Quarta-feira, 27 de maio de 2026
Por Redação O Sul | 6 de março de 2017
Uma casa antiga no centro da cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires, foi o refúgio encontrado no ano passado por cerca de duas mil mulheres vítimas da violência de gênero. Na sede da ONG Las Mirabal (nome que homenageia três irmãs assassinadas pela ditadura do dominicano Rafael Leónidas Trujillo, que governou o país com mão de ferro entre 1930 e 1961), centenas de mulheres argentinas recebem, há quatro anos, ajuda psicológica, jurídica e aprendem noções básicas de defesa pessoal.
Só nos primeiros dois meses deste ano, o país registrou a morte de uma mulher a cada 18 horas. Os números deste flagelo social são alarmantes e levaram o movimento Nenhuma Menos — que nasceu na Argentina em 2015 e já conta com grupos com o mesmo nome no Brasil, Chile, Peru, na Itália e Espanha — a convocar uma nova greve internacional de mulheres na próxima quarta-feira (8), em 45 países.
No ano passado, quando o Nenhuma Menos realizou duas grandes manifestações na capital argentina, replicadas em muitas outras cidades e países, a estatística não oficial era de uma morte a cada 30 horas. De acordo com membros do movimento, “a reação das mulheres aumentou a violência e a tornou ainda mais cruel”.
“Estamos vivendo um momento de extrema tensão. As marchas ajudaram as mulheres a tomarem consciência de todos os tipos de violência machista e, paralelamente, muitos homens endureceram seus ataques”, afirma Marta Dillon, uma das fundadoras do movimento.
ADESÃO ATÉ DA CHINA
Segundo ela, “esta greve, que começará ao meio-dia e terminará com uma marcha, por volta das 17h, contará com a adesão de 45 países, até mesmo da China:
“Sabemos que na China a margem de ação das mulheres é menor, mas lá também temos seguidoras”, conta.
Dados recolhidos por ONGs argentinas de defesa dos direitos das mulheres mostram que, no ano passado, 322 mulheres foram assassinadas e 87% dos homicidas eram pessoas de seu círculo íntimo. Desse total, 17% das mulheres mortas tinham denunciado incidentes violentos à polícia local.
Em La Plata e outras cidades argentinas, muitas mulheres estão procurando ajuda. A demanda por cursos de autodefesa é cada vez maior, contou a presidente da ONG Las Mirabal, Flávia Centurión.
Na província de Buenos Aires, segundo Flávia Centurión, a polícia recebe, em média, três denúncias de violência de gênero por dia. No ano passado, a principal província argentina foi cenário de um assassinato que provocou comoção: Lucia Pérez, que tinha apenas 16 anos, foi drogada, estuprada e assassinada por dois homens no balneário de Mar del Plata, a cerca de 400 quilômetros de Buenos Aires. Seu caso teve como consequência direta a organização da marcha de 19 de outubro passado, que reuniu cerca de 400 mil pessoas, a grande maioria mulheres, no centro da capital do país. No mesmo dia, foi realizada a primeira greve de mulheres, que durou apenas uma hora.
APOIO A TOPLESS
No mês passado, a capital argentina foi cenário de um “tetazo”, convocado por ONGs locais em repúdio à expulsão de três mulheres que estavam fazendo topless no balneário de Necochea, na província de Buenos Aires.
“A violência aumentou, mas as mulheres estão muito mais empoderadas. Este é um processo longo e difícil”, reconhece Flávia.
No pátio interno de Las Mirabal, fotos de mulheres como Evita Perón buscam estimular as vítimas da violência de gênero que se atrevem a romper o círculo do medo e pedir socorro. O Nenhuma Menos também questiona a desigualdade econômica entre homens e mulheres e na distribuição dos trabalhos domésticos.
“Hoje, 76% dos trabalhos não remunerados são realizados por mulheres, isso também deve ser denunciado e criticado publicamente”, denuncia uma das fundadores do movimento, Marta Dillon. (AG)
Os comentários estão desativados.