Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2021

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Edson Bündchen Velhos demais?

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O Itaú anunciou a indicação de um executivo de 44 anos para comandar a instituição. É a primeira vez que alguém com menos de 50 anos tem essa missão. Analistas receberam a nomeação como um sinal de que haverá mudanças na estratégia da empresa, especialmente no fechamento de agências físicas e atuação mais forte no mundo digital. Esse fato coloca em evidência uma discussão bastante presente no mundo acadêmico e corporativo em relação à idade dos executivos, e sua correlação com as competências requeridas pelas organizações. Estaria hoje o mercado mais alinhado com características marcadamente juvenis, como agilidade, arrojo e familiaridade com novas tecnologias, ou a moderação, a experiência e a sabedoria seriam mais adequadas para o atual ambiente de competição extremada que em vivemos? Dessa resposta, muitos dos planos terão ou não sucesso, a partir das escolhas que estão sendo feitas por conselhos de administração cada vez mais apreensivos em relação ao futuro.

É evidente que a geração nascida neste novo milênio possui uma relação mais natural com as novidades tecnológicas. Já alguém nascido em meados dos anos 80 do século passado, tal qual o executivo agora promovido, passou a ter contato com a era do algoritmo com idade para ingressar no mercado de trabalho, ou seja, teve que aprender a navegar no mundo digital já adulto. Mas aparentemente não é somente essa a questão. O que mais estaria distinguindo os perfis de executivos com diferenças menores de 20 anos entre si? Há evidências bem pronunciadas de não ser matéria apenas cronológica. Por trás da diferença temporal, reside um conceito ainda vigente de que o passar dos anos subtrai do comportamento gerencial predicados considerados essenciais no universo da competição corporativa, tais como a velocidade, a energia e certa intrepidez que uma menor vivência encoraja. Isso, até certo ponto, contraria algumas outras visões de que esse ambiente complexo e imprevisível, requer, na verdade, saberes e comportamentos mais conservadores e ponderados.

A dinâmica das grandes empresas exige dos executivos sólida formação moral, profunda capacidade de visão sistêmica, equilíbrio na tomada de decisões e plasticidade comportamental, suficiente para aprender durante toda a vida. É difícil, nessa trajetória de formação profissional, antecipar certas etapas que somente a prática e a vivência diária irão proporcionar. Não há, entretanto, nenhum critério quanto à idade ideal dos executivos que possa ser considerado um padrão mundial. Cada organização, dentro da sua realidade competitiva, faz escolhas que são moldadas por múltiplos fatores, e que refletem tendências bastante particularizadas. Em lugar de buscar nascidos em determinada época, a pretexto de injetar vigor e inovação nos negócios, será preciso encontrar esses requisitos no comportamento dos indivíduos, sob pena de incorrer-se em julgamento empobrecido acerca do verdadeiro potencial de desempenho existente. Isoladamente, a idade não é boa preditora de bons ou maus resultados. É, antes de tudo, uma variável que projeta determinadas expectativas, nem todas pertinentes, em contraste com o conhecimento e méritos que a trajetória completa do indivíduo revela com maior consistência.

Assim, mais importante do que uma escolha isolada de um alto executivo jovem ou experiente para liderar as empresas, é o modo como a distribuição de perfis ocorre cadeia funcional abaixo. Permear toda a organização com a diversidade de várias gerações, absorvendo de cada uma delas suas características singulares, permitindo critérios justos de ascensão, certamente expressa melhor a maneira de enfrentar esse desafio tão atual. Velhos demais, tanto para a vida como para as organizações, estão somente aqueles que perderam a capacidade de sonhar e aprender, e isso é algo que tem tudo a ver com as escolhas de cada pessoa ao longo da vida.

 

 

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