Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Por Redação O Sul | 22 de dezembro de 2017
Durante dois anos, mais de 220 mil mulheres foram assediadas sexualmente em transportes públicos na França, informou a agência nacional de estatísticas de crimes em seu primeiro relatório sobre o assunto, descrevendo-o como uma “estimativa conservadora”.
O escândalo envolvendo o produtor de cinema Harvey Weinstein nos Estados Unidos acelerou uma reanálise de atitudes acerca de assédio sexual na França, um país que aprecia sua autoimagem como terra da sedução e do romance.
“Embora o público foque principalmente em violência doméstica, violência sexual cometida nas ruas, no transporte público ou em outros lugares públicos é tão séria quanto, e merece mais atenção”, informou o relatório.
O ONDRP (Observatório Nacional de Crime e Justiça Criminal da França) descobriu que 267 mil pessoas – sendo 85 por cento delas mulheres – foram assediadas sexualmente em transportes públicos entre 2014 e 2015, incluindo beijos, apertos, exibições e estupros.
Esta é a primeira vez que o ONDRP, que publica uma pesquisa anual sobre insegurança, focou em assédio sexual em transportes públicos.
Paris foi eleita a terceira cidade mais amigável para mulheres em uma pesquisa da Thomson Reuters Foundation publicada em outubro e ranqueada a quarta menos arriscada para violência sexual.
Mas assédios continuam prevalecendo, muitos nas redes sociais.
“Eu recebi cuspes, fui chamada de prostituta… e em uma manhã apalpada por dois homens rindo em um metrô lotado”, disse Siobhán Dowling no Twitter, descrevendo seu período em Paris quando estudante. “O nível de assédio diário é chocante”.
Idade de consentimento
A onda de denúncias de violência sexual contra mulheres pelo mundo neste ano deu impulso à pressão de ativistas sobre o debate, na França, de uma lei regulamentando a idade de consentimento — a idade a partir da qual uma pessoa é considerada legalmente apta para consentir o ato sexual.
Hoje a idade de consentimento na França é 15 anos, mas vítimas ainda precisam provar que o sexo tenha ocorrido sob “ameaça, violência ou surpresa” para comprovar que houve estupro.
O país não tem uma lei que defina que a relação sexual com alguém abaixo de determinada idade seja automaticamente considerada estupro, como Espanha e Reino Unido (16 anos em ambos) e o Brasil.
Caso a violência ou coerção não seja provada, o agressor só pode ser acusado de abuso, e não de estupro. A pena nesse caso é de cinco anos de prisão e multa de € 75 mil (R$ 293 mil).
O debate se lançou em meio ao #BalanceTonPorc (“delate seu porco”), a versão francesa do #Metoo, o movimento que surgiu nos EUA em reação às múltiplas denúncias contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein.
Lançado em redes sociais pela jornalista Sandra Muller, o movimento acabou virando uma plataforma online que ainda hoje recolhe de maneira anônima milhares de depoimentos de vítimas de abusos, agressões e estupros.
“Esses movimentos trouxeram à luz o fato de o assédio sexual e o estupro afetarem mulheres de toda idade e todo meio social e profissional. Não são casos isolados, mas um grande problema da sociedade. As mulheres abusadas enfim tomaram consciência de que são vítimas, e não a causa do problema”, disse uma representante do Balance ton Porc.
“O que é impressionante é que há um número enorme de mulheres de mais de 60 anos que relatam fatos que remontam às vezes a mais de 40 anos, os quais dizem nunca terem contado a ninguém, e que estão hoje felizes que a palavra enfim se liberte.”
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