Sexta-feira, 15 de maio de 2026
Por Edson Bündchen | 23 de abril de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Uma pesquisa recente da Genial/Quaest oferece importantes e também reveladoras inclinações do eleitorado brasileiro. Mais do que um retrato do humor do das pessoas, a pesquisa expõe, com rara clareza, o estágio de desenvolvimento em que o Brasil se encontra. Quando a violência aparece como principal preocupação dos brasileiros, à frente de economia, saúde e educação, estamos diante de um diagnóstico estrutural, o que deveria suscitar especial atenção ao tema.
Sociedades podem revelar o seu grau de maturidade pela hierarquia de seus medos. No Brasil, o fato de a segurança pública liderar com folga a preocupação dos brasileiros indica que ainda estamos presos a uma agenda básica, quase primária: a preservação da integridade física. Em termos simples, é um país onde uma parcela significativa da população ainda organiza o seu modo de vida a partir dessa premissa, de um cuidado importante, mas que jamais deveria ter se convertido numa ameaça existencial.
Levantamentos conduzidos por instituições como a Gallup, nos Estados Unidos, e o Eurobarometer, na União Europeia, mostram uma ordem de prioridades distinta entre a nossa realidade e a desses países. Nessas sociedades, predominam preocupações com inflação, crescimento econômico, políticas públicas e, mais recentemente, temas como imigração e mudanças climáticas. A violência existe, mas não estrutura o debate público, não se encontra no mesmo patamar de preocupações que ocupam a mente dos cidadãos.
Essa diferença não é cultural, tampouco circunstancial. Ela é institucional. Países que conseguiram estabelecer níveis mínimos de segurança e previsibilidade criaram as condições para que a população deslocasse sua atenção para questões mais complexas. Onde o Estado funciona, o cidadão consegue pensar no futuro. Onde falha, o presente se impõe com urgência e o medo passa a governar certas decisões.
No caso brasileiro, a centralidade da violência é um sintoma de algo mais profundo. Ela revela a dificuldade histórica do Estado em garantir ordem, aplicar a lei de forma consistente e oferecer condições mínimas de igualdade de oportunidades. Não por acaso, a violência aparece acompanhada, no topo das preocupações, pelos chamados problemas sociais. São dimensões interligadas de um mesmo quadro que apresenta desigualdade persistente, baixa mobilidade social e fragilidade institucional e efeitos econômicos evidentes.
Ambientes inseguros afastam investimentos, encarecem a atividade produtiva e limitam o crescimento. A insegurança cotidiana não apenas deteriora a qualidade de vida, mas compromete o próprio desenvolvimento. Não se trata, portanto, de um problema setorial, restrito à segurança pública, mas de um obstáculo transversal. O espelho oferecido pelos países desenvolvidos cumpre, nesse contexto, um papel esclarecedor. Ele não deveria servir apenas para alimentar comparações estéreis, mas para indicar direção. O fato de a economia ocupar posição central nessas sociedades não significa ausência de problemas, mas sim que as bases do Estado já atingiram um nível de funcionamento que permite um debate mais sofisticado.
O Brasil ainda não alcançou esse ponto. E dificilmente o fará enquanto não enfrentar, de maneira estrutural, os fatores que mantêm a violência e a desigualdade no centro da vida nacional. Não há atalhos. O desenvolvimento consistente exige a construção paciente de instituições capazes de garantir segurança, previsibilidade e acesso equitativo a oportunidades.
A pesquisa da Genial/Quaest, nesse sentido, cumpre uma função que vai além da análise política. Ela revela, de forma quase incontornável, que o país ainda opera sob o peso de urgências básicas. E, ao mesmo tempo, sugere, pelo contraste com outras realidades, que existe um caminho possível.
Esse caminho não começa por agendas sofisticadas ou debates abstratos. Começa pelo essencial. Enquanto o brasileiro continuar temendo o presente, o futuro seguirá sendo uma promessa distante.
(Instagram: @edsonbundchen)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
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