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Brasil Ministério Público Federal, Conselho Regional de Medicina de São Paulo e Agência Nacional da Saúde investigam uso indiscriminado de hidroxicloroquina em pacientes da empresa Prevent Senior

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O medicamento não é eficaz quando utilizado no tratamento da covid-19. (Foto: Marcello Casal Jr./ABr)

O Ministério Público Federal (MPF), o Conselho Regional de Medicina (CRM) de São Paulo e a agência reguladora dos planos de saúde (ANS) estão investigando o uso indiscriminado de hidroxicloroquina em pacientes da Prevent Senior.

A comissão que zela pela ética das pesquisas no Brasil afirma que um estudo da empresa com aplicação desse medicamento em pacientes de covid já estava pronto antes de ter recebido autorização.

“Uma aula de como não se testar um medicamento”. Assim o Instituto Questão de Ciência analisou e definiu um estudo da Prevent Senior, com 636 pacientes tratados com uma combinação de hidroxicloroquina e azitromicina.

“Eles não testavam para ver se os pacientes tinham o vírus ou não. Eram só pessoas que tinham sintomas parecidos com o da gripe. Quem queria participar podia escolher se ia participar do grupo controle ou do grupo placebo, isso daí tudo foi feito de uma maneira como se fosse um jogo de futebol, que você escreve a regra ao longo da partida. Isso compromete demais o estudo e não dá para tirar conclusão nenhuma”, afirma o microbiologista Luiz Gustavo de Almeida, do Instituto Questão de Ciência.

O plano de saúde divulgou o estudo ainda na fase preliminar, em abril de 2020. Publicou que só duas pessoas morreram: uma por síndrome coronária aguda e outra por câncer metastático.

Mas uma planilha interna da Prevent Senior indica que nove pacientes morreram, e seis deles tinham sido tratados com hidroxicloroquina e azitromicina.

Três dias depois da publicação do estudo, o presidente Jair Bolsonaro citou Fernando Parrillo, dono da Prevent Senior, e afirmou que, entre os pacientes que optaram pelo medicamento, “o número de óbitos foi zero”.

Médicos da Prevent Senior denunciam ainda que as pessoas não sabiam que estavam sendo usadas como cobaias. O diretor da Prevent, Fernando Oikawa, teria mandado “não informar o paciente ou familiar sobre medicação e nem sobre o programa”.

Estudos feitos em várias partes do mundo e respeitando critérios científicos comprovam que a hidroxicloroquina e outros medicamentos do chamado kit covid são ineficazes contra o coronavírus e podem produzir efeitos colaterais graves.

Na última sexta-feira (17), técnicos da ANS, a agência reguladora dos planos de saúde, recolheram documentos na Prevent Senior e deram prazo de cinco dias úteis para a empresa mandar mais informações. O Conselho Regional de Medicina também abriu uma investigação sobre o caso, que está sob sigilo.

Uma das razões para o estudo ter sido suspenso pela Comissão Nacional de Ética e Pesquisa, no ano passado, é que ele foi publicado assim que recebeu a autorização para começar. Quer dizer, já estava pronto antes de ser autorizado pela Conep, a instância máxima de avaliação ética em protocolos de pesquisa envolvendo seres humanos. A comissão entrou com representação, e o Ministério Público Federal investiga o caso.

“A pesquisa já tinha sido feita anteriormente, o que é inteiramente irregular, porque a pesquisa foi feita sem autorização e com critérios diferentes inclusive do que tinha sido aprovado. Quando se faz a pesquisa sem autorização, os direitos e a segurança das pessoas que estão participando da pesquisa não ficam minimamente garantidos. As coisas que estão sendo denunciadas são coisas muito graves. Você imagina, num momento que a pessoa pega Covid e está com medo enorme do que vai acontecer, aí chega alguém e diz que tem que tomar aquela substância x… Não é uma coisa razoável, é uma situação muito desigual. Em que se aproveita dessa fragilidade para fazer testes que não tiveram efeito científico nenhum na prática”, diz Jorge Venâncio, coordenador da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa.

A Prevent Senior declarou que jamais descumpriu determinações da Conep; que o material divulgado em fase preliminar era uma descrição da evolução de casos, e não um estudo científico; que até quatro de abril do ano passado, quando contabilizou os dados, constatou duas mortes, e elas não tinham relação com os medicamentos analisados. A empresa declarou que não omitiu mortes e que prestará todos os esclarecimentos à ANS.

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