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Tecnologia Inteligência artificial é a primeira revolução digital a afetar os próprios profissionais de tecnologia

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O boom da IA também está levando empresas de tecnologia a experimentar a venda de novos gadgets que podem suceder o smartphone. (Foto: Reprodução)

O rápido avanço da inteligência artificial (IA) generativa está redesenhando o mercado de trabalho em muitos setores, mas, pela primeira vez, essa revolução digital afeta os próprios profissionais de tecnologia. Ferramentas de IA capazes de escrever códigos, corrigir erros e sugerir melhorias já assumem tarefas que, nos últimos anos, foram a porta de entrada para os iniciantes na tecnologia da informação (TI). Para especialistas, trata-se de um paradoxo: o atual salto tecnológico coloca sob risco quem o provocou.

Programadores, engenheiros e cientistas de dados tendem a ser os primeiros substituídos por máquinas. Nos EUA e na Europa, big techs já cortam vagas para compensar os altos investimentos em IA. No Brasil, o cenário é outro: tecnologia ainda é o setor que mais abre oportunidades. A Brasscom, associação das empresas de TI no país, projeta a criação de 88 mil empregos formais até o fim deste ano. A demanda seguirá em alta.

Oito em cada dez empresas do setor pretendem contratar nos próximos dois anos, e quase metade vai focar em estagiários e iniciantes, segundo pesquisa da Brasscom com a Fundação Telefônica Vivo. Isso porque ainda há no Brasil um descasamento de 30% entre novas vagas e recém-formados na área. No entanto, habilidades decisivas há pouco tempo agora dão lugar à exigência de outras competências desses profissionais sob a influência da IA.

Não basta ter domínio das linguagens de programação, é preciso saber trabalhar com sistemas de IA. O programador clássico, que na última década escrevia seus códigos de forma “braçal”, agora dá lugar a quem sabe orquestrar algoritmos e consegue pensar além deles. O perfil demandado mudou. Criatividade, por exemplo, será mais importante nos próximos cinco anos que a simples análise de dados.

“Funções repetitivas como suporte técnico básico e analista de testes manuais de software já são impactadas pela IA e perderam relevância. Até porque essas novas tecnologias substituem o trabalho mais operacional dos desenvolvedores”, afirma Elisa Jardim, gerente da consultoria de recrutamento Robert Half, citando habilidades em machine learning (aprendizado de máquina), cloud (computação em nuvem) e cibersegurança como mais procuradas pelas empresas. “Quem se atualiza e busca entender novas tecnologias tem boas chances de se recolocar. Mas não basta ser só um conhecedor de IA. Os profissionais precisam de pensamento crítico e conhecimento de diversas áreas. Entender aspectos sociais e éticos também é essencial.”

Se a régua já subiu na hora de contratar profissionais de TI, a adaptação para os que estão em início de carreira tem sido um processo cheio de incertezas. A IA já é aliada indispensável para acelerar tarefas, mas saber equilibrar seu uso no dia a dia ainda é um desafio.

Formado em Física pela Unicamp em 2019, o cientista de dados Giulliano Pastor trabalhou nos últimos anos em duas instituições financeiras. Viu de perto a popularização de sistemas como ChatGPT e Cursor, trocando com colegas impressões sobre até que ponto cada um se apoiava neles. Com o tempo, ele se acostumou a delegar tarefas mais complexas à IA, o que lhe abria tempo para outras funções, como a de planejamento.

“Antes tínhamos que escrever linha por linha (do código). Agora não. Você diz para a IA: ‘Preciso que o código faça isso e aquilo’, e ela faz o bloco de código pra você. Isso é muito prático, então ficou fácil depender disso”, conta.

Mas essa dependência cobrou dele um preço. Desligado há pouco mais de um mês, participou de um processo seletivo em que o uso de IA no teste era proibido. Travou em tarefas que considera simples.

“Foi um pouco chocante. Eu me deparei com questões que eram fáceis, mas, por eu depender da IA durante algum tempo para executar as tarefas, fiquei travado por ter que escrevê-las do zero. É como se eu precisasse daquela ‘bengala’” diz Pastor, que ouviu algo parecido de colegas. “Muitos se sentem com ‘síndrome do impostor’ ao delegar tudo para a IA e não se sentem mais programadores.”

Agora, Pastor decidiu refazer o caminho. Voltou às videoaulas de Python para resgatar fundamentos e às competições de programação em sites para testar habilidades. As informações são do jornal O Globo.

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