Quinta-feira, 05 de fevereiro de 2026
Por Rogério Pons da Silva | 4 de fevereiro de 2026
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul. O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
Gianni Schicchi é uma ópera do compositor italiano Giacomo Puccini inspirada no Inferno, da Divina Comédia de Dante Alighieri. Uma comédia muito popular.
Quem não lembra pode ouvir no YouTube na interpretação da maravilhosa soprano Maria Callas cantando Mio babbino caro.
Ouvindo a ária, somos naturalmente levados pela melodia a imaginar o mais puro amor de mãe embalando seu amado filho em seus braços.
Esqueça. Não é nada disso.
Está com tempo?
Então te senta que lá vem bomba!
A história se passa na cidade de Florença em 1299.
No leito de morte e velório está Buoso Donati, um empresário rico e poderoso de Florença.
Parentes choram lágrimas fingidas, cada um deles de olho na herança do defunto rico.
No velório parentes tentam descobrir onde está seu testamento e quem serão os seus herdeiros.
Fazem buscas pela casa, encontram o documento e descobrem que toda a fortuna vai para os padres do convento.
Agora sim, todos choram de verdade!
Surge Lauretta, filha de Gianni Schicchi, um esperto e ardiloso advogado de Florença, ela uma jovem ambiciosa que está noiva de um sobrinho do falecido e sonha com a fortuna do tio do noivo em suas mãos.
Lauretta propõe aos parentes um plano:
Já que ninguém fora da casa sabe da morte de Donati, sugere destruir o testamento e chamar o oficial do cartório para realizar um novo testamento.
Para completar, Lauretta indica que seu pai, Gianni Schicchi para ocupar o leito de morte se passando pelo rico empresário como se ainda estivesse vivo e moribundo.
A estratégia é facilitada pela semelhança física de ambos, assim criam o ambiente perfeito da farsa para o escrivão refazer o testamento “perfeitamente legal”.
Os parentes sem escolha aceitam o plano de Lauretta.
Porém, Gianni Schicchi tem rixas e divergências com a família dos “Donati” e afirma categórico que não vai ajudar no plano.
Neste momento é que entra a soprano (Lauretta) cantando para seu pai Gianni Schicchi a ária que conhecemos como “mio babbino caro” (meu paizinho querido) pedindo e implorando ao pai que amoleça o coração e participe da falsidade ideológica e o estelionato.
Tudo jogo de cena, óbvio, Gianni Schicchi topa a empreitada.
O cadáver é escondido, chega o notário, com as testemunhas.
O farsante deitado na cama começa a ditar o testamento.
Alguns trocados para os frades, o dinheiro que se encontra na casa dividido em partes iguais para os membros da família.
Todos ficam estarrecidos quando o depoente declara que os moinhos, as empresas e a própria mansão de Donati será para o “seu devoto amigo… Gianni Schicchi”, ou seja, para ele mesmo!
Espanto de todos!! Choro, revolta e desespero entre os familiares, enquanto Lauretta e seu noivo se abraçam e são só alegrias!
Em resumo, mio babbino caro é o pedido da filha ao próprio pai para participar de uma farsa desonesta de mentiras, falsidades e traição.
Da Florença de Dante Alighieri em 1.299 até nossos dias passaram mais de 700 anos.
A distância entre Florença e Brasília é de 8.925 km.
Nem o tempo, nem a distância foram capazes de livrar a humanidade do flagelo das mentiras e dos roubos bem planejados. Aliás, nunca estiveram tão em alta por aqui!
Os nomes de Lauretta e Gianni Schicchi em Brasília estariam muito à vontade e perfeitamente ambientados nas maracutaias da capital do país.
Os escândalos financeiros nos níveis mais altos da república, só reforçam e atualizam a expressão:
A arte imita a vida!
Porém, o mais tenebroso é que apesar de sabermos o verdadeiro sentido da música, continuaremos a ouvir “mio babbino caro”, como antes, mesmo cientes da trama ardilosa de Lauretta e seu pai.
A onda agora é “harmonização retórica” que nos faz acreditar em aparências, e não na verdade factual.
Não há mais interesse no moralmente correto, mas sim, no errado vantajoso, desde que executado da forma correta.
Os personagens protagonistas de um lado estão rindo e debochando das tragédias alheias na melhor expressão de uma divina comédia.
A plateia por sua vez, chora pela roubalheira, injustiças, perseguições e lamenta suas tragédias cotidianas.
Alguma dúvida que estamos em pleno inferno de Dante Alighieri?
(Rogério Pons da Silva – jornalista e empresário – rponsdasilva@gmail.com)
Esta coluna reflete a opinião de quem a assina e não do Jornal O Sul.
O Jornal O Sul adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência.
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Como sempre o Rogério trás um pouco de estória comparando com os tempos atuais.
Mudam os personagens mas as falcatruas são as mesmas. Seguramente o Gianni era careca também. Os carecas atuais de Brasília fazem tudo por dinheiro.
👏👏👏
Maravilha Rogério!
Cada um tem o Gianni Schicchi que merece, o nosso tem nove dedos!!
Muito bem colocado. A história tem seus ciclos