Sexta-feira, 29 de agosto de 2025
Por Redação O Sul | 29 de agosto de 2025
A idosa teria assumido a presidência da entidade em janeiro de 2024, apesar de não possuir experiência para gerir associações.
Foto: Pedro França/Agência SenadoFrancisca da Silva de Souza, 72 anos, aposentada e moradora de Fortaleza, enfrenta um cenário de injustiça que a transformou, sem consentimento, em “laranja” de uma associação investigada por fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A idosa, analfabeta e com benefício líquido de R$ 900, afirma que teve descontos não autorizados e, desde então, passou a responder dezenas de processos judiciais como suposta presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (AAPEN), que teria arrecadado R$ 275,2 milhões em contribuições irregulares desde 2019.
Segundo a Polícia Federal (PF), a Controladoria-Geral da União (CGU) e o Ministério Público Federal (MPF), a entidade teria criado uma estrutura de fachada para desviar recursos de aposentados e pensionistas, com suspeita de uso do dinheiro em propina a servidores do INSS. Francisca relata que, em setembro de 2023, assinou um documento acreditando tratar-se de um empréstimo de R$ 1,5 mil. Somente em 2025 percebeu que se tornara sócia da associação, após começar a receber notificações judiciais.
A idosa teria assumido a presidência da entidade em janeiro de 2024, apesar de não possuir experiência para gerir associações. Familiares perderam a conta das citações judiciais recebidas; apenas em sua casa, mais de 200 notificações chegaram. A União acionou Francisca e a associação para bloquear bens e ressarcir os aposentados lesados, além de responder por processos trabalhistas de ex-funcionários. A Justiça autorizou o bloqueio, mas a aposentada não possui patrimônio.
A Defensoria Pública do Ceará entrou com ação para desvincular Francisca da associação e permitir que ela se defenda dos processos. “Ela foi ludibriada, induzida ao erro e não é administradora da entidade”, afirma Daniel Leão Hitzschky Madeira, defensor público responsável pelo caso.
Francisca conta que, na ocasião, foi abordada por uma moradora de Fortaleza que oferecia empréstimos consignados a idosos e conduzida, junto a supostos advogados, a um cartório para assinatura dos documentos. Após perceber a fraude, procurou os mesmos advogados, que sumiram, e registrou boletim de ocorrência por estelionato. Em áudios anexados ao processo, pede sua exclusão da associação: “Eu não quero mais participar dessa enrolada”.
A AAPEN mantinha escritório em Fortaleza. Em visita em abril de 2024, a CGU constatou que a estrutura da sede era incompatível com os mais de 455 mil associados distribuídos em todo o país. O site da entidade saiu do ar após a Operação Sem Desconto, deflagrada pela PF e CGU.
Não é a primeira vez que Francisca enfrenta problemas com fraudes. Em 2024, entrou na Justiça contra o Banco BMG, alegando descontos indevidos relacionados a empréstimos consignados e cartão de crédito não solicitado, que totalizam R$ 4.390,12 desde 2017. O banco contesta, afirmando que todos os procedimentos seguiram protocolos regulares.
(Com informações do O Estado de S.Paulo)