Quinta-feira, 16 de julho de 2026
Por Redação O Sul | 15 de julho de 2026
O Ministério da Fazenda elevou para 5,1% a projeção de inflação para este ano, devido aos possíveis impactos negativos do fenômeno El Niño sobre o preço de alimentos. A projeção anterior, de maio, previa um Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 4,5%.
A revisão mostra que o governo espera uma inflação acima do teto da meta perseguida pelo Banco Central (BC), que é de 3% ao ano, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual (ou seja, o limite vai até 4,5%). No acumulado em 12 meses até junho, o IPCA ficou em 4,64%.
Já em relação ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), a Fazenda manteve a estimativa de alta de 2,3% neste ano. A Fazenda diz que a atividade econômica “segue em expansão” e prevê uma aceleração no segundo trimestre, cujos resultados ainda serão divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
As estimativas foram divulgadas nessa quarta-feira (15) no Boletim Macrofiscal, da SPE (Secretaria de Política Econômica).
A entrevista coletiva foi marcada por uma dinâmica atípica no Ministério da Fazenda. Os jornalistas foram proibidos de fazer perguntas ao vivo, usando o microfone. Mesmo presentes no auditório, precisaram enviar os questionamentos por escrito. As perguntas foram lidas pela própria secretária de Política Econômica, Débora Freire.
O ministério disse que o formato foi definido em função das restrições previstas na legislação eleitoral. “Informamos que nossas divulgações estão seguindo as orientações previstas para este período”, afirmou o órgão na convocação da entrevista. Na dinâmica habitual, os jornalistas fazem as perguntas usando o microfone.
Em relação às projeções, Freire disse que um dos principais motivos para revisar a estimativa de inflação é a expectativa de um El Niño no segundo semestre mais forte do que vinha sendo esperado.
O fenômeno climático costuma alterar o regime de chuvas e as temperaturas em diferentes regiões do país, com impacto sobre a produção agropecuária. Com isso, há menor oferta de alimentos, o que pressiona o preço de alguns itens. Além disso, pode haver alta nos custos de energia e logística.
Segundo a secretária, o governo não estima isoladamente o efeito do El Niño sobre os preços, mas reconheceu que há um “viés de alta” nas projeções, uma vez que a extensão do fenômeno ainda é desconhecida.
A SPE também avaliou que o conflito no Oriente Médio continua sendo um dos principais fatores de risco para o cenário econômico. Segundo a Fazenda, embora a trégua entre Estados Unidos e Irã tenha reduzido temporariamente o preço do petróleo, a retomada das hostilidades em 8 de julho — após a data de corte das projeções — voltou a elevar as cotações da commodity e aumentou as incertezas.
Por isso, a secretária indicou que o governo deve manter por mais algum tempo a subvenção de R$ 0,44 por litro na gasolina. Antes, a previsão da equipe econômica era rever o valor ou até retirar totalmente o benefício.
O governo ainda mantém uma subvenção de R$ 1,12 por litro do diesel, mas já extinguiu outra parcela de R$ 0,35 sobre o combustível.
“É o momento de esperar maior clareza em relação ao cenário. O ministro já colocou que a gente tem interesse de retirar as medidas. Mas não temos uma data”, afirmou.
A previsão de um IPCA em 5,1% conversa com as projeções de economistas ouvidos pelo Boletim Focus, relatório semanal do BC junto ao mercado financeiro. Na publicação desta semana, os especialistas afirmaram esperar aumento de 5,16% nos preços neste ano, uma redução de 0,14 ponto percentual em relação à estimativa anterior.
As decisões de juros do BC são balizadas a partir das projeções colhidas com o mercado e pelo conjunto de dados à disposição do Copom (Comitê de Política Monetária), tanto públicos quanto internos do colegiado.
“As previsões da Fazenda vem com um certo atraso, em geral. O mercado faz ajustes diariamente e esses ajustes aparecem no Focus, que serve de norte para o BC. O número do governo é mais um, mas vem no sentido correto: é difícil prever uma inflação abaixo de 5% com choque de petróleo e El Niño na conta”, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.
Por outro lado, afirma Vale, é possível que o ajuste da SPE venha acompanhada de estimativas de aumento de receita: com preços dos produtos mais altos, a arrecadação federal sobe também.
“A hora que a Fazenda faz um ajuste de inflação, ela também faz de arrecadação. Mas mais receita não vai resolver a vida do governo: os gastos primários estão crescendo em um ritmo maior do que o de arrecadação.” (Com informações da Folha de S.Paulo)
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