Sexta-feira, 01 de maio de 2026
Por Luiz Carlos Sanfelice | 30 de abril de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Uma viagem longa e marcante que nunca esqueci eu fiz em 1943, com 4 anos de idade. Estando em Porto Alegre, sem os pais, hospedado na casa da minha vó Nenê, que morava na Av. Alberto Bins, bem no entroncamento coma Av. Cristóvão Colombo e ali, desde aquela época, já havia um posto de gasolina como tem até hoje – 2026. Ali morava, também, o tio Lauro Zerwes e a tia Alice, penúltima filha de minha vó e irmã da minha mãe Ondina.
Um dia chegou o tio Homero Bós, filho dela e que depois de cursar a Faculdade de Economia em Porto Alegre, voltou à morar em Ijuí, onde tinha junto com seu irmão mais velho, Marino, uma grande empresa que fora fundada por seu pai, João Baptista Bós Filho, (hoje uma avenida e o Aeroporto de Ijuí). Homero veio à Porto Alegre no seu possante e reluzente super caminhão com 4 faróis (isso não existia em 1943) e como seu empregado e motorista o Leopoldo, homem de confiança e excelente profissional.
Veio com carga de Ijuí e tinha carga de sua empresa para levar, e nessa viagem de volta me levou junto numa longa, cansativa, demorada e épica viagem “por ínvios caminhos cobertos de espinhos” (I Juca Pirama-Gonçalves Dias) cruzando rios por precárias balsas ou atravessando riachos a vau.
Por alguma razão que não faço ideia qual tenha sido, eu tinha vindo sozinho de Trem com minha Vó, para cá e nem faço ideia de quanto tempo fiquei. Contam entre outras coisas que na hora de comer eu andava pela cozinha atrás da vó pedindo: “sopinha vovó”… “sopinha vovó” e que as vezes sumia e iam me encontrar sentado na soleira da porta, na frente da casa, e que inquirido o que lá estava fazendo, eu respondia: “olando as borrenas” (olhando as morenas – 4 anos) O que a mim mesmo me espanta é que mesmo sendo 1943, por ali já passava o bonde e mil carroças do leite, do pão, do gelo, das ‘compras’, das verduras, dos ‘cabungos’ e do lixo.
Saímos de Porto Alegre de madrugada, viajamos todo dia e a noite inteira (eu nem senti – dormi como criança que era) mas me lembro do tio Homero ter comentado com o Leopoldo, logo de manhã – éramos nós 3 na cabine – que ele ficara com o braço amortecido, pois eu ‘caí’ no sono apoiado no braço dele e ele não quis mexer para não me perturbar e o braço amorteceu.
A viagem foi longa, cansativa e extenuante. O caminhão, embora o mais moderno e potente então existente, tinha que percorrer estradas que eram pouco mais que caminhos de carroças. A viagem durou aproximadamente 40 horas, parando só para comer, quando desse e tivesse onde. Hoje os ônibus fazem essa ligação em 6 horas e meia.
De automóvel, eu mesmo fiz em 4h40min. Tio Homero foi um tio muito próximo e muito querido e não perdemos contato nunca, até ele morrer. Foi meu Padrinho ao ingressar no Rotary e como grande caçador desportista foi ele quem me deu uma linda cachorrinha perdigueira puro sangue que tinha até certidão de nascimento. Florão de caçadora. Comi muita perdiz que abati quando ia caçar com ela. Ela “amarrava” uma perdiz ou perdigão com uma categoria de filme. Parava no meio de um passo, esticava o rabo numa horizontal perfeita, fixava o olhar e esperava a ordem de “busca” e saltava. Ele queria que eu fizesse carreira política e me incentivava. Não fiz. Quando fui morar em São Paulo, nos visitou muitas vezes. Senti muitíssimo sua morte…e mais que isso…o quanto é importante para a vida e o equilíbrio emocional da gente ter, além dos pais, um parente próximo mais velho que seja teu amigo, que você confia e no qual você ‘sente firmeza’.… Assim foi o tio Homero, para mim…
* Luiz Carlos Sanfelice – lcsanfelice@gmail.com
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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