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Colunistas Jango: 50 anos depois, a história que tentaram apagar

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Foto: Reprodução

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Cinquenta anos após a morte de João Goulart, o Brasil ainda convive com uma dívida histórica que nunca foi plenamente quitada. Não se trata apenas da memória de um presidente deposto, mas da tentativa deliberada de apagar um projeto de país que contrariava interesses poderosos.

Jango foi mais do que uma vítima do Golpe de 1964. Foi um líder que ousou propor mudanças estruturais em uma nação profundamente desigual. Herdeiro político de Getúlio Vargas, ele carregava consigo a ideia de que o desenvolvimento econômico precisava caminhar ao lado da justiça social.

As Reformas de Base sintetizavam esse projeto. Reforma agrária, urbana, educacional e fiscal. Medidas que hoje ainda frequentam o debate público, mas que, à época, foram tratadas como uma ameaça inaceitável pelas elites econômicas e por setores conservadores. Não porque fossem inviáveis, mas porque mexiam na estrutura de privilégios que sempre organizou o poder no Brasil.

A queda de Jango não foi um acidente da história. Foi uma escolha política. E, após sua deposição, veio algo ainda mais grave: a construção de uma narrativa para justificar o injustificável. Durante décadas, tentou-se reduzir sua figura à caricatura de um presidente fraco, indeciso, incapaz de governar. Uma versão conveniente para encobrir a ruptura democrática e naturalizar o autoritarismo.

Mas o tempo, como sempre, recoloca as peças no lugar. Hoje, há cada vez mais clareza de que João Goulart foi interrompido não por falhas pessoais, mas por representar um projeto que não interessava aos donos do poder. Até sua morte, ocorrida no exílio, segue cercada de dúvidas, especialmente quando analisada à luz da Operação Condor, que articulou regimes autoritários na perseguição de lideranças políticas no continente.

O que se tentou fazer com Jango foi mais do que derrubá-lo. Foi silenciá-lo na história. Retirá-lo dos livros, esvaziar seu legado, impedir que novas gerações compreendessem o que estava em jogo naquele período. Um apagamento que não foi casual, mas estratégico.

Ainda assim, há ideias que não se enterram. O trabalhismo, que nasceu com Vargas, ganhou densidade com Jango e encontrou em Leonel Brizola um de seus maiores defensores, segue vivo e é hoje a única corrente política brasileira com identidade clara, compromisso histórico com o povo e um projeto consistente de país baseado na soberania nacional, na valorização do trabalho e na redução das desigualdades.

E é justamente aqui que os 50 anos da morte de Jango deixam de ser apenas memória e passam a ser desafio. O Brasil de hoje enfrenta problemas que dialogam diretamente com aquele período. Desigualdade persistente, concentração de renda, fragilidade das relações de trabalho e um debate recorrente sobre o papel do Estado. Questões que Jango tentou enfrentar e que seguem sem solução definitiva.

O futuro imediato do trabalhismo não pode se limitar à reverência ao passado. Precisa ser afirmação política. Atualização de linguagem, reconexão com as bases populares, formação de novas lideranças e capacidade real de disputar rumos no presente.

Mais do que lembrar Jango, é preciso compreendê-lo no tempo atual. Porque, no fundo, o que está em disputa não é apenas a memória de um presidente, mas a permanência de um projeto nacional que foi interrompido.

Cinquenta anos depois, João Goulart continua sendo um nome que incomoda. E talvez esse seja o maior sinal de que sua história jamais foi superada. Ela apenas foi adiada.

*Guto Lopes
Comunicador da Rede Pampa e jornalista

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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