Sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Por Redação O Sul | 16 de fevereiro de 2020
A diretoria responsável pela premiação francesa equivalente ao Oscar pediu demissão coletiva após semanas de polêmicas envolvendo o diretor Roman Polanski, cujo último filme “Um oficial e um espião” lidera as indicações para a cerimônia de 2020.
As renúncias aconteceram apenas duas semanas antes da premiação do Cesar Awards, em que o filme de Polanski sobre Alfred Dreyfus, um oficial judeu francês acusado injustamente de espionagem para a Alemanha nos anos 1890, recebeu 12 indicações.
“Para honrar os que fizeram filmes em 2019, para reconquistar serenidade e tornar o festival de cinema uma celebração, o conselho de diretores (da academia de cinema) tomou uma decisão unânime de renunciar”, anunciou a academia francesa de cinema em nota.
Grupos feministas haviam repudiado as indicações e convocaram um boicote ao filme. Dezenas de personalidades da indústria cinematográfica — incluindo o ator de “X-Men” e “Os Intocáveis” Omar Sy e Berenice Bejo, do filme “O Artista” de 2011 — denunciaram a “opacidade” da academia em uma carta aberta.
Polanski lançou seu novo filme na França no ano passado poucos dias após uma atriz francesa acusá-lo de estupro. O caso teria ocorrido em 1975, quando ela tinha 18 anos, durante viagem de ski em Gstaad, na Suíça. Polanski, que tem 86 anos, nega a acusação. O diretor franco-polonês fugiu dos Estados Unidos após se declarar culpado em 1977 de ter feito sexo com uma menina de 13 anos em Los Angeles.
Entenda o caso
Em 11 de março de 1977, Roman Polanski (então com 43 anos) foi detido, acusado de ter drogado e estuprado no dia anterior a adolescente Samantha Gailey, de 13 anos, durante uma fotorreportagem na mansão de Jack Nicholson, em Hollywood.
Um dia depois de uma primeira sessão, Polanski voltou a procurar Gailey para um segundo encontro de trabalho, com a autorização de sua mãe, conforme a ata de acusação. Em “Memórias” (1984), o diretor reconhece uma relação sexual, mas rejeita o estupro. A adolescente comemorava ter sido aceita na escola no grupo de quem sabia “se divertir, beber e tomar anfetaminas”, escreve ele.
“Fui fotografada por Roman Polanski, e ele me estuprou”, testemunhou em um livro Samantha Gailey, atualmente Geimer, seu sobrenome de casada. A um grande júri, ela afirmou em 1977 que Polanski lhe deu um sedativo antes de fazer sexo com ela. “Não queria me vitimizar (…), mas não entendia que era jovem demais. Não via que eu tinha medo”, desabafa.
Polanski foi solto da prisão, após pagar uma fiança de U$ 2.500. Condenado por estupro no dia 24 de março, declara-se inocente. No início de agosto, para evitar um julgamento público, reconheceu ter tido relações ilegais com uma menor e, em troca, o juiz abandonou a acusação de estupro com fornecimento e consumo de drogas. Um acordo judicial foi alcançado com o consentimento da família.
Polanksi foi condenado a 90 dias de prisão. Uma perícia psiquiátrica concluiu que não existe perigo. Após 42 dias, ele é liberado por comportamento exemplar. Às vésperas da audiência para homologar o acordo, o juiz mudou de ideia, porém, considerando que a sentença era insuficiente. Em 31 de janeiro de 1978, Polanski parte com destino a Paris, e a Justiça americana lança uma ordem de captura internacional.
Em agosto de 1994, depois que Polanski encerrou uma ação civil pagando US$ 225 mil a Samantha Geimer e em que a pena máxima havia sido reduzida para quatro anos, o promotor o convocou para o tribunal. Samantha Geimer, a quem o cineasta enviou diversas cartas pedindo desculpas, pediu em diferentes ocasiões o encerramento do caso.
Em pleno Festival de Cannes em 2010, a atriz britânica Charlotte Lewis acusou o cineasta de ter “abusado sexualmente” dela quando tinha 16 anos, em uma audição organizada em sua casa, em 1983. Em agosto de 2017, outra mulher, identificada como “Robin”, acusou-o de uma agressão sexual quando ela tinha 16 anos, em 1973.