Quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 5 de outubro de 2023
Em 1996, uma professora de 34 anos, casada e com quatro filhos, é levada à delegacia de Seattle para esclarecer o que fazia com um aluno de 13 anos, à noite, no banco traseiro de um carro. Menos de um ano depois, ela é presa por estupro infantil, já grávida da vítima, e o bebê nasce antes mesmo de sair a sentença. Após cumprir a pena de sete anos e meio na cadeia por violar um menor, a professora se casa com o estudante e vende à imprensa o vídeo da cerimônia realizada em uma vinícola no estado de Washington, por estimados US$ 750 mil.
Depois de fornecer farta munição à mídia sensacionalista ao redor do mundo, o caso é resgatado agora no cinema em “Segredos de um Escândalo”, uma das atrações do Festival do Rio, que começou nesta semana. Com quatro sessões no evento carioca, agendadas para os dias 11, 12, 14 e 15, o longa-metragem é inspirado no “amor proibido” de Mary Kay Letourneau e Vili Fualaau, que acabaram ficando juntos por mais de 20 anos e criaram duas filhas.
“Dos homens, é esperada a transgressão sexual. É como se eles já nascessem com uma licença para transar com quem quisessem, uma prerrogativa nunca concedida às mulheres pela sociedade”, diz o cineasta Todd Haynes ao jornal Valor Econômico, explicando o seu interesse por Mary Kay, a ponto de retratá-las nas telas, na pele de Julianne Moore. “Sua vida representa uma oportunidade para analisarmos a cultura em que vivemos.”
Embora professores também sejam punidos ao manterem relações sexuais com alunas menores de idade, a cobertura midiática costuma ser mais barulhenta quando o predador é uma mulher, na visão de Haynes. “O desejo feminino, quando levado ao extremo, tende a incomodar muito mais”, conta o diretor de 62 anos, em entrevista concedida durante a 71ª edição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, encerrado no último fim de semana, no norte da Espanha.
Mas não é período do alvoroço inicial causado pelo romance que o cineasta evoca no filme — com lançamento nacional em janeiro, pela Diamond. O roteiro escrito por Samy Burch se concentra na dinâmica doméstica do casal (aqui chamado de Gracie Atherton-Yoo e Joe Yoo) duas décadas depois que a relação ilegal foi descoberta e o mundo de ambos virou de cabeça para baixo.
O ponto de partida é a chegada de uma atriz, Elizabeth Berry (Natalie Portman), à residência da dupla, em um típico subúrbio americano, não só para conhecer, mas para estudar minuciosamente a psique da professora. Afinal, Hollywood quer reviver nas telas a história da mulher que seduziu um garoto apenas um ano e meio mais velho que o seu primogênito. Fualaau tinha apenas 15 anos quando a sua segunda filha nasceu.
O título original escolhido por Haynes, “May December”, se refere justamente à expressão inglesa usada para descrever romances com grandes diferenças de idade. No hemisfério Norte, maio representa a primavera (simbolizando a juventude), enquanto dezembro está associado ao inverno (no caso aqui, a velhice).
A presença da estrela do cinema, com comportamento pouco ético, começa a reacender a fome dos tabloides e a desenterrar conflitos mal resolvidos. A questão aqui é se o casal vai sucumbir à pressão, reforçada ainda mais quando a atriz passa a se insinuar para o jovem marido da professora, interpretado por Charles Melton.
Nas mãos de Haynes, tudo se desenrola com sutileza e certo mistério, à medida que as identidades dos envolvidos nesse triângulo são descontruídas pouco a pouco. Apresentar seus personagens por camadas, enquanto eles mesmo se descobrem, é quase uma especialidade do cineasta.
Em “Carol” (2015), ele desenvolveu uma história de amor entre duas mulheres durante uma época em que romances gays eram abominados pela sociedade. Em “Não Estou Lá” (2007), Haynes recorreu a sete personagens e a sete atores para explorar diferentes facetas e aspectos da vida e da obra de Bob Dylan.
“Em ‘Segredos de um Escândalo’, a ideia é que o espectador mude de posição conforme a trama for avançando. Enquanto a atriz faz a sua investigação sobre a professora, o público acaba questionando as suas verdades morais também”, diz Haynes, reforçando se tratar aqui de uma história ficcional, com total liberdade para interpretar o caso verídico.
O diretor, no entanto, opta apenas por levantar perguntas, em vez de procurar respostas. “Não é por acaso que a atriz entra na vida do casal com a presunção de encontrar a verdade por trás da união (algo capaz de empoderar a sua performance). Mas quem é ela para contar a verdade? E a verdade de quem ela acha que vai contar exatamente?”, comenta Haynes, lembrando que a verdade é tendenciosa por natureza, servindo aos interesses de quem a conta. “A tal verdade que geralmente vem à tona quase sempre está atrelada a quem tem mais poder na história. E o poder nunca é distribuído igualmente.” As informações são do jornal Valor Econômico.
Os comentários estão desativados.