Domingo, 14 de junho de 2026
Por Redação O Sul | 29 de março de 2016
Em tempos de debates políticos acalorados, muita gente já se pegou em conversas que mais parecem monólogos do que diálogos. O assunto mais polêmico do momento só deixa mais evidente o que também é claro em bate-papos triviais: certas pessoas não conseguem ser boas ouvintes, ou seja, só querem falar, sem dar a mesma oportunidade ao outro, ou não prestam atenção ao que lhe dizem – sobretudo se a opinião alheia for contrária às próprias convicções. Além de melhorar os relacionamentos interpessoais, desenvolver a capacidade de escutar e compreender os demais faz bem à saúde, combate o envelhecimento do cérebro e ajuda na prevenção do Alzheimer.
“Buscar conviver com pessoas que pensam diferente pode ser bastante desafiador, mas estimula a reorganização de ideias, de modo a tentar reforçar a argumentação, o que aumenta as chances de ser ouvido. É sabido por estudos científicos que ter grande atividade intelectual é fator protetor para demências. Portanto, há muito mais além de fazer palavras cruzadas”, diz o psiquiatra Rodrigo Fonseca Martins Leite.
“Ouvir um amigo que lhe traga informações novas, por exemplo, se você não gosta de futebol mas ele gosta, forma novos circuitos cerebrais que vão prevenir o envelhecimento no futuro”, afirma o neurocirurgião e neurocientista Fernando Gomes Pinto.
Acalmar os ouvidos.
De acordo com Pinto, trabalhos científicos apontam que de 20% a 30% do discurso humano é uma descrição de percepções e sentimentos próprios. Quando uma pessoa expõe isso para outra, circuitos cerebrais relacionados ao bem-estar provocam a liberação do neurotransmissor dopamina.
“Em última análise, falar de suas conquistas é prazeroso. Por isso, seria de bom tom dar oportunidade aos demais de se expressar. Se só uma pessoa fala, é como se ela quisesse ter prazer sozinha”, destaca o neurocirurgião.
Para a psicóloga, analista comportamental e coach Thereza Assunção, o comportamento dos maus ouvintes se deve ao excesso de informação circulante no mundo contemporâneo.
“Os indivíduos formam valores em cima disso. Logo, transformam-nos em verdade e há necessidade de colocá-los para fora. Todo mundo quer ter vez de se posicionar”, ressalta. “As pessoas estão precisando acalmar os ouvidos, assim como a boca nervosa para falar. Hoje, o processo de comunicação está comprometido.”
Conforme Leite, é possível aprender a ouvir e se beneficiar disso. “Estar disposto a ouvir implica curiosidade e exercício intelectual. Conviver com pessoas e se comunicar torna as pessoas mais inteligentes. Ficamos mais hábeis nos relacionamentos e mais humildes também. Ninguém é dono da verdade”, relata. (AG)
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