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Colunistas Lembranças que ficaram (67): Assim nasciam os vilarejos e cidades

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Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

Não quero escrever sob o ponto de vista político, administrativo ou geopolítico, mas olhar sob o ponto de vista humano, sócio cultural.

Geralmente os núcleos e pequenos povoados começavam a se formar próximo a um comerciante, onde construíam uma pequena Capela e os moradores, ocasionalmente, se reuniam e confraternizavam. Os cemitérios eram, comumente, ao lado das Capelas. A venda (loja) do comerciante era o ponto de encontro onde os colonos compravam as coisas que não produziam (sal, açúcar, brim riscado, tecidos, xaropes e remédios, ferramentas, velas, querosene para o lampião, fumo em rolo, etc) e, também, onde iam buscar a correspondência de cada um, pois era o endereço que todos davam para receberem cartas. Uma dos exemplos mais marcantes desse tipo de desenvolvimento e formação de povoações foi na região nordeste do então enorme município de Santa Maria onde se estendia uma enorme área sem ocupação que cobria até Passo Fundo. Por isso para região que foi chamada de 4ª Colônia, os imigrantes italianos passaram a ser encaminhados e aí foram nascendo, um a um, lugarejos como Silveira Martins, Faxinal do Soturno, Val de Serra, Val de Buia, Vale Vêneto, São João do Polêsine, Filipson, Ivorá, Agudo, Nova Palma e outros. É uma região montanhosa que as famílias fizeram-na rica e das grandes famílias aí formadas, muitas, depois foram atraídas para o Norte e Noroeste do RS onde apenas Santo Ângelo e Cruz Alta originárias das Missões e das tropeadas, ocupavam terras de campo aberto restando em todo o resto daquele imenso território uma densa floresta que foi ocupada por Ijuí, Santa Rosa, Três Passos e inúmeras outras localidades que viram um grande crescimento em meados do século 20, sendo muito expressiva a quantidade de novos núcleos que obtiveram sua emancipação municipal, mercê do expressivo desenvolvimento alcançado.

De um modo geral as famílias eram grandes e o índice de mortalidade infantil muito alto e a idade média dos adultos muito baixa. A despesa mensal do colono era pouca, pois o pão, biscoito, e mantimentos de um modo geral todos tinham sua própria produção… Cigarro feito, era uma raridade – os fumantes faziam os “paieros” – fumo em rolo, picado, cevado e embrulhado em palha de milho. A maioria tinha um parreiral e faziam seu próprio vinho. Além disso, não sei exatamente, mas em quase todas as localidades tinham alambiques de cachaça que proporcionavam uma excelente renda além do ‘traguinho’ antes da janta. O calçado de uso diário era o “tamanco”, útil e mais simples do que sandália de Capuchinho.

Essa mistura de costumes fez o alemão aprender a comer macarrão a fazer polenta e tomar capeletti, assim como ensinou o italiano a fazer cuca, preparar chucrute e einsbein. E a todos como fazer churrasco e carreteiro.

Quando alguém era picado por cobra (te juro que é verdade) nem se preocupavam com vacina antiofídica – mandavam alguém lá na “casa do ‘cumpadre’ pra ele ‘fazê uma benzedura pra mordida de cobra’” e esqueciam o assunto. Ijuí, minha terra natal, hoje uma bela cidade, oficializada pela UNESCO como Capital das Etnias, nasceu, mais ou menos, assim e lá, já desde o início dos anos 1900 já se falava 19 idiomas diferentes, pois não só alemães e italianos, mas poloneses, ucranianos, húngaros, letos, holandeses, russos, tchecos, árabes, libaneses, judeus, austríacos e outras etnias, atraídos por boas e produtivas terras, para lá tinham ido. Essas etnias por razões de igualdade e similaridade de costumes, religião e formas de relacionamento, normalmente, procuravam se agrupar para conviverem com os mesmos hábitos, mas de um modo geral, a mistura de educação, músicas, religião, festas e comemorações nunca chegou a ser motivo de desarmonia, vivendo em harmonia e cada etnia aprendendo com a outra, coisas da vida e do dia a dia. Um baile nesses lugarejos todo mundo dançava fosse o que fosse: chots, valsa, vanerão, samba, baião, tango e bebiam vinho, cerveja, vodka, cachaça, e o que “pintasse”. Claro que tinham casos de pacíficos e sérios pais de família “encherem a cara” e acabavam botando “os demônios” pra fora e grandes brigas (e até mortes) ocasionalmente aconteciam. Nos primeiros tempos as coisas acabavam se resolvendo em vinganças, acordos, mudanças, pois polícia “nem pensar”.

Da pequena Escola de madeira acabaram surgindo grandes Colégios, das pequenas Capelas surgiram grandes Igrejas, das pequenas bailantes surgiram grandes Clubes, de pequenas várzeas surgiram grandes estádios e com poucos rádios, sem televisão, poucos jornais, 6, 8 ou 10 filhos era a média, que acabou povoando lugarejos, formando cidades, e grandes centros urbanos e… assim caminha a humanidade. Caminhava. Agora cada vez menos filhos, parece que uma reavaliação do mundo está a caminho.

* Luiz Carlos Sanfelice – lcsanfelice@gmail.com

Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.

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