Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 19 de abril de 2020
As dores do parto começaram quando ela estava em sua aldeia, no escuro. Seu bebê estava chegando e Milagros Vásquez, 20, precisava de ajuda. Com um minivestido esticado sobre seu inchado e cada vez mais tenso corpo, Vásquez enfrentou uma viagem de moto por três rios e segurou sua barriga por dois trajetos de ônibus. Mas chegar ao primeiro hospital foi apenas o começo.
Ao longo de 40 horas, Vásquez, uma ex-estrela do esporte no ensino médio, visitou um segundo hospital, um terceiro, um quarto. Não temos ferramentas estéreis, disseram a ela. Nenhuma incubadora, disseram em outro.
Ela pegou outro ônibus. Ela dormiu em um banco. Ela chorou na rua, perdendo a conta do número de médicos que colocaram as mãos dentro dela, medindo sua dilatação apenas para pedir que ela fosse embora. Ela tentou um quinto hospital. Não podemos ajudá-la, disseram eles.
O sistema de saúde pública da Venezuela, que já foi o melhor da América Latina, está em estado de colapso progressivo há anos, paralisado por uma economia quebrada, supervisionada por um governo cada vez mais autoritário. Mas poucas partes desse sistema foram tão danificadas quanto suas maternidades, onde as ferramentas mais importantes para o parto — monitores de sinais vitais, respiradores e sistemas de saneamento — quebraram ou simplesmente desapareceram, às vezes forçando os médicos a recusar pacientes.
Metade dos médicos do país, cerca de 30 mil profissionais, foram embora nos últimos anos, muitos deles desesperados para salvar suas próprias famílias, segundo a Federação Médica da Venezuela. O verdadeiro efeito disso para as mães e bebês é desconhecido. Os dados mais recentes vêm de 2016, quando as mortes maternas aumentaram 65% e a mortalidade infantil aumentou 30% em um único ano. O ministro que publicou essas informações foi prontamente demitido – e novas estatísticas passaram a ser tratadas como segredo de Estado.
Vásquez já foi jogadora de handebol no ensino médio, tão famosa por sua força e habilidade que viajou pela América Latina representando a Venezuela. Mas um dia, em janeiro, em frente a um imenso hospital de Caracas, ela caiu no chão, soluçando, com os braços em volta da cintura de sua mãe, Cristina, que bateu na porta, implorando que sua filha fosse admitida.
Vásquez desmaiou. Mas então a porta se abriu e, cerca de 48 horas depois que suas dores de parto começaram, ela deu à luz a Cristal. Seu bebê, nascido prematuro e pequeno, com apenas 1,5 kg, não chegou à manhã seguinte.
Dias depois, Vásquez puxou um cobertor branco do bolso, uma de suas únicas lembranças da filha. As autoridades do hospital se recusaram a fornecer um atestado de óbito e, sem dinheiro para o enterro, ela teve que deixar o corpo de Cristal no necrotério. “Aqui”, ela disse, “uma mulher é tratada como um cachorro.”
Roleta da sorte
Atualmente, para muitas mulheres venezuelanas, a característica que define o parto é uma espécie de roleta da sorte: um processo exaustivo de viajar de hospital em hospital, tentando encontrar um que esteja equipado para ajudá-las.
Em alguns casos, as mulheres morrem. Darwin Maiquetía, 37, perdeu sua esposa, Kenny Chirinos, em 20 de janeiro, depois que ela desenvolveu uma infecção após uma cesariana em um hospital militar. Durante anos, os hospitais têm lutado para adquirir desinfetante.
“O nível de raiva que tenho não é normal”, disse Maiquetía, embalando sua filha recém-nascida, Alena. Ele conta que escolheu um hospital militar porque pensava que, em um país cada vez mais militarizado, seria seguro.
Sanções e desafios
Em seus muitos discursos televisionados, o presidente do país, Nicolás Maduro, afirma que o sistema de saúde do país enfrenta desafios, mas, em geral, vai bem. Em março, ele incentivou as mulheres a “dar à luz, dar à luz”, dizendo que toda mulher “deveria ter seis filhos” para o bem do país.
Ele atribuiu a escassez de suprimentos médicos do país a sanções que o presidente Donald Trump impôs para tentar expulsá-lo do poder. Analistas e críticos afirmam que essa afirmação tem algum peso.
As sanções podem atrasar a entrega dos itens essenciais, mas o governo pode recorrer a organizações de ajuda para conseguir o que precisa, afirma Feliciano Reyna, fundador da ONG Action for Solidarity.
O economista Asdrúbal Oliveros avalia que Maduro simplesmente optou por priorizar a importação de petróleo e alimentos em vez de medicamentos, fazendo o cálculo de que mulheres grávidas e doentes não protestam, mas pessoas famintas sim.
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