Sábado, 30 de agosto de 2025
Por Redação O Sul | 30 de agosto de 2025
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editorias de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
A civilidade é uma virtude praticamente esquecida no Brasil. Sua falta está na raiz, na origem, na base da polarização que nos paralisa e apequena.
A polarização, em si, não contém nenhum mal em si, e é absolutamente normal nas sociedades plurais e democráticas. Temos conceituações diferentes, e visões de mundo que se entrechocam. A polarização só se torna um problema quando somos incapazes de pensar politicamente além de nossa “lealdade de facção”, no dizer de Talisse.
A polarização como um mal, um atraso, decorre, pois, de crenças tão arraigadas, de convicções tão inabaláveis, que rejeita e hostiliza tudo que tenha origem na facção adversa, que nos incomoda e da qual não gostamos.
E onde entra a civilidade nisso? No fato de que ela implica não apensas em bons modos, respeito mútuo, cortesia no trato pessoal, mas na compreensão de que os outros têm – como nós – o direito de ter as suas razões e defender os seus interesses.
Alguém argumentará: mas eles, os adversários da facção, se comportam mal, adotam táticas de luta desleais, são mentirosos, malbaratam os recursos públicos, não servem ao povo, etc. Está bem. Eles dizem a mesma coisa a nosso respeito.
Os contendores não se lembram, mas quando a oposição sobe ao poder se torna o alvo das mesmas críticas que antes dirigiam ao governo de então. Não se lembram que a vidraça de hoje é a pedra de amanhã. E que não há mais nada parecido com o governo do que a oposição no poder.
O que distingue a relação civilizada entre governo e oposição, o que não provoca a conflagração permanente da polarização, é o tom, a medida, a consideração com a democracia, o protocolo da convivência e da aceitação do outro. O que caracteriza a polarização é cada facção consumindo todas as energias na perseguição frenética do poder, e não na busca do bem comum.
Dou exemplo: é absolutamente inaceitável, vaza todos os limites, a ação de um parlamentar brasileiro, eleito pelo povo brasileiro, servir de escada para as ações deletérias de um governo estrangeiro, que não tem pejo de interferir nos assuntos internos do Brasil, afrontando nossas referências institucionais e contrariando nossos valores e interesses. É a incivilidade no estado da arte: não é nenhum exagero classificá-la como crime de lesa-pátria, de alta traição.
Pratica incivilidade também o juiz que exagera nas razões e aplica penas mais pesadas que o prejuízo do delito acarreta. Pratica incivilidade governo que se vale, de forma oportunista, de episódios periféricos, para esconder seus malfeitos e tirar proveito político. Governo que vai além de certa conta nas suas ações de resposta aos ataques que costuma sofrer.
Praticam incivilidade os ilustres membros das facções envolvidas no embate político, ao exagerar nos próprios méritos, e inflar os erros e deméritos do adversário, de modo a parecer que são superiores moralmente, e que na grei respectiva, não se cometem os mesmos pecados.
Civilidade é respeito mútuo, trato gentil, convívio pacífico com quem pensa diferente: tudo o que falta ao Brasil de hoje. A incivilidade está na base e na origem da desavença sem fim e sem propósito.
(titoguarniere@terra.com.br)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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