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Acontece Famílias ainda enfrentam problemas de moradia mais de dois anos após enchentes no RS

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Levantamento reúne relatos de moradoras de Canoas, Estrela e Muçum e mostra dificuldades com reconstrução, deslocamento e acesso a novas casas.

Foto: Alê Bruny.
Território depois da água Entulho, móveis e objetos descartados ocupam a calçada semanas após a inundação. Frente da casa de Rosangela, e barco utilizado nos resgates no bairro. Mathias Velho, Canoas, RS

Mais de dois anos após as enchentes de maio de 2024, famílias de diferentes regiões do Rio Grande do Sul ainda enfrentam dificuldades relacionadas à moradia. Um levantamento realizado pela jornalista Alê Bruny reúne relatos de cinco mulheres de Canoas, Estrela e Muçum e mostra situações de obras inacabadas, imóveis que ainda não podem ser ocupados, deslocamentos e insegurança diante de novas chuvas.

Em Canoas, Rosângela voltou para casa depois de ajudar no resgate de moradores e animais durante a enchente. O imóvel, no bairro Mathias Velho, ainda apresenta problemas de infiltração, umidade e instalações elétricas. Após a tragédia, a residência também foi utilizada para receber doações e preparar refeições para moradores que retornavam à região.

Na mesma área, Enedina perdeu a própria casa, que ficava no mesmo terreno da mãe, Dona Eva. Antes da enchente, quatro casas no local abrigavam 16 familiares. Dona Eva recebeu uma nova residência, enquanto Enedina ainda pretende reconstruir a própria moradia.

Outra moradora de Canoas, Dona Maria, de 79 anos, aguarda a conclusão de uma nova casa. A antiga residência, onde viveu por cerca de seis décadas, foi demolida para dar lugar à construção. Enquanto a obra não termina, ela permanece em uma estrutura nos fundos do terreno, com problemas de umidade, mofo e acessibilidade.

Em Estrela, Luciane perdeu a casa no bairro Moinhos, área que passou a ser considerada pelo município sem possibilidade de retorno residencial. Ela recebeu recursos para adquirir outro imóvel por meio da modalidade de Compra Assistida. Apesar de a propriedade estar registrada em seu nome, o imóvel continua ocupado pelo antigo morador e ela ainda não recebeu as chaves.

Em Muçum, a enchente também atingiu o cemitério municipal, onde Ivete trabalhava desde 2009. A prefeitura contratou a construção de um novo espaço na Linha São Luís. A transferência dos sepultamentos deverá envolver procedimentos de identificação, exumação, transporte e reinumação dos restos mortais.

Dados mostram dimensão dos danos

Os relatos são acompanhados por dados da Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em julho de 2026. O levantamento aponta que, nos 133 municípios mais atingidos, 81.272 domicílios foram considerados destruídos e outros 190.253, muito danificados.

O estudo também estima que 349.366 pessoas mudaram de endereço em razão das enchentes.

Na área habitacional, um balanço do Ministério das Cidades divulgado em fevereiro de 2026 apontava 10.588 imóveis contratados pela modalidade de Compra Assistida do Minha Casa, Minha Vida. O governo federal também anunciava a construção de 9.350 novas moradias no Estado, sendo 1.983 unidades em obras pelo MCMV Reconstrução naquele período.

No Rio Grande do Sul, o programa A Casa é Sua – Calamidade destinou R$ 66,7 milhões para a construção de 500 módulos habitacionais temporários para famílias que tiveram as casas destruídas ou condenadas.

Os números dos programas habitacionais não permitem determinar quantas famílias atingidas pelas enchentes ainda aguardam uma solução definitiva, já que os levantamentos utilizam critérios diferentes.

O levantamento de Alê Bruny foi realizado por meio do Edital de Apoio à Reportagem da Habitat para a Humanidade Brasil e reúne informações sobre a situação de famílias atingidas pelas enchentes mais de dois anos após a tragédia.

A escala da destruição
Uma árvore arrancada e lançada sobre os jazigos revela a força da correnteza que atravessou o antigo cemitério de Muçum. Muçum, RS

O dique em obras
Máquinas trabalham na recuperação do dique situado diante da residência da família. Em maio de 2026, a obra ainda estava em execução. Mathias Velho, Canoas, RS

A espera na porta
Com um terço nas mãos, Dona Eva relata a experiência da enchente e o período de espera pela reconstrução. Ao fundo, Enedina permanece no cômodo em cuidados com a mãe. Mathias Velho, RS

Reconhecer o que restou
Dona Eva e uma das filhas caminham abraçadas entre os escombros da antiga moradia, no bairro Mathias Velho. Canoas, RS

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