Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2021

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Edson Bündchen Uma janela para Porto Alegre

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Corria o ano de 1969. O professor emérito de Stanford, Philip Zimbardo, iniciava uma inovadora pesquisa em psicologia social. Um carro, em perfeito estado de conservação, foi abandonado no Bronx, bairro pobre e violento de Nova Iorque. No mesmo momento, outro veículo idêntico era deixado em Palo Alto, região rica da Califórnia. Após uma semana, o veículo do Bronx havia sido destruído por vândalos, enquanto o seu congênere permanecia intocado. Então, um vidro do carro ainda intacto foi deliberadamente quebrado. Poucos dias depois, esse automóvel também foi seriamente danificado. Alguns anos mais tarde, um experimento semelhante foi conduzido pelos pesquisadores de Chicago, James Q. Wilson e George Kelling, agora usando janelas com vidraças como objetos de observação. Eles igualmente conseguiram demonstrar que o efeito de uma janela quebrada, e não consertada, desencadeia uma série de efeitos secundários perniciosos, na teoria que ficou mundialmente conhecida como “Broken Windows Theory”, ou Teoria das Janelas Quebradas.

Os experimentos acima descritos, contudo, não ficaram limitados ao campo da psicologia social. Rudolph Giuliani, ao assumir a prefeitura de Nova Iorque, em 1994, convidou William Bratton para ser o comissário de polícia da cidade. Ao compreender o alcance prático dos experimentos acadêmicos de Wilson e Kelling, Bratton estruturou um plano de ação, passando a combater os pichadores das linhas de metrô nova-iorquinas, punir flanelinhas, prender pequenos contraventores e estimular as polícias comunitárias. Entre 1994 e 1998, os crimes violentos em Nova Iorque caíram 38%, e a taxa de homicídios reduziu em 51%. Esse notável resultado comprovou o poder das ações públicas quando focadas na base dos problemas. A mensagem enviada, de tolerância zero em relação aos pequenos delitos, repercutiram como um sinal poderoso cadeia acima, sinalizando aos criminosos que havia Lei, e ela seria cumprida com rigor. Não existia mais a percepção de impunidade.

Ao olhar para a realidade de Porto Alegre, não deixa de ser quase intuitivo imaginar que existe um espaço apropriado para uma estratégia similar à Nova Iorque. Da aviltante expressão “rotting apple”, ou maçã podre, a metrópole americana converteu-se num dos centros mais dinâmicos e modernos do mundo, e essa também pode ser uma possibilidade concreta para a capital dos gaúchos. Enquanto na maioria das grandes cidades do planeta, as áreas centrais são as mais valorizadas, em Porto Alegre ocorre o contrário: parte dos prédios estão caindo aos pedaços, abandono e violência afugentam moradores e empresas, tornando o ciclo de degradação cada vez mais crítico. E não se trata de uma questão meramente paisagística. Estamos falando de uma estratégia que torne a vida urbana mais organizada e segura, com reflexos em maior convívio social, e consequente estímulo a novos negócios, qualidade de vida, emprego e renda.

Assim como Nova Iorque combateu os pequenos delitos como forma de diminuir os grandes crimes, a estratégia para recuperar Porto Alegre poderia seguir e mesma lógica: além da questão da segurança, também recuperar praças e locais públicos, podar o mato, incentivar a restauração das calçadas e garantir uma boa iluminação pública. Em paralelo, criar medidas de caráter mais estruturante, como incentivos fiscais para repovoar o centro, resolver a situação dos milhares de imóveis deteriorados e envolver a comunidade na criação de uma cultura de zelo ao patrimônio público e de terceiros. Inteligência e capacidade instalada existem. Porto Alegre é uma cidade à espera de um gestor com visão, coragem e competência para abraçar essa concertação. A teoria das janelas quebradas é uma ideia já testada, e pode ser usada tanto como orientação para negócios ou em políticas públicas. Implementá-la diz respeito a uma decisão política. Não podemos mais conviver de modo omisso com nossas janelas quebradas.

 

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