Quarta-feira, 15 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 28 de outubro de 2018
Fernando Haddad estava mais nervoso do que de costume naquele 20 de setembro. Ainda no camarim de seu primeiro debate como candidato do PT ao Planalto, não poupou de mau humor nem os assessores mais próximos.
Quando um deles arriscou perguntar o motivo de tanta irritação, resumiu, com ironia, a angústia que o acompanharia por toda a campanha. “Minha vida está fácil: só me pediram para entrar no lugar do Lula, ganhar a eleição, tirá-lo da cadeia e arrumar a economia. Depois, volto a ser Fernando Haddad.”
Voltar a ser Fernando Haddad pareceu imperativo para o herdeiro do ex-presidente na largada ao segundo turno. Empurrado até lá pela popularidade do padrinho político, o ex-prefeito de São Paulo avaliou que era preciso se afastar de Lula, colocando-se como um nome além do PT se quisesse vencer.
O movimento se impôs já na noite de 7 de outubro. Haddad foi surpreendido ao ver seu adversário, Jair Bolsonaro (PSL), quase levar a disputa no primeiro turno. Abertas as urnas, a constatação do petista foi a de que seria preciso conquistar parte dos 46% dos votos do capitão reformado.
Abatido, fez de seu discurso a defesa da formação de uma frente democrática contra Bolsonaro que seria composta, entre outros, por Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
O gesto de aproximação aos que não se alinharam ao PT nos anos pós-impeachment, porém, se chocava com a essência de setores do partido. Um PT hegemonista e pouco afeito à autocrítica resistia em acenar à centro-direita e, em duelo com o grupo do candidato, deu início a pelo menos dez dias de uma campanha errática que pode custar à sigla uma derrota histórica.
O compromisso do dia seguinte ao primeiro turno, por exemplo, já materializava a contradição. Haddad queria mostrar independência, mas, para isso, precisou da bênção de Lula em visita à cela do ex-presidente em Curitiba.
Com o comando da equipe finalmente na mão, o candidato passou três dias enfurnado em hotéis de São Paulo. Tentava organizar a tropa e detectar os erros até ali.
A campanha, que demorou a perceber a forte onda pró-Bolsonaro e hesitou em atacá-lo até a reta final do primeiro turno, também perdia tempo precioso tentando se recuperar do baque das urnas. Sem eventos de rua na saída do segundo turno, Haddad tirou Lula do material de campanha e dos programas eleitorais, promoveu mudanças no seu plano e fez até elogios ao juiz Sergio Moro.
Mas nada disso deu resultado. Na véspera do segundo turno, Ciro gravou um vídeo no qual não se posicionava em favor do petista. E mais: já se apresentava como possível líder da oposição.
O contato de Haddad com FHC, por sua vez, só aconteceu na última semana – e com contornos genéricos. E a conversa com o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa foi pouco assertiva, rendendo uma declaração de voto somente neste sábado.
Em reunião no dia 16 de outubro, ouviu que era preciso falar grosso com Bolsonaro e apresentar propostas objetivas para o eleitor mais pobre,.
Propor aumento de 20% no Bolsa Família, um teto de R$ 49 para o preço no botijão de gás e priorizar a pauta da segurança pública eram os tópicos à mesa. Haddad topou as duas primeiras.
Sobre segurança, disse ser “inútil” insistir num tema que é a praia de Bolsonaro. A uma semana da eleição, ele deu a virada em seu discurso: anunciou as medidas socioeconômicas e chamou o adversário de “soldadinho de araque” – quatro dias depois, o Datafolha mostrava a recuperação de parte de seu eleitorado no Nordeste.
O ânimo da campanha melhorou no dia 18, quando a Folha mostrou que empresários impulsionaram disparos por WhatsApp contra o PT. O partido admitiu ter subestimado as ações nas redes sociais e iniciou uma ofensiva política e jurídica contra Bolsonaro, que passou a ser investigado.
O discurso virulento e autoritário do candidato do PSL a uma semana da eleição, somado à declaração feita em julho, mas revelada agora, de um de seus filhos, Eduardo, sobre fechar o STF, mexeram com a energia da campanha.
Esses fatos, dizem analistas, corroboravam a tese petista de levar Bolsonaro ao extremo, atrelando-o à ditadura e à tortura, e despertaram a reação de diversos atores políticos. Marina, por exemplo, declarou apoio a Haddad, depois veio Joaquim Barbosa, mas faltaram Ciro e FHC.
Apesar do discurso de que era possível reverter o placar, aliados de Haddad admitiam que uma virada inédita parecia muito difícil. O crescimento na reta final deu ânimo aos petistas. Mas não foi o suficiente.
Uma avaliação interna da cúpula petista é que Haddad teve um desempenho surpreendente na reta final e se cacifa desde já para disputar a prefeitura de São Paulo. Mas há quem acredite que ele deveria deixar a legenda.
No final da noite deste domingo, em discurso de reconhecimento da derrota, Haddad apresentou-se disposto a continuar o combate: “Verás que um professor não foge à luta”, disse.
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