Quinta-feira, 09 de abril de 2026
Por Edson Bündchen | 3 de dezembro de 2020
A área de gestão de pessoas está diante de um imenso desafio. A voraz competição empresarial desses tempos incertos ameaça a germinação da boa liderança e estimula o surgimento de lideranças tóxicas. Muitas empresas se converteram em estruturas insensíveis, onde predomina o medo e há crescente proliferação de doenças ocupacionais. É imperioso construir alternativas! Rubem Alves pergunta: o que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro, claro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro, arremata o consagrado pedagogo.
Seriam os gestores jardineiros? Teriam os gerentes de hoje, a partir de suas competências, inteligência emocional e valores, condições de fomentar ambientes de trabalho mais humanizados? Penso que sim. Um gerente competente e atento, pode ser o agente de uma profunda transformação no modo como se comporta o grupo ou as pessoas individualmente. A rica metáfora do jardineiro, transposta para o muitas vezes frio ambiente corporativo, revela que ter o foco certo é fundamental. O cuidado com as pessoas e sua permanente valorização, são elementos essenciais no fomento a ricos espaços inovativos, criativos e fecundos. Nesse sentido, também é preciso dar voz a todos. As queixas e os ruídos são geralmente frutos do discurso não dito, mas que precisa fluir, ter espaço, despertar. Calada a voz, perde-se o impulso para a mudança. Calada a voz, perde-se a vida. É preciso escutar, antes de apenas ouvir.
O gestor que não somente permite essa liberdade em sua equipe, mas a inunda com espaços emancipatórios e lhes dê sentido de propósito, libera grande energia criativa entre as pessoas, promovendo também maior autonomia, confiança e satisfação no trabalho. Cultivar e valorizar as diferenças e investir nessa heterogeneidade, permite que emergentes talentos despontem, pois encorajados foram a partir de uma matriz substantiva, autêntica e multicultural. Não basta ordenar. Liderar é, antes de tudo, arrastar pelo exemplo, pela presença, pela coerência. Carecemos de líderes que oportunizem a seus liderados sonhar, auscultar novas fronteiras, sem medo de errar, sem medo de ousar, sem medo de idealizar um futuro melhor. O olhar atencioso do jardineiro da esperança, incorpora em si a virtude da empatia, a premissa fundada no próximo, e na crença legítima de que o verdadeiro tesouro se encontra no coração e na alma dos colaboradores, muito mais do que em suas mãos e cérebros.
Num quadro que aponta para um futuro mais colaborativo e cooperativo, restam poucas dúvidas acerca da emergência da jardinagem corporativa. Quiçá tivéssemos milhares de jardineiros da esperança em nossas organizações, fertilizando os ambientes empresariais com atitudes concretas, coerentes e persistentes, no sentido da criação, expansão e consolidação de um modelo de gestão verdadeiramente mais humano, livre dos modismos e de conceitos que não fazem mais eco, especialmente aqueles baseados no comando, controle e no uso indiscriminado de ameaças como método de gestão.
Carl Jung nos ensinou a conhecer todas as teorias, dominar todas as técnicas, mas ao tocarmos uma alma humana, sermos apenas outra alma humana. Nessa perspectiva imaginada, mas possível, o jardineiro corporativo é autor, coautor e construtor do inadiável movimento de permanente sondagem de um leque ainda inexplorado de oportunidades, de um conjunto ainda inédito de possibilidades. Esse futuro esperançoso terá que ser construído, e gradualmente descortinado, com discernimento e coragem, alçando o ser humano, de fato e de direito, a ocupar o seu indelegável protagonismo neste novo milênio, ainda bastante marcado por práticas de gestão que há muito tempo já deveriam ter sido superadas.
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