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Mundo Mauricio Macri será o único presidente da Argentina não peronista nos últimos 73 anos que conseguiu concluir seu mandato

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Antes do peronismo, o último presidente a terminar seu mandato tinha sido Agustín Pedro Justo (1932-1938). (Foto: Reprodução/Twitter/@mauriciomacri)

Apesar de se despedir da Casa Rosada em meio a uma grave crise socioeconômica, Mauricio Macri caminha para um feito histórico: nesta terça-feira (10), terá sido o único presidente não peronista a concluir o mandato na Argentina desde que Juan Domingo de Perón, que fundou um movimento sobre princípios de justiça social e soberania nacional, e chegou ao poder pela primeira vez em 1946. Chamado de peronismo, esse movimento, na prática, é diverso ideologicamente.

Desde a saída de Perón, os argentinos testemunharam diversos episódios de governos não peronistas, como é o caso de Macri, serem interrompidos antes do prazo final. Dois desses casos coincidiram com grandes crises econômicas: em 1989, Raúl Alfonsín antecipou as eleições e o fim do seu mandato; e em 2001, Fernando De la Rúa deixou o cargo dois anos depois de ter sido eleito.

Por que com Macri foi diferente?

Eleito com promessas de recuperar a economia argentina, Macri deixa o país com uma inflação anual de mais de 50%, segundo dados oficiais, e a maior pobreza da década, que atinge 40,8% da população, de acordo com o Observatório da Dívida Social da Universidade Católica da Argentina.

Apesar disso, o sociólogo e historiador Marcos Novaro, da Universidade de Buenos Aires, avalia que Macri conseguiu concluir o mandato porque a conjuntura econômica agora é menos “catastrófica” do que a enfrentada pelos últimos não peronistas.

“Se Alfonsín ou De La Rúa tivessem tentado a reeleição, não teriam tido a quantidade de votos que o Macri teve [nas eleições de 2019]”, afirma Novaro. Macri, no entanto, foi o primeiro presidente desde a redemocratização que tentou se reeleger para um segundo mandato consecutivo e não conseguiu.

Peronismo “menos selvagem”, diz pesquisador

Outro fator apontado por Novaro, embora de menor importância segundo ele, é que o peronismo “foi menos selvagem” do que nas crises anteriores. Segundo ele, a governabilidade econômica da Argentina “sempre é frágil”, e o peronismo, influente sobre sindicatos e movimentos sociais, tem as chaves para modular a explosão social. Os argentinos ainda têm na memória imagens de saques, protestos e revoltas, o que, segundo Novaro “liquida o governo”.

Temendo que uma desestabilização agravasse ainda mais a situação, diz Novaro, peronistas, sindicatos e movimentos sociais foram mais moderados desta vez.

Democracia amadurecendo

“Lentamente e com muito sofrimento a sociedade argentina está amadurecendo. Cerca de 60% da sociedade está totalmente contra esse governo, mas mesmo assim esperou ir às urnas para dizer ‘senhor presidente, vá embora, não o queremos mais'”, diz Raúl Aragón, diretor do programa de Estudos de Opinião Pública da Universidade Nacional de La Matanza.

Mencionando a situação de países da região, como Chile, Bolívia, Colômbia e Equador, ele afirma que a Argentina acabou optando por “modos republicanos de alternância do poder ou de expressão da cidadania” na relação com a atual administração.

“Isso é uma boa notícia, não só para a política, mas para a sociedade”, diz, lembrando que Alfonsín enfrentou mais de dez greves gerais. Aragón concorda que a oposição, principalmente peronista, atuou de maneira responsável, permitindo governabilidade a Macri, com a aprovação de mais de cem leis – com modificações – pedidas pelo governo, como a que mudou o cálculo da aposentadoria. O mérito de Macri, por sua vez, foi a construção de uma força eleitoral nacional, com a qual se manteve no poder.

Sem golpe militar

Outro aspecto que contribuiu para a conclusão do mandato, segundo Aragón, foi o desaparecimento do “partido militar”, que segundo ele, “sempre intervinha quando os poderes concentrados da economia tinham seus negócios afetados”.

Entre os diversos golpes militares que interromperam mandatos ao longo da história argentina, está o sofrido pelo próprio Perón em um de seus governos, em 1955, e pela sua esposa, María Estela Martínez de Perón, em 1976 – que era sua vice e assume o cargo dois anos antes, após a morte do líder.

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