Sexta-feira, 12 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 8 de julho de 2015
O ministro grego das finanças, Euclides Tsakalotos, frustrou os credores ao comparecer nessa terça-feira à reunião de emergência do Eurogrupo em Bruxelas (Bélgica) sem uma proposta para retomar as negociações interrompidas no dia 27 de junho. Na segunda-feira, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras telefonou para a chanceler alemã Angela Merkel e havia prometido que a proposta seria apresentada nessa terça-feira.
A apresentação foi adiada para quarta-feira, informou o presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Djisselbloem. Uma teleconferência dos ministros das Finanças do Eurogrupo foi marcada para examiná-la.
A reunião desta terça-feira do Eurogrupo foi convocada após o resultado do plebiscito no fim de semana, no qual 61% dos gregos disseram “não” a uma proposta de austeridade fiscal que incluía aumento de impostos e reforma da Previdência.
Essa proposta já não está mais na mesa, e diversos líderes europeus deixaram claro que a bola agora está no campo da Grécia. “Não se trata mais de uma questão de semanas, mas de uma questão de dias”, afirmou a chanceler alemã.
Nessa terça-feira, os chefes de Estado e de governo dos 19 países que compõem o Eurogrupo (e que adotam o euro como moeda) se reuniram novamente para ouvir Tsipras. O chefe do governo grego marcou um pronunciamento no Parlamento Europeu para a manhã desta quarta-feira.
Saída do euro
O presidente da CE (Comissão Europeia), Jean-Claude Juncker, pediu nessa terça-feira que os egos sejam deixados de lado na mesa de negociação para evitar a saída da Grécia da zona do euro.
“Não se trata de vermos quem tem razão, é preciso separar os egos”, disse Juncker, se pronunciando pela primeira vez sobre a vitória do “não” no referendo de domingo na Grécia.
O presidente da CE, que na semana passada tinha pedido aos gregos que votassem “sim”, se mostrou esperançoso de conseguir um acordo com as autoridades gregas para evitar a saída do país do euro.
Perdão de dívidas alemãs
O economista francês Thomas Piketty causou polêmica ao comentar as negociações sobre a crise grega em uma entrevista publicada pelo jornal alemão Die Zeit.
Autor do best-seller O Capital no Século XXI, Piketty alfinetou as autoridades alemãs pela posição de não aceitar perdoar parte das dívidas gregas.
E o principal argumento do economista é que a Alemanha teria se beneficiado justamente de um expediente do gênero no pós-guerra.
Segundo o economista, se o mundo tivesse usado com a Alemanha o mesmo rigor que o país reserva à Grécia, é bem capaz que os próprios alemães tivessem demorado muito mais tempo para se recuperar da miséria em que se encontravam no final da Segunda Guerra Mundial.
Piketty não foi o único a usar o argumento. O historiador Albrecht Ritschl, da London School of Economics, escreveu sobre o assunto, mostrando que o perdão da dívida alemã equivaleu a 400% do PIB (Produto Interno Bruto) alemão em 1950 e estabeleceu os fundamentos para a recuperação financeira do país.
A Guerra Fria fez os EUA socorrerem a Alemanha mesmo antes da construção do muro de Berlim, em 1961. Mas há quem considere inválida uma comparação entre a Grécia de 2015 e a Alemanha de 1945.
Em 2012, Hans Werner-Sinn, diretor do Instituto Ifo, renomado centro de estudos alemão, questionou a tese de Ritschl em um artigo no jornal The New York Times.
Ele argumentou que a Grécia, ainda durante os esforços de reconstrução após a Segunda Guerra Mundial, recebeu muito mais recursos de países europeus que a Alemanha durante os anos do Plano Marshall – um pacote de assistência pilotado pelos EUA que em números de hoje equivaleria a mais de 130 bilhões de dólares.
Apesar de arrasada pelo conflito, a Alemanha era de interesse estratégico para os EUA no momento em que tinha início a Guerra Fria com a União Soviética.
Em 1953, na Conferência de Londres (Inglaterra), norte-americanos e aliados como o Reino Unido decidiram perdoar quantidades substanciais das dívidas alemãs.
Um montante datava do final da Primeira Guerra, quando os alemães tinham sido obrigados a pagar grandes reparações de guerra às nações vencedoras.
O endividamento criou duras condições de austeridade econômica que contribuíram para ascensão do Partido Nazista, sob a liderança de Adolf Hitler, no início da década de 1930.
Analistas, no entanto, alegaram que o socorro financeiro à Alemanha era uma necessidade que transcendia a geopolítica. Dado o tamanho do país, sua recuperação era importante para a economia mundial.
A Grécia certamente não tem essa importância, mas a dúvida é se um colapso grego em 2015 apresenta os mesmos riscos políticos da Alemanha do pós-guerra. E se o país merece a mesma generosidade dos credores. (AG, BBC e Folhapress)
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