de São Paulo e no Brasil, a procura por mão de obra não esfriou, afirma o presidente do Sindicato da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), Yorki Estefan. “Estamos erguendo hoje obras lançadas no passado”, explica.
Ele observa que a execução dos empreendimentos imobiliários está a todo vapor, e também as obras públicas estão bastante aceleradas. “Hoje, está faltando tudo”, diz o executivo, fazendo menção à mão de obra para construção.
O retrato da disputa por trabalhadores para erguer obras públicas de infraestrutura e obras imobiliárias do setor privado é nítido nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Entre admissões e contratações, o saldo de postos de trabalho na construção civil acumulado entre janeiro e agosto deste ano foi de 224.482 vagas, aponta levantamento da LCA Consultores. Desse total, o setor privado respondeu por 65% das contratações.
É uma participação bem menor do que foi no ano anterior (77,2%). Já a fatia das obras públicas de infraestrutura no saldo de postos de trabalho da construção civil como um todo, que foi de 22,8% entre janeiro e agosto de 2022, subiu para 35% no mesmo período deste ano.
“Hoje, tem mais competição (por mão de obra) para as construtoras (do setor imobiliário)”, diz Bruno Imaizumi, economista da LCA e responsável pelo levantamento. Ele observa que governo e empresas ligadas à execução de obras de infraestrutura estão contratando num ritmo mais acelerado.
Além disso, entra na disputa por trabalhadores o setor de serviços. O economista lembra que, desde a crise de 2015/16, muitos demitidos da construção civil foram trabalhar com transporte por aplicativo, por exemplo. Desde então, esse setor e outros começaram a absorver a mão de obra que potencialmente poderia se empregar na construção.
A dificuldade de contratar profissionais qualificados já tinha sido apontada no primeiro trimestre deste ano por 74,03% das construtoras e incorporadoras em pesquisa da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Ricardo Michelon, vice-presidente da área de relações trabalhistas da CBIC, afirma que os resultados da pesquisa continuam válidos. “Temos tido dificuldade na contratação de mão de obra qualificada.” De acordo com a enquete, que ouviu 800 companhias do setor, o ranking das profissões de mais difícil admissão tem no topo a atividade de mestre de obra, com 18% das empresas apontado escassez, seguida por pedreiro de acabamento (16,37%), eletricista (10,10%), encarregado geral (9,97%) e carpinteiro (41%), entre outras.
A EBM Desenvolvimento Imobiliário, maior incorporadora do Centro-Oeste, por exemplo, que em 2019 tinha três canteiros de obra e hoje tem 16, enfrenta a falta de mão de obra. “É um gargalo para o mercado como um todo”, afirma Marcos Túlio Campos, diretor de incorporação da empresa.
Essa escassez de profissionais tem pressionado custos. “O metro quadrado se valorizou, estamos conseguindo vender mais, mas a nossa margem, de certa forma, está sendo espremida pelo custo da construção, pressionado pela falta de mão de obra”, explica o executivo.
A construtora Sousa Andrade, de Goiânia (GO), onde ocorre um boom de vendas de imóveis de alto padrão, é outra que enfrenta dificuldade para contratar profissionais qualificados. “Faltam armadores, serventes, mestres de obra, pintores”, diz o CEO da empresa, Murilo Andrade.
Além da disputa pelos mesmos profissionais entre construtoras do setor imobiliário e empreiteiras de obras públicas, mudanças estruturais têm afetado a oferta de mão de obra para a construção civil ao longo dos últimos anos. Vice-presidente da área de relações trabalhistas da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Ricardo Michelon observa que a idade média do trabalhador desse setor tem aumentado ao longo do tempo.
Um levantamento mostra que, em 2011, jovens entre 18 e 24 anos representavam 17,58% da mão de obra da construção civil. Em 2021, essa fatia tinha recuado para 11,74%. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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